Luiz Geraldo Mazza
Com exclusão do PT, embora esteja caminhando celeremente para a regra comum, os partidos brasileiros não se lixam para eventuais responsabilidades quanto à linha programática. Seus institutos, como o Teotônio Vilela, do PSDB, que reapareceu ontem para dar um empurrãozinho na candidatura do Aécio Neves, ainda que cauteloso em respaldar o que a bancada senatorial decidiu no apoio ao Jader Barbalho do PMDB, e discutir questões como a do ajuste fiscal e seus rigores, são muito fracos, apesar da minoria de verdadeiros interessados em doutrina e que são olhados com desprezo pelos pragmáticos vitoriosos.
Não há no Brasil, no plano do ideário político, nada mais desmoralizado do que a social-democracia. Basta lembrar que foi o ditador, não o estadista, Getúlio Vargas quem criou o PSD que ao menos na sigla parecia assumir essa linha de compromisso e num momento relevante como o da reconstitucionalização do País na Carta Magna de 1946. A social-democracia criou o PSDB para o homem do campo, reacionário até hoje e pagando por isso com a insurgência do MST, um passo adiante do que representaram as Ligas Camponesas de Chico Julião. E fez surgir o PTB para o nascente proletariado urbano num país com 80% da população no campo e o resto nos ainda incipientes sinais de urbanização.
Para quem acompanhava, especialmente com o final da Segunda Guerra, o plano das idéias, a social-democracia era uma expressão intermediária entre o liberalismo e o socialismo, mais aquele do que este. Pois bem: apesar de algumas figuras relevantes, como a de Agamenon Magalhães, que propôs na Carta Magna a lei antitruste, da qual o Cade é a expressão concreta, o PSD era intrinsecamente conservador.
Depois do bipartidarismo do regime militar, foi inventado o PDS, um joguinho de anagrama com a democracia social e que voltaria, sob Fernando Collor, nos discursos inteligentes de Merquior e Hélio Jaguaribe, com outra embalagem, já tentando dar os fundamentos do governo.
O PSDB é, congenitamente, um PMDB encabulado, que tenta esquecer a origem anterior, mas da qual não se afasta nas alianças de conveniência. Cardeais do partido estão em São Paulo; os do Paraná, por exemplo, com rara exceção, são de uma vacuidade a toda prova e marcados pelo oportunismo.
Agora, por exemplo, Alvaro Dias, quando começa a assistir a melhora do quadro social e econômico, reduz suas críticas, superficiais como sempre, a FHC. Ora, quem no Brasil estaria intelectualmente mais habilitado a falar de social-democracia do que Fernando Henrique? É uma brincadeira fazer a analogia, o que dá bem a idéia da nossa pobreza de quadros.
GLOSA
Uma viagem ao exterior a cada dois meses: a trajetória é do governador. Vai receber outro prêmio. Só paranaense é que não se sente premiado com a sua gestão
PT, O MAIS PRÓXIMO O PT não se diz social-democrata, mas na sua ação concreta fará, de forma incontornável, esse papel no processo brasileiro e por uma razão singela: a de não esquecer uma tonalidade afetiva do seu ideário, o socialismo, e que precisa brotar do choque entre as múltiplas tendências. Não o coletivismo e muito menos o Estado policial, como se dava na União Soviética e no Leste da Europa ou em modelos primitivos como o de Cuba, mas a utopia da procura da igualdade, que é do seu campo de responsabilidade, como alerta Norberto Bobbio, como a liberdade, à direita, é o front do liberalismo. O verdadeiro, indispensável à aventura humana, e não a deformação cosmopolita, denominada neoliberalismo, e que não passa de um liberal liberismo, algo como a institucionalização do darwinismo social em sua máxima expressão.
BIZARRICE O maior político do Paraná, em termos provincianos, era um catarinense: Aníbal Khury, porque nasceu do outro lado da ponte em Porto União. Já tivemos um paranaense governando Santa Catarina, o Jorge Lacerda, da minha terra, Paranaguá. Octávio Cesário, o Jaburu, foi como Aníbal governador do Paraná provisoriamente, também catarina.
Amanhã um paranaense, o ex-deputado Paulo Cordeiro, recebe em sua mansão no Jurerê (Florianópolis), a nata de empresários daqui e de lá, que lidam associados com a política. É o renascimento do Cataraná, expressão usada pelo também ex-ministro Karlos Rischbieter, e que falava dos laços entre as duas unidades. Esses laços vão muito além dos de família e formam outra novela.
AXIOMA A mulher do ex-prefeito de Maringá recebia mesada da prefeitura. Isso é mais grave ou equivalente a nomeá-la no gabinete? Se nomeada fosse, não haveria como pagar o equivalente a R$ 10 mil mensais. E o Tribunal de Contas nada percebia como se em relações marido-mulher não devesse meter a colher.
EPIGRAMA Prêmio pode ser aziago: Ciro Gomes, quando governador do Ceará, ganhou um da Unicef por atendimento ao saneamento e, em seguida, houve uma pandemia de cólera que atingiu milhares e matou centenas. E o próprio premiado acabou na cama atingido pela dengue. Doenças de origem hídrica. Algo parecido já se deu quando se badalava muito a ecologia: numa enchente, em Curitiba, centenas de casos de leptospirose.
FOLCLORE Expedito Zanotti, que hoje exercita política em Tocantins, foi deputado federal do Paraná e prefeito de Faxinal. Consta que pegou fogo no prédio da zona e quando o clero e os moralistas pensavam numa faxina, o prefeito, no melhor estilo Odorico Paraguaçu, reconstituiu a casa de amor.
CROMO No teu olhar sereno ainda pouco havia mais do que desejo.
AFORÍSTICO Ameaça de bomba na Biblioteca Pública foi porque não adotaram a moda do expediente único.





