Davi, funda na mão, enfrenta o gigante Golias. Embora o rei esteja aí na posição dos palestinos de hoje, que perdem quase todas, derrubou o gigante. O imaginário é assim: virtuoso com o pobre ganhando do rico, o caiçara ou o nosso peão levando a melhor sobre o patrão rico. Tudo calhordice, pois o menor sempre se dana até porque tende, pela cultura, a aceitar o papel de servo.
Quando o governador lançou o seu projeto (que reafirmo não ter o respaldo de uma doutrina e mesmo de um plano consistente e orgânico) de mudança do perfil de nossa economia viu-se aí o rompimento da última barreira que nos vinculava, de forma dependente, a São Paulo. Repete-se, como metáfora, a tolice das ideações em que o menor vence o maior. Em primeiro lugar, não dá para comparar os nossos quadros políticos e empresariais, intelectuais e científicos, com os paulistas. Tanto na virtude quanto na sacanagem.
Na Constituição de 1988, o ‘‘pós-moderno’’ José Serra, hoje o ministro da Saúde e pretendente à sucessão de FHC, deu um nó, pior que o Górdio, em nossas pretensões quando, protegendo o parque industrial paulista, o maior da América Latina, impediu que se taxasse com ICMS a venda de energia. Algo assim incabível no discurso da modernidade, todavia ao gosto do patriarcado brasileiro recheado de incentivos e reservas de mercado.
Serra agiu como o Bové, o lavrador francês quixotesco e no aspecto mais anedótico e sem nobreza. Estava porém defendendo interesses regionais, coisa que a nossa elite não sabe fazer.
No fragor da batalha fiscal perdemos outro lance no STF e embora a situação pareça reversível ela mostra como São Paulo age para defender-se da evasão de suas empresas, coisa que o Paraná não sabe fazer como a prática o demonstra. Tanto que o nosso governador, perplexo, não sabe o que fazer com o caso da Chrysler que alcançará em bola de neve outras empresas.
Já levamos muitas de São Paulo, uma delas a farsa do cancro cítrico que tornou o Paraná interditado e permitiu o deslanche dos pomares que dariam fundamento à industrialização paulista do suco. Quando tínhamos estadistas no governo, como aconteceu quando lá estava Munhoz da Rocha, ele, como ministro da Agricultura, derrubou o da Fazenda, o paulista Withaker, na batalha da reforma cambial, em defesa, é claro, da nossa cafeicultura. Como distrito político de Santa Catarina, não há muito a esperar do Paraná, enquanto o cenário e os atores não forem mudados.
BIZARRICE
Por que perdemos para os paulistas? Simples: ontem, em Cascavel, isso só para exemplificar, Lerner, apoiado por um assessor prestimoso, escondia-se de Requião para evitar atritos. Quando o senador se mandou, o governador cumpriu a sua pauta. Um deputado do PMDB, que a tudo observava, comentou: ‘‘Os dois estão de tal forma gordos que se brigassem a luta seria de sumô’’
AXIOMA Outra prova da fragilidade: o governo, na posse do Hermas Brandão, esqueceu de homenagear o Valdir Rossoni e este teria chorado, o que poderia ter como fundo o trecho operístico ‘‘uma furtiva lágrima...’’. Para compensar a indelicadeza, vão dar agora a Ordem do Pinheiro para o Rossoni. Não há gralha azul que suporte pinhão encalhado.
GLOSA A Uniandrade, levando em conta que na 3ª série de Arquitetura só havia cinco alunos, três deles inadimplentes, queria interromper o curso por uma alegada antieconomia. Dos 40 alunos iniciais ficariam os cinco. Essa, a rigor, é a moral da chamada economia de mercado. Por isso que é preciso regulá-la e não deixá-la ao sabor dos acontecimentos como querem os idiotas da globalização fundamentalista.
EPIGRAMA A Petrobras vai ganhar mais um prêmio ecológico: houve vazamento no oleoduto de Paranaguá.
SPRAY A Comsilux, empresa que explora os pardais eletrônicos, sofreu processo de falência no Acre por não ter concluído um condomínio e pago fornecedores. Estava beneficiada por um acordo que não vem sendo cumprido e que por isso vai ser denunciada por um escritório de advocacia do Paraná. - A Uniandrade fará um acordo com outro curso de arquitetura para aceitar os cinco alunos da 3ª série, que pretendia extinguir, por um alegado prejuízo, na tentativa de evitar um processo. - A lei da selva está imperando na faixa mercantilizada do ensino. E segundo o ministro da Educação, Paulo Renato, dessa competição desenfreada se chegará à regulação. - Este ano, pelo jeito, vamos ter mais bronca em torno do IPTU curitibano: até agora, 2,3% dos contribuintes ingressaram com recursos administrativos contra 3,2% de todo o exercício anterior. Os conflitos na área judicial são bem maiores. - O prefeito de Campo Mourão, Tauillo Tezelli, aplicou de 30 a 35% do orçamento em educação. Só em merenda e transporte escolar investiu R$ 1.167.338,91. - Vai sobrar denúncia no andamento da eleição da Federação Paranaense de Ciclismo, véspera de Momo. - Continua a novela dos judiciários: um pedido de vistas na ação do Sindijus determina mais protelação. Para quem espera desde 92 o cumprimento de uma decisão do STF não é novidade. Houve um votou pelos 30,79%, dois pela reposição dos 53,4%, outro pediu vista. Outra matéria polêmica é a rejeição, já com três votos, a um pedido da Associação dos Magistrados contra a badalada ParanáPrevidência. - Essa batalha o governo pode perder no STF, onde a jurisprudência dominante é contra tudo o que se pretende.
FOLCLORE O governador e Requião brincando de esconde-esconde no Show Rural de Cascavel. O Paraná ainda acaba se escondendo de ambos.
CROMO Petrobras é igualitária, vazamento no planalto e no litoral. Sobra o fulgor da iridiscência em nossos rios.

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