Torcida em fúria não é novidade no Paraná. Nos anos 40, no Campeonato Brasileiro de Seleções, paranaenses e gaúchos se enfrentaram no hoje Couto Pereira. Jogo duríssimo: Caju no gol paranaense pegando tudo, inclusive uma na base do arrojo nos pés do Tesourinha; lá do outro lado, o Júlio tamnbém em dia inspirado. Até que no segundo tempo, Altevir, ponta-esquerda do Paraná, chutou forte para o gol, o centroavante Neno fez o corta-luz e Batista, na corrida, entrou para marcar. O juiz Pereira Peixoto anulou o gol. Foi, então, que se instalou o caos.
O delegado de Polícia, mais tarde desembargador, Guilherme Albuquerque Maranhão, entrou no estádio no carro blindado para retirar o árbitro. Quando a viatura, super-reforçada, passava embaixo da sede em construção dos coxas, um senhor gordo, mais tarde identificado como o Higino que era goleiro do amador do Palestra Itália, como se fosse um Maciste, jogou de cima uma pedra enorme no forro do carro policial que afundou. A cavalaria da PM entrou em cena, sabre em punho, o que não foi suficiente para dissuadir a massa irada que derrubava a três por dois, com mais precisão do que os palestinos em sua luta eterna com Israel, os cavalarianos.
Naquele tempo não havia droga como hoje, e que é matéria-prima das explosões selvagens nos estádios. Para que se possa imaginar, não havia sequer alambrado para garantir a segurança dos atores do espetáculo, distanciando-os da torcida ululante.
Para as badernas de hoje, muito mais estúpidas, a repressão é inevitável ao lado do processamento exemplar dos que forem apanhados em atos de vandalismo ou de agressões físicas. E, antes de tudo, a providência elementar: o fim, de uma vez, dessa babaquice das torcidas uniformizadas, que apenas servem como mimetismo para gangues de bairros atuarem livremente. Juridicamente é fácil enquadrar esse pessoal: além dos crimes contra o patrimônio público e privado e as pessoas a caracterização fácil no delito de ‘‘formação de quadrilha’’.
O Coritiba já penou uma queda para a segunda divisão por causa de um torcedor idiota, devidamente uniformizado, que saltou o fosso (irregular e muito estreito) no jogo entre o Coxa e o Sport de Recife para agredir o goleiro Rafael (aquele que deu aos paranaenses, pelo Coritiba, o único título brasileiro, de 1985) porque segurava todas no gol pernambucano. Por essa invasão o Coxa perdeu o mando de jogo contra o Santos e por negar-se a atuar no interior mineiro foi para o purgatório da terceira divisão e, mais tarde, tolerado na segunda.
CANADENSES
As autoridades que vieram investigar a vaca louca se vissem o que aconteceu nas duas casas do Congresso no Brasil e na saída do Atletiba diagnosticariam facilmente que as suspeitas canadenses não eram infundadas
SILOGÍSTICA ‘‘O último Atletiba não valeu: bom vai ser ganhar dos vacas- loucas na invernada da Baixada!’’, essa é do infalível Elísio Marques. Isso é replicado pelo urologista Júlio Gomel, atleticano tempo integral: ‘‘Ganhar campeonato sem vencer Atletiba não vale a pena festejar.’’
SINISTRA Apesar de contarmos na esquerda com aquilo que mais se parece com um partido moderno no programa e ações do PT, as manifestações tidas como da ‘‘sinistra’’ são as mais melancólicas como a de sexta-feira com estudantes queimando bandeira do Canadá na Boca Maldita. Um arremedo, com menos de 15 pessoas, do papelão que foi o anti-Davos de Porto Alegre em que cultuaram a maior expressão do primitivismo ocidental, o aldeão Bové, que quer subsídios que impediriam o ingresso dos nossos produtos em mercado francês.
Falta uma episteme, uma doutrina, algo mais orgânico para representar a oposição ao fundamentalismo, também primata, com embalagem de moderno, da globalização e seus corolários na decantada economia de mercado. Não se enfrenta isso com uma funda ou um carro de boi.
MANIFESTO Algumas pessoas estranharam que tenha me referido a uma certa visão profética de Marx (e, é claro, do co-autor, Engels) no ‘‘Manifesto Comunista’’ de 1848. Além de toda a desmistificação religiosa e filosófica que prendiam o homem aos seus ‘‘superiores naturais’’ atenta para a ação revolucionária da burguesia ao conferir caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. ‘‘Para grande desencanto dos reacionários, tirou de sob os pés da indústria o terreno nacional em que esta se fundava. Todas as indústrias nacionais foram destruídas ou estão se destruindo... Em lugar da segregação e da auto-suficiência nacional e local, temos o intercâmbio em todas as direções, a interdependência universal das nações.’’
Mais adiante: ‘‘A burguesia submeteu o campo ao domínio das cidades: criou cidades enormes, aumentou grandemente a população urbana em comparação com a rural, e assim salvou da imbecilidade da vida rural uma parte considerável da população.’’
Não foi bem assim, mas tem certa semelhança com o que se fala hoje de mundialização e congêneres. A vida rural não é imbecil até porque hoje atingida pela comunicação moderna e fora de qualquer isolamento. Mas o aldeão Bovê é bem o reacionarismo de que falava o jovem Marx na vitalidade dos seus trinta anos.
DILEMA Há momentos decisivos em nossa existência que nossos atos ficam na dependência do caráter e também na diferença de uma letra: coonestar ou contestar, eis a questão, diríamos parodiando Hamlet.

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