Ninguém, em toda a história do Paraná, viajou tanto para o exterior como o governador Jaime Lerner. Tentam os áulicos justificar esses périplos como relevantes ao nosso Estado, o que jamais se comprovou de forma categórica. A obtenção de prêmios também guarda relativismo como esses que trataram das vilas rurais. Como vivemos numa ordem quase confessional ninguém discute em profundidade essas questões, daí o espanto que uma reportagem como a que a Folha publicou anteontem provoca e que abordou alguns dos aspectos negativos desse programa social.
Mais espanto, porém, foi o provocado pela vaia em Londrina, forma legítima de o povo manifestar-se em qualquer tempo e lugar. FHC sofreu apupos, Covas acabou agredido (o que, convenhamos, já é abuso) e o messiânico Getúlio Vargas foi vaiado no Pacaembu em festa cívica e em plena ditadura. O aliado-base de Lerner, Antonio Belinati, foi cassado e por pressão popular. Um ‘‘background’’ bastante ajustado ao que houve. Em Cascavel, um incidente no aeroporto entre um empresário londrinense e o governador, num bate-boca tenso, já indicava que isso ocorreria. Tanto que o empresário justamente o desafiava a ir a Londrina, por saber que o ambiente lhe seria desfavorável.
A realidade paranaense é essa: corrupção de aliados do governo nos principais municípios como os de Londrina e Maringá. Entre a realidade e a fantasia das viagens ao exterior é claro que a escolha mais adequada é essa. Se Vargas, que era um semideus neste País refém do populismo, foi vaiado, por que Jaime Lerner não haveria de sê-lo, se está decepcionando a maioria do povo, como se viu ainda nos resultados das eleições municipais? Em Curitiba, a vitória foi obtida porque se tornou necessária a retirada de Lerner dos programas eleitorais, o que para os narcisistas é mais agudo que uma vaia.
Se o governo ouvisse o povo – e ele se diz especialista nessas artes – saberia que episódios como os de Londrina podem contagiar. Imaginem quando houver, de fato, uma oposição no Paraná para catalisar esses descontentamentos.
BIZARRICE
Além das tensões fundiárias nas invasões e despejos judiciais, o Noroeste paranaense decidiu plantar bananeiras e milho nas estradas péssimas da região. ‘‘Agimos assim por educação’’ – explica um manifestante – ‘‘e é melhor isso do que mandar o governo plantar batatas!’’
AXIOMA Atletiba empatado: 1 a 1 em ataques a facadas. O primeiro lá na Baixada, o último no Couto Pereira. Quando voltarem a ocorrer mortes, como aliás já aconteceu, aí a Secretaria de Segurança vai pedir o fim das torcidas organizadas e cumprir a sua obrigação elementar.
GLOSA Em Nova York, depois das vaias em Londrina e Apucarana, Lerner foi aplaudido. O primeiro mundo é outra coisa, filosofava o áulico.
EPIGRAMA A falta de organicidade dos partidos políticos está mais do que exposta na crise provocada pelas eleições da mesa do Senado e Câmara. Um jogo de chantagens e cambalachos marca o andamento da novela. E se os personagens envolvidos pudessem representar de longe um paradigma ainda valeria a pena.
SPRAY Mal chegou de sua 39ª viagem ao exterior (a 40ª será em março), Jaime Lerner já pegou um rabo de foguete na questão da volta às aulas. Na verdade, uma minoria de prefeitos deseja a retomada em março, conforme os registros da Secretaria de Educação. - Ele foi informado, também, do reaquecimento das batalhas judiciais de São Paulo contra o Paraná na questão dos incentivos. Essa não é uma parada fácil de ganhar, mas tem um mérito: o de mobilizar a sociedade em apoio ao programa de industrialização do governo estadual. - Aliás, faz bem o Paraná de mostrar que não é mais 5ª Comarca de São Paulo. Mas seria abominável se se transformasse em distrito político de Santa Catarina, como tudo está a indicar. Com um detalhe: também na parte econômica os nossos irmãos catarinas levam a melhor. E o olho gordo está em cima da Copel. - A reação dos pefelistas de Santa Catarina contra a venda da Celesc está ligada a esse conjunto de interesses e de manobras. - O Paraná não tem qualquer figura de destaque nas manobras ligadas às eleições na Câmara e Senado. Alvaro Dias, sob o spotlight da CPI do futebol, com menos brilho e argúcia do que a de Requião na CPI dos Precatórios, pode obter mais resultados. Permanece em cima do muro na eleição da mesa da Câmara Alta, Requião está isolado pela maioria do PMDB, mas será um beneficiário em caso de derrota de Jader Barbalho.
FOLCLORE O políticor caminha pela praia e vê uma ânfora. Ao abrí-la, dela sai um gênio e que se diz seu cativo e que atende um dos seus desejos, um só. O homem apresenta a sua proposta: uma estrada que ligue o Paraná a Nova York. O gênio mostra as inconveniências técnicas do pedido e o político pede então uma coisa singela: a de realizar um bom mandato. O gênio reflete, lembra até na postura o pensador de Rodin e arremata com sabedoria: ‘‘Vamos rever aquela história da estrada, que me parece mais viável.’’
APELIDO Em Paranaguá, o cara que tinha bexigas no rosto era chamado de ‘‘reboco de igreja velha’’.
CROMO Mergulharam o Estatuto da Criança e do Adolescente no repuxo da Praça Osório e ali, observados pelas ninfas, os meninos de rua se banham.
AFORÍSTICO Nas praias de Santa Catarina predominam os argentinos; dentro em pouco até os paranaenses sumirão das nossas.

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