Luiz Geraldo Mazza
Apesar da ida do governador à Renault para visita ao canteiro de obras de utilitários da Nissan, o que recupera apenas parte do otimismo, a sociedade paranaense exige, pelos riscos que está correndo e já que investiu parte de sua poupança através de dilação tributária e subsídios, das montadoras, o quanto antes, o clareamento daquilo que sempre escondeu: os protocolos. A simples informação de que a fábrica de Campo Largo tem apenas uma participação simbólica de R$ 1 da Chrysler Internacional, fato denunciado há anos pelo senador Roberto Requião, já é suficiente para exigi-lo.
Como as decisões internacionais pesam nessa farsa da economia globalizada, percebe-se que a matriz verdadeira, às voltas com uma crise incontornável ao ponto de programar o fechamento de seis fábricas e demitir 26 mil trabalhadores em todo o mundo, pouco ou quase nada tem a ver com essa unidade de Campo Largo que pode fechar a qualquer momento. Os protocolos, já. Sem demora.
BIZARRICE
No Brasil são comuns hoje as agências governamentais (Anatel, Aneel) e no Paraná elas também existem: são as de propaganda, a começar da Heads, a qual um dos proprietários é o genro do governador.
AXIOMA Sabem quanto a Chrysler Internacional, a que realmente dá as cartas, tem no capital dessa fábrica de Campo Largo? Isso aí: um real. O sonho ou pesadelo fica para as nossas costas. Dá para lembrar daquele faroeste italiano Por um dólar furado.
GLOSA Nem um martelinho de ouro, daqueles mágicos, arrumaria a lataria do projeto de industrialização de Lerner. A observação é de Fábio Campana. Mas o brain palaciano se reuniu anteontem para recuperar a imagem e daí tivemos ontem a visita de Lerner ao canteiro de obras da Renault-Nissan. A vassalagem, enfim, à sociedade do espetáculo, que não faz reabrir a Chrysler e nem recupera os empregos perdidos da Audi-Volkswagen. Que fazer? Como diria Lênin, isso decorre da mecânica do mercado, a mão invisível que tudo regula, segundo Miguel Salomão, versado em Adam Smith.
EPIGRAMA Quando o Tribunal de Contas quer algo ameaça prefeitos para atingir os deputados e esses replicam com um projeto que cria um órgão para cuidar das contas municipais. Agora a Assembléia Legislativa, o coral de vaquinhas de presépio, ameaça o Executivo com uma emenda que o obriga a entregar no dia certo o duodécimo correspondente àquele Poder. O Hermas Brandão, a continuar assim, acaba ganhando uma herma na praça Nossa Senhora de Salete. O cantor popular poderia parodiar: e de barganha em barganha// vamos vivendo de amor.//
VIRTUAL O governo Lerner é especialista em confundir aquilo que está de fato acontecendo com os seus desejos, o lay-out original dos seus projetos. Assim foi com o Baía Limpa em que se dava um salário mínimo e uma cesta básica para que a caboclada operosa limpasse as águas interiores de lixo, plástico especialmente. Aí cortaram o salário, mantendo a cesta básica e o Baía Limpa afundou que nem a nau capitânea do Greca. Na versão oficial fica, no entanto, a impressão de que tudo está numa boa. Dá para definir essa filosofia: o virtual sempre; o virtuoso, às vezes.
SPRAY A massa de pequenos e médios agricultores paga direitinho os seus débitos nos bancos oficiais. Tanto que no Banco do Brasil a inadimplência é a menor do país, como alerta a FAEP, com uma taxa de 0,35%.- Já os grandes têm seus meios de renegociar seus débitos com o BB, o que não fazem e nem fizeram com o Banestado e o Badep.- Como se dá no comércio, os pequenos e os pobres são os que agem com maior correção por entenderem que o crédito é, quase sempre, o seu único patrimônio.- Por falar em agricultura, o Rafael Dely, que considero um executivo competente e ministeriável, me convida para uma visita às Vilas Rurais por entender que possa remover minhas dúvidas sobre a eficácia do projeto. As dúvidas permanecem com relação a tudo que pretenda atender à dívida social. (Não uso e abomino a expressão resgatar). Cortou a assistência, como se deu no Baía Limpa, a coisa trepida, crescem a evasão e a rotatividade.- O projeto é ambicioso e lembra até um pouco dessa disposição de Cassio Taniguchi em encarar as favelas de forma gradual para torná-las menos desumanas: acredita-se que 7% da gente do campo é constituída de bóias-frias e nesses seis anos foram erguidas 412 unidades com objetivo de terra, moradia, sustento e renda. Estágio atual seria o de gerar renda. Se querem marcá-la com a estética da pobreza, contratem o Sebastião Salgado, um dos olhos mais fortes do MST. O cenário das Vilas Rurais é o de um cromo de calendário, direção oposta ao fotógrafo Salgado. É doçura demais para ele.- Um absoluto despropósito a pretensão do secretário Tavares, da Segurança, querer que a sua interpretação pessoal se sobreponha a do delegado Adauto no caso do incêndio da PIC, anulando a hipótese de mandantes. Aí parece que o político está se sobrepondo ao técnico.-
FOLCLORE Requião deu uma bola dentro ao denunciar, no tempo certo, que a Chrysler Internacional tinha apenas R$ 1 de participação na fábrica que está fechando em Campo Largo. Bolas foras: a de dizer que a Cidade Industrial era um campo de golfe das multinacionais e que o voto eletrônico se prestava a fraudes (os americanos vieram aqui copiar o sistema, depois do vexame).
CROMO Olhos fechados na escuridão diviso os limites: as paredes, a cama, o teto e ao fundo, bem distante, com a leveza de um fantasma, fluindo, a sua figura permanente, um retrato impressionista.
AFORÍSTICO Uma trombada inesperada: na hora de receber o ICMS represado das montadoras, as fábricas despedem e uma delas ameaça fechar. Estreita-se o espaço do triunfalismo balofo e pegajoso.





