Como no Brasil não existem partidos políticos – o melhor exemplo foi o de ontem no Parlamento nas macunaímicas eleições das mesas do Senado e Câmara – não espanta o fato de complexos empresariais vinculados a políticos assumirem os espaços apropriados às agremiações para decidir pleitos. Um dos sonhos do complexo paranaense-catarinense, de olho nisso e também na privatização da Copel, aproxima-se do delírio: uma chapa, quase uma Arca de Noé, e que una todos os antagonismos em favor da manutenção da rapadura em suas mãos.
Além de contar com ‘‘know-how’’ e, sobretudo, bala na agulha para operações de financiamento político, passam a ter um poder de sedução muito forte, já que os grupos de apoio a senadores como Roberto Requião e Alvaro Dias são precários e se impuseram, nas duas vezes, porque aos que gravitam no mundo dos negócios em torno do poder não havia outra alternativa.
Se aproveitarem Alvaro em novo acordo com o grupo lernerista, como se deu em 98, dificilmente o farão com Requião porque a correlação facilitará a contundência dos seus ataques. Na verdade, tanto alvaristas como requianistas não possuem essa articulação que sobra no situacionismo, o que se acentua na pobreza dos seus quadros técnicos e políticos.
Se saísse esse acordo – como também não é impossível que haja um entre Alvaro e Requião, restabelecendo a aliança anterior do PMDB – a imagem do ‘‘cavaleiro solitário’’ e ‘‘justiceiro’’ (que já não cola com tanto vigor) pode ser adotada outra vez, agora com fundamentos na estranha correlação de forças do outro lado, em favor do senador do PMDB, compulsivo nessa postura. E daí as sortidas do tipo ‘‘o tostão contra o milhão’’, que tanto favoreceu os maiores dissimuladores desse País como Jânio Quadros e, mais recentemente, Fernando Collor, podem ser ‘‘recicladas’’ pelos marqueteiros de plantão.
Na realidade, no Brasil é mais fácil achar um cavaleiro com solitária, parasitado pela tênia saginata ou sólium, do que com aquela carga mítica dos faroestes e de todos os justiceiros. É nessa perspectiva fatalmente que os políticos se assemelham, e muito, com os travestis.
BIZARRICE
O Brasil precisa de uma laparotomia (incisão cirúrgica na cavidade abdominal), como tivemos ontem nas eleições do Parlamento, ou, como querem os mais radicais, ainda se referindo aos políticos, de uma lobotomia?
IPM DA IBM Quem diria, hein, a IBM operando junto com os nazistas? Mas foram só eles ou Henry Ford nos States (e até Getúlio Vargas no Brasil que entregou Olga Benário Prestes aos trogloditas) e as corporações européias também não tinham parte nisso?
É interessante conhecer, para que não se conserve um pensamento fundamentalista em torno do sacrifício dos judeus, no qual até Sartre incorreu, posto que em alguns aspectos o massacre dos palestinos lembre um retrato invertido das tragédias nos campos de concentração, a obra de Norman Filkenstein, também israelense, denominada ‘‘A indústria do holocausto’’, desmistificante.
A história nem sempre anda em velocidade adequada. Ano passado, Thomas Morus, autor da ‘‘Utopia’’, mártir do século XVI, virou santo e pouco antes o papa pediu perdão pelos abusos da Inquisição. Descendentes de Giordano Bruno não agradecem e os de Galileu louvam sua malícia para se livrar da fogueira.
AXIOMA Se conselheiros e altos funcionários do Tribunal de Contas foram vistos no gabinete do Paolicchi, como disseram algumas testemunhas, por que a corte levou tanto tempo para tomar providências?
GLOSA Lerner está aqui ou nos States? Tanto faz. Dá no mesmo.
EPIGRAMA Votar no menos ruim por não poder fazê-lo com o melhor é uma espécie de determinismo fatalista da política paranaense.
SPRAY Passou, quase despercebida na Assembléia, a lei que autoriza compensações para os que detêm créditos em precatórios. Conforme o alcance dos dispositivos instituídos, CR Almeida pode habilitar-se na aquisição, como sócio, da Copel. - No Crea, grande a decepção, anteontem, quando de um encontro para discutir a situação e a venda dos ativos da empresa de energia estatal. Se com seus iguais, Lerner, que é também engenheiro além de arquiteto, está mal, dá para imaginar o que acontece com os desiguais. - Para mostrar a incompetência no campo psicossocial, basta lembrar que antes da última vaia de Londrina houve, além do quiproquó no Aeroporto de Cascavel, a do Pré-Olímpico também na Capital do Norte e a da Arena da Baixada, onde o governador não foi apupado apenas por ser Coxa como também o correligionário Cassio Taniguchi. - Recuperar o ciclismo do Paraná (renovar para ressurgir) é o objetivo de uma chapa que disputa as eleições da federação desse esporte. Entre os componentes campeoníssimos da fase áurea como Kalkbrenner, Adir de Lima, Paulo Bartz e os da geração mais recente como Paulo Jamur. É uma pedalada contra o relógio.
FOLCLORE Lerner tem uma chance amanhã em Cascavel, no Show Rural, para restabelecer as ‘‘Parcerias Impossíveis’’ que fazia no Teatro Paiol, em Curitiba, idéia sugerida pelo jornalista Fábio Campana. É que Requião o desafia para explicar publicamente, naquele recinto, por que vai privatizar a Copel. Se não der parceria pode dar um palmômetro ou um vaiômetro para apurar como estão os dois com o público. No fundo, música de vaneirão. Quem vaiar verá.
CROMO ‘‘Nem o bailado leve das avencas// consola a água prisioneira//.’’ Mais um pouco de Helena Kolody em ‘‘Cisterna’’.
AFORÍSTICO Primeiro se derruba o ACM, depois o Barbalho e assim, aos poucos, é que se reconstrói o País. A tensão é melhor que a paz dos cemitérios.

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