Luiz Geraldo Mazza
Mal iniciada a operação das montadoras no Paraná, já levamos vários sustos. Por mais de uma vez a Chrysler ameaçou tirar o time de campo e agora se anuncia oficialmente a suspensão da produção da pick-up Dakota, o produto-chave da indústria. Semana passada tivemos as 350 demissões da Audi-Volkswagen, tida como a mais moderna indústria automotiva do mundo.
Depois da onda obsessiva de que seríamos o segundo pólo automotivo do Brasil, o que enchia de orgulho os paranaenses e significava romper com a dependência paulista, começamos a cair na realidade dos riscos inerentes a uma atividade que caminha para a saturação em escala universal e que vai perdendo em mercados periféricos a liberdade de movimentos.
Como escondemos os protocolos que ocultavam os segredos das negociações como se eles fossem algo maldito como Os protocolos dos sábios do Sião, literatura discriminatória contra o sionismo, passamos a desconfiar que demos tudo às montadoras imunidade fiscal temporária, cessão de terrenos, infra-estrutura até de oferta de água (como se deu com a perda de um manancial importante no Rio Pequeno em favor da Renault, o que levou ecologistas à fúria), sociedade na participação acionária em troca de nenhuma garantia. Assim como chegaram podem, de repente, bater as asas para aterrissar em outras plagas.
O profeta do capitalismo, Lester Thurow, em passagem pelo Brasil, alertou para os absurdos das concessões às montadoras e à malha produtiva e que negam na essência qualquer sentido de competição e de risco efetivo, imposição de uma verdadeira e não caricata economia de mercado. O senador Álvaro Dias, numa entrevista à CBN-Curitiba em meio à anestesiante euforia da chegada das fábricas de automóveis, leu um documento que previa para médio prazo excesso de oferta nos pátios das montadoras de 30 milhões de unidades.
Assim como não se deve carregar nas tintas do pessimismo, já temos razões de sobra para desconfiar dos ganhos que teríamos com o segundo pólo automotivo. De saída, os salários já não eram aqueles que haviam transformado metalúrgicos de São Paulo numa aristocracia obreira: a média é de pouco mais de R$ 600 e a dos trabalhadores de peças e acessórios pouco mais da metade disso. Feitos os estudos de vantagens e perdas comparativas saímos da euforia para a depressão.
Os alicerces do novo perfil da economia podem desmoronar: a despeito de tudo o que representam de modernidade parecem, às vezes, lembrar as palafitas. Oxalá seja apenas uma impressão passageira porque ainda temos, no caso brasileiro, um mercado deprimido. Basta lembrar que uma análise primária da frota, feita pelo Instituto de Tecnologia do Paraná, indicou que 25% dos 450 mil carros estão sucateados e que não passarão na inspeção veicular. É uma idéia de mercado potencial, mas essa renovação passaria por processos financeiros de extrema complexidade, ainda inabordáveis na conjuntura brasileira.
BIZARRICE
Uma experiência semelhante a do purgatório em vida vai acontecer com os inativos e pensionistas estaduais que dependerão de órgão privado para os seus proventos, um fundo de pensão que como todos os derivados estatais andam em sinuca.
AXIOMA O Brasil anda para trás e só falta restabelecer a Linha das Tordesilhas para as ações de portugueses e espanhóis nas privatições de telefones até a aquisição de supermercados.
GLOSA Que é a Rede Globo, rigorosamente, se não um feudo eletrônico de capitanias donatárias em cada província? Assim decalcamos instituições do Brasil colonial, do qual ainda custaremos a nos libertar.
EPIGRAMA Na corrupção, o Paraná está mais integrado do que nunca: analisadas as conexões entre os desvios de dinheiro de Maringá e posterior lavagem, com doleiros em Londrina, chegaremos facilmente ao envolvimento de Curitiba. Como se vê nesses momentos sublimes, não há conflitos municipais e o Paraná parece unido, integradíssimo, como se fôssemos uma só força.
NOSTALGIA A política, no seu exercício prático, é tão sórdida que quando se evoca um pensamento clássico sobre o assunto ele é prenhe de ingenuidade. Por exemplo Praefero mortem honestam quam vita torpe que significa Prefiro a morte honesta do que a vida torpe. Ou essa outra, filosófica, de Marco Túlio Cícero: Deinde ui opprimi in bona causa est melius quam malae cadere que literalmente é o seguinte: Em segundo lugar, ser derrotado lutando por uma boa causa é melhor que ceder a uma má.
SPRAY Enquanto havia o pingue-pongue entre Davos e Porto Alegre, a nota triste está na decisão da Chrysler mundial em demitir 26 mil funcionários em todo mundo e fechar várias fábricas. - A Chrysler da praça não sabe ainda o que se dará por aqui e que linha de produção explorará, se ela, é claro, for mantida em operação, já que pode ser atingida pelo sorteio lúdico do capitalismo global. - Já dançamos várias vezes, uma delas com a ampliação da Refripar em Fazenda Rio Grande, projeto adiado pela Electrolux, após assumir o controle da empresa paranaense e isso por decisão mundial. - Fomos o primeiro lugar em lojas de departamentos na América latina com Hermes Macedo e também nos móveis com a fábrica Cimo. Isso não é sequer um retrato na parede. Imagine-se agora num cenário febrilmente competitivo ao que estamos sujeitos.
FOLCLORE Quando o Paraná do futuro for cobrar dos governantes de hoje eventuais insucessos das montadoras, eles nem serão achados porque já estarão vivendo no eixo Paris-Noviorque.
CROMO O rosto permenece sereno// no retocar da esperança// o menino não planta mais// bananeiras dentro dágua.// Poemeto do poeta eremita Batista de Pilar que ontem estava ali, semana passada acolá e hoje um mistério.
AFORÍSTICO Se a Audi-Volks continuar despedindo e a Chrysler fechar, o novo perfil da economia, como o amor de Vinicius, foi eterno enquanto durou.





