É comum, a cada renovação no comando do Legislativo estadual, a promessa (quase com a densidade de um juramento) de que o poder político do Estado, a partir daquele momento, passe a operar no sentido do contraste e também do plurarismo, o que afinal é da sua própria e fica solenemente rebarbativo repetir o óbvio ululante. Só que agora como antes tudo ficará na promessa, o discurso cada vez mais distante da prática e o espetáculo constrangedor das ‘‘vaquinhas de presépio’’ continuará evidenciando que no Paraná, há muito tempo, sepultaram Montesquieu e a visão tripartite dos poderes.
Muita festa, empolgação, ontem na posse do deputado Hermas Brandão, setores da oposição acreditando na maior permeabilidade do Legislativo e que não repita o ritual de subserviência como aquele asqueroso recuo no caso da CPI, já instalada, que examinaria a negociação das ações da Copel com a Sercomtel e cuja sequência é um enigma como o da Esfinge que devorará todos que tentarem decifrá-lo.
Ao contrário, percebe-se no perfil do novo presidente, com passagem tumultuária pela Secretaria da Agricultura e alvo até de investigações, um tom muito parecido com o daqueles que tentam, inutilmente, a imitação de Aníbal Khury, algo incabível nos dias de hoje pela maior participação cívica (não a dos deputados, infelizmente) da população e o zelo do Ministério Público. E também impossível porque o currículo do Buda os suplanta de longe.
Quem pode dar mais contraste ao Legislativo é o povo organizado, pressionando as bancadas, ocupando as galerias, se possível constrangendo. Se vale vaiar o governador, o que é um direito inquestionável, por que não chegar junto dos parlamentares na rua, no café, no clube, nos estádios? Há o telefone, também a Internet, enfim armas mais eficazes.
A Assembléia Legislativa tratou como o governo queria a questão da venda da Copel e quem se omitiu foi justamente o público que poderia ter se organizado e feito a sua parte. Agora é meio tardio fazer o placar para indicar quais foram os leiloeiros, mas dá para produzir constrangimentos no andamento da onda que se seguirá. É o caminho. Não há outro, além, é claro, do Poder Judiciário que é um front chave para o caso da privatização da Copel. Está nas mãos no público, muito mais do que nas de Hermas Brandão, a busca do contraste sempre anunciado e jamais conquistado.
BIZARRICE
Um deputado da base aliada perguntado sobre o que achava da situação do governo fez a ironia: ‘‘Se soprar cai’’
AXIOMA Pressões em Cascavel de professores e credores do Estado em cima de Lerner se ele aparecer para o Show Rural; e, em Curitiba, dos servidores do Poder Judiciário porque o Órgão Especial do TJ julga a extensão do índice de 30,74% a toda categoria. Tudo programado para hoje. A democracia, mesmo quando não desejada, aparece.
GLOSA O PMDB regional pode sofrer com a vitória de Jader Barbalho que mantém uma histórica indisposição com Requião. No passado, Barbalho estava entre os que pretendiam a intervenção no Paraná por causa da postura anti-Quércia. Com ou sem intervenção, o senador paranaense fica isolado. Poderia até ir para o PT, agora com mais chances do que se ficasse no PMDB.
EPIGRAMA Candidatos de si mesmo aqui no Paraná constituem uma tradição que às vezes dá certo. Exemplo: Requião, Alvaro Dias e agora também o Ribas Carli e até Paulo Pimentel.
SPRAY Pesquisa do Ibope na praça para ver o que o povo acha dos governos de Jaime Lerner e de Cassio Taniguchi e de uma lista de candidatos ao Iguaçu. Ei-la: Alvaro, Requião, Cassio e Vanhoni. Nem Greca, nem Alceni, muito menos Rubens Bueno, do PPS. - Derrotas do PFL mexeram com a cuca dos dirigentes e o João Elísio, que não sai do Rio (afinal as decisões daqui são tomadas em Santa Catarina), sugere que Abelardo Lupion seria candidato de consenso ao Senado. De repente não há vaga para o governador. - O PMDB afirma ter achado um vídeo em que Lerner afirma que jamais privatizaria a Copel. Há um outro, aqui já referido, da série da TV Exclusiva, em que Aníbal Khury reafirma ter ouvido a negativa do governador e com o adendo de que preferiria morrer a privatizar a Copel. - No último número da revista ‘‘Paraná em Páginas’’, o tema é tratado com amplo destaque. - Hoje, a partir das 13 horas, com traje social, barnabés do Judiciário vão assistir à sessão do Órgão Especial no Tribunal de Justiça, na qual se pretende que o índice de 30,54% de reposição beneficie a todos. Emissários do Executivo, como sempre, vão alertar que as contas públicas estão sob risco. Pelo que fizeram até agora perderam a moral para dar esse tipo de conselho. - Quem considerar radicalismo o que os sindicalistas estão fazendo desconhecem que ganharam na instância superior, desde 1992, uma reposição bem maior e no meio caminho a magistratura teve reajustes sem que os estratos inferiores da hierarquia fossem atendidos. - Cúpula da CUT-MST faz cursilho neste fim de semana em Curitiba para a programação de lutas. Ironia é o local em que se reúnem: Sítio Cercado. No regime fardado seria uma senha.
FOLCLORE O Fórum Paraná Século 21 do PPS está lançado e com raízes também nas universidades. Comentário do anarquista Elísio Marques: é a ADESG de esquerda que vai atrair, além da Gralha Azul, como é chamado o instituto localmente, alguns tucanos e muitos pavões. Aves de rapina ficariam no PFL, PMDB e PSDB.
CROMO Chove: nos vitrais do templo os santos choram.
AFORÍSTICO Já imaginaram como estará o Paraná em 2002?

mockup