Vivemos um tempo em que se torna, cada vez mais difícil, divisar uma utopia. O pior é que não podemos viver sem elas, pois as da religião, que nos garantem a transcendência, são também necessárias, mas claramente insuficientes ao nosso imaginário político. Depois do fim da Guerra Fria, que assegurava pelo menos ao mundo o contraste da ordem bipolar e caminhando para tripolar, e do desmantelamento do Muro de Berlim e do Império Soviético, o que nos atrai são as crises localizadas: os jovens do Primeiro Mundo hostilizando a globalização e seu ícone da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou o povo iugoslavo cercando o Palácio para a retirada do ditador Milolevic.
No mundo pequeno e medíocre dos campanários brasileiros, hoje asfixiados pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), assistimos a tragicomédia bufa da herança dos governos derrotados como nos casos, aqui próximos, de Pinhais e de Araucária e que reproduzem situações comuns a outros cenários do País.
Não foram poucas as prefeituras que acabaram saqueadas e com os ex-prefeitos em fuga. Num país de Eurico Miranda, empenhado em remover feridos em São Januário para que o jogo prosseguisse, tudo é possível. Por isso que se diz que os escritores do chamado ‘‘realismo fantástico’’ levariam aqui um banho dos jornalistas, daqueles que simplesmente relatam o factual, cujo traço mágico-assombroso tem tudo da ficção de um Cortázar ou de Vargas Llosa, às vezes com tons de Becket, Kafka e de Ionesco.
Jamais entraria, por certo, na cabeça dos lerneristas que um cenário como o do cerco do Palácio iugoslavo se desse no Centro Cívico. Mas essa utopia está na cabeça da frágil oposição que, incapaz de ir além do discurso, o que desde logo é a impotência essencial, precisa sonhar até porque vive no sonambulismo.
Se a herança dos prefeitos é terrível ao ponto de vários deles decretarem a moratória – o que Requião fez na sequência do governo Alvaro Dias que o salvou da derrota inevitável – o quadro atual da gestão Lerner, ainda em meio de segundo mandato, é assustador pela dilapidação do patrimônio, posto que haja uma régia esperança de melhora financeira com a irrigação do ICMS represado pela Lei de Incentivos Fiscais que tanto amparou o desenvolvimento industrial.
Não é difícil de instalar-se o caos, apesar do proclamado aumento do PIB, uma conta que precisamos verificar porque aí o chute é livre. Vivemos a apregoar que superaremos, em renda interna, os gaúchos, mas apanhamos feio deles em matéria de incremento na arredação do ICMS. É pesando tudo isso que a oposição imagina Lerner acuado como um Milosevic num palácio que vai mudar de ocupante, pois o melhor do situacionismo, Cassio Taniguchi, está em conflito aberto com o clã dos áulicos, ruins de votos, mas ótimos devotos.
AXIOMA
Dizem que o PIB do Paraná, em seis anos, teria triplicado. Pois é, mas os nossos pibes, crianças, de 2 a 4 anos, colhem batatas em Balsa Nova. Outros tantos estão nas ruas, inclusive de Curitiba, cheirando cola
BIZARRICE ‘‘Mas eu pergunto: o que é mais infame do que um parlamentar, sem ter um encargo definido, ir a uma missão ao exterior, sem instruções, sem nenhuma função ligada ao Estado?’’. (Marco Túlio Cícero em ‘‘As Leis’’). Qualquer semelhança entre a recomendação e o que acontece com parlamentares e também gente do Executivo não é mera coincidência.
Para os sofisticados o texto em latim clássico: ‘‘Sed quaero, quid reapse sit turpius quam sine procuratione senator legatus, sine mandatis, sine ullo rei publicae munere?’’
GLOSA Se o PIB do Paraná triplicou por que continuamos perdendo dos gaúchos e permanecemos em quinto lugar em renda interna?
EPIGRAMA O presidente do Ipardes, Paulo Garcias de Melo, ontem na TV Globo, ‘‘Jornal do Meio-Dia’’, explicava porque as pessoas migravam e com muita precisão afirmou que buscavam espaços de trabalho que não encontravam nos locais de origem. Governo Lerner, mistificador, tenta sugerir o contrário: que não há falta de emprego. Enquanto isso as cidades-pólo se enchem de favelas.
SPRAY A filha de Cassio Taniguchi, na lista de demitidos do Legislativo, é apenas uma prova a mais de que não nos libertamos do nepotismo. A demissão não abranda a circunstância de um pecado que não é venial. - Lerner bota o cunhado (Henrique Naigeboren, no Tribunal de Contas, Requião põe irmãos e primo-irmão em secretarias e a até a empregada e motorista como inspetores de educação. - Taniguchi nomeia Cassio Chameki, irmão da Rosana que faz dupla com Andréa Lerner no balê em Novioprque, para a Fundação Cultural de Curitiba. - Chamecki é um dos sócios da Calvin, que promove o Festival (muito bom, por sinal) de Teatro de Curitiba; e ele convocou Leandro Knopholz, igualmente sócio, para diretor da Fucucu. - E as coisas não ficam apenas na estrutura do setor público, mas também em áreas que gravitam, na prestação de serviços, em torno do poder. O genro do governador é um dos principais dirigentes da Heads, uma das agências de propaganda que mais faturam no setor público. A condição da competência, neste caso, não elide o tipo de estranheza e de chio que só existe para os adversários. - A participação do Paraná na renda interna, em função da instabilidade das sociedades com base agrária, oscila muito e já chegou muito próxima de 7% em décadas anteriores. - Há convicção de que com o surto industrial (aliás, mais agregador de tecnologia e intensificador de capital do que gerador de emprego) as oscilações possam ser reduzidas. - O Ipardes tem mais compromissos com a ciência e a técnica do que com a propaganda. Mussolini não entenderia isso; os narcisistas também. - Quando a Copel, com seu poder hegemônico dentro da máquina estatal, meteu-se a fazer previsão demográfica no Censo de 80 deu com os burros n’água ao esperar que teríamos 10 milhões de habitantes, número que ainda não alcançamos 20 anos depois. O Ipardes, naquele momento, chegou perto da totalização, que foi de 7,6 milhões habitantes. A lição, pelo jeito, foi esquecida.
FOLCLORE Rafael Greca no Vaticano. O turista pergunta: quem é o homem de branco ao lado do Rafael?
CROMO A garça sobrevoa a pedreira do Atuba em busca do lago desaparecido. Na memória de penas alvas a água substituia o chão árido e de pedra.
AFORÍSTICO Por que Lerner não pode ser o vice de Jereissatti? Afinal ele não trai, mas como subtrai votos!
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