Luiz Geraldo Mazza
O governador do Paraná e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, inauguram mostra, na primeira quinzena de março, sobre as Vilas Rurais do Paraná no edifício-sede da organização em Nova York, domicílio regra 3 de Lerner. Há muita euforia e pouco estudo sério sobre o tema no Paraná, como é apropriado à tradição local.
A idéia em si é razoável e seu apelo social forte, uma vez que busca integrar a massa dos excluídos chamada de bóias-frias, apelido consagrado ao trabalhador volante, o primeiro subproduto marginal da cafeicultura. Há, no entanto, constantes rumores de que a prática não afina com o discurso oficial, uma vez que suprimidos os elementos de traço mais assistencialista, o quadro teria se deteriorado e havido muita evasão dentre os que aderiram ao programa, enunciado sempre com forte estardalhaço.
Já anteriormente, quando ainda prefeito de Curitiba e badalado pela mídia não apenas brasileira, Lerner veio como uma tal de rurbana que apontava como solução para tensões sociais do campo e o estabelecimento de bases racionais a uma política de usos do solo em termos regionais.
Até o Alvim Toffler, aquele de O Choque do Futuro e de A Terceira Onda , acabou se entusiasmando por algo que não tinha a menor originalidade no Brasil meridional e até mesmo aqui no ciclo cafeeiro com o estabelecimento dos patrimônios, que operavam como eficiente sistema de comercialização distante dos centros. O saque, mais uma jogada de puro espetáculo, que atraiu até o presidente da República, já que Lerner era um dos melhores garotos-propaganda do regime fardado, foi um absoluto vexame no Campo de Santana.
A torcida para que a embalagem não seja mais luminosa do que o produto é no sentido de preservar uma criação paranaense. Se tiver esse defeito congênito de tantas outras cerebrações será lamentável.
GLOSA
A Federação da Agricultura tem razão ao criticar as más condições das rodovias e o custo extorsivo do pedágio. E os produtores rurais que não pagam o que devem aos bancos oficiais, de preferência, não merecem críticas?
BIZARRICE Miguel Salomão, o Pangloss do governo, para quem tudo se dava no melhor dos mundos, achou normalíssimo o ocorrido com a Audi-Volks, que demitiu 350 trabalhadores, e com a paralisação da Chrysler: são ajustes da economia, avanços e recuos normais da dinâmica do mercado. Só não explicou que sanções poderiam ser aplicáveis aos investidores na hipótese de abandonarem a praça. Para quem ficou já com o mico do Banestado e os da Copel, tudo é normal.
AXIOMA Mais uma criatividade de Lerner: depois das férias coletivas para os servidores estaduais, está providenciando medida idêntica na área privada, a começar das montadoras, a primeira delas a Chrysler.
EPIGRAMA Depois de invadir e ocupar os partidos, notadamente os pequenos, o grupo situacionista está de olho no PPS, o PCB com filtro. Anunciam até a entrada do Marcos Isfer, um dos deputados de maior votação. Se o grupo que financiou esses candidatos também ingressar no PPS, os seus fundadores (como Rubens Bueno) acabam se transformando em bagrinhos dos palacianos.
SPRAY Bastou haver os dois episódios das montadoras demissões na Audi-Volks e paralisação na Chrysler para que uma onda de sinistrose irrigasse a oposição, altamente eufórica, o mais entusiasmado, como sempre, o senador Requião. - Ocorre que o presidente do PMDB, que liderou com razão a batalha para a abertura dos protocolos (que agora se mostra indispensável com os dois episódios) já entrou numa fria anterior quando subestimou a Cidade Industrial como sempre com um chiste a de que não passava de um campo de golfe das multinacionais. - O Clube de Roma, dos anos 70, já acompanhando o desenrolar do choque do petróleo, havia previsto a exaustão das provisões do combustível, se não houvesse urgente mudança de tecnologia para baixar-lhe os custos, o que aliás está presente no momento com as oscilações do preço do barril que arrebentou a balança brasileira. - No fim dos anos 90 houve um prognóstico terrível em Londres da consultora McGraw-Hill que previa um quadro de excedente mundial de produção, logo na abertura do terceiro milênio. - Foi a esse e outros estudos na mesma direção a que o senador Álvaro Dias fez referência ao revelar algum ceticismo relativamente à decisão de Lerner de atrair as montadoras. - Se as más notícias forem superadas pelos acontecimentos, a bandeira principal do grupo lernerista permanecerá no mastro como o detonador do novo perfil da economia paranaense, até aqui em muitos aspectos excludentes para áreas de nossa vocação da agroindústria. - Mas se o pessimismo persistir e com ele as indicações de futuro sombrio, a orquestra não terá sequer a chance de mudar o ritmo e a música. O mito do gestor de cidades, que se mantém há quase 30 anos, assim mesmo a despeito das evidências em contrário e do esgotamento do modelo, se mostraria mais durável do que o da plataforma de governador. - Marcelo José Araújo, uma das nossas maiores autoridades, ao lado do desembargador Valeixo, em Direito de Trânsito, vai ministrar um curso de graduação na especialidade na Faculdade de Direito de Curitiba.
FOLCLORE O peemedebista estava tão eufórico quanto o seu líder Roberto Requião por causa da crise conjuntural (ou seria mesmo estrutural) automotiva e fez a piadinha de que agora dava para entender por que as empresas era chamadas de montadoras. Elas vêm pra cá para montar em todos nós!
CROMO Seus olhos magnéticos me imobilizam: percebo-o até pela retrovisão.
AFORÍSTICO Faltou um detalhe no plano do governo para asssegurar o sucesso da vinda das montadoras: garantir-lhes um mercado. A maioria dessa clientela mal se habilita a comprar um patinete - e daqueles de madeira.





