Luiz Geraldo Mazza
Nesta semana, a convite da Opet, que entrou para valer no 3º grau e incorporou o curso de Comunicação Social, fui convidado a fazer reflexões sobre o jornalismo diante do novo cenário. Desde a década de 60 a aura do terceiro milênio já empolgava. Dizia-se que era a profissão da moda fazer especulações: Paulo Pimentel anunciava, por exemplo, que com a captação de água no Iguaçu na (BR 277) teríamos resolvida a questão até o decantado ano. Era falsa porque a obra, inaugurada por ele e o presidente Costa e Silva, só funcionava na aparência pela simples razão de que a estação de tratamento não estava operando.
É dessa época, por exemplo, o livro de Herman Khan e que previa um apocalipse para o Brasil, trombeteado no prefácio pelo Roberto Campos. Números sombrios, uma especialidade da esquerda brasileira, um prazer da Folha de S.Paulo, como se isso fosse progressismo, eram ali processados com o rigor dos cérebros eletrônicos de última geração da Remington Rand. Pois bem. Alguns meses depois do estrepitoso lançamento do livro, o Brasil superava de longe os indicadores econômicos e sociais profetizados.
Parece que a ficção é menos deletéria do que a área técnica nesse campo de especulações: pelo jeito, a metafísica é mais racional que a meta física. Na literatura tivemos o Admirável Mundo Novo, de Huxley, em que se lança a hipótese da manipulação de embriões humanos. Outra referência é 1984 de George Orwell. Há quem veja no Grande Irmão (Big Brother), justamente o que se dá agora 17 anos depois no cenário globalizado e na hegemonia do centro sobre a periferia, o que, convenhamos, sempre aconteceu.
Como hoje se fala no desaparecimento dos jornais em função da Internet, que engatinha numa sociedade que ainda não tem o computador em casa em idêntica frequência com outros utensílios domésticos como o fogão a gás e o televisor, o cineasta François Trufaut lançou, em 1967, Farenheit 451, centrado na ficção científica de Ray Bradbury. Era uma sociedade que combatia as formas impressas de cultura (bombeiros queimavam livros e documentos a 451 graus Farenheit) e o jeito de defender-se foi bem à moda como Porto Alegre se opõe a Davos em torno da globalização: as pessoas eram encarregadas de decorar obras e levavam seus respectivos nomes como Divina Comédia, Guerra e Paz, Comédia Humana, Crime e Castigo, Os Miseráveis e assim por diante. Na oralidade, escondidos como num aparelho, cada um deles reproduzia um clássico.
MODERNIDADES E foi buscando uma visão mais poética que tentei mostrar como o senso de modernidade se alterou ao longo dos meus 50 anos de atividade: fiz referência aos anúncios em neon, o máximo da época, e que deslumbravam os interioranos que vinham a Curitiba. No espaço entre dois deles, o do Kings Archer, o uísque, no prédio ao lado da Catedral, ao norte, e o da Caixa Econômica Federal na Praça Osório, mais ao sul, é que transitávamos com nossos delírios de jornalistas e universitários. Naquele espaço estavam os jornais, as boates (ah! aquele ciclo da importação de argentinas foi inesquecível), os bares, os pontos de encontro.
Os jornais se anunciavam de forma primitiva nos pregões dos meninos jornaleiros, instituição assistencial que não sobreviveria à exigência da mudança de escala do negócio com o surgimento das bancas. Eram pregões que formavam a protofonia diária de Curitiba com os propagandistas (lembro do Saca-Rolha, com uma chupeta pendurada no pescoço) como os havia desde a gare ferroviária em que anunciavam em voz alta os hotéis disponíveis.
De todos eles, o mais forte o das colonas italianas recitando o poema diário da oferta de pimentão, abobrinha, batata-doce que afloravam em Santa Felicidade. Um dos derradeiros era de um amolador de facas que enquanto se dedicava ao trabalho fazia do ruído que tirava da pedra o fundo musical para cantar, com um bom registro de voz, Violetas de Espanha. Hoje, o último pregão é o dos lotéricos ambulantes de voz gutural: Olha a Cobra!.
Tão precários os anúncios dos próprios veículos: na lousa do Diário da Tarde, em folhas de bobinas, davam as principais notícias, acompanhadas, às vezes, de um documento, uma linguiça deteriorada ou mesmo uma garrafa de leite com um peixinho, o barrigudinho das valetas, nadando em seu interior, para mostrar que o produto era batizado. Quando o Diário do Paraná, dos Associados, pintou na praça trouxe várias novidades: a diagramação, o texto moderno (lead, sub-lead, matérias sequenciais em forma de campanha) teletipo. E que anunciava seus furos e edições extras com uma sirene que irritava os competidores.
CHAPA BRANCA Em 1854, surgimento do primeiro jornal paranaense, O Dezenove de Dezembro. A publicação trazia os atos oficiais. Ironicamente, costumo dizer, nascia oficial e, de certa forma, assim continua. Resistentes à máquina de escrever, ainda mandavam nas redações, até a década de 50. Mugiatti Sobrinho usava a caneta, o polemista Barros Cassal o lápis-tinta e quanto mais tinha a língua roxa, maior era o tremor dos seus alvos.
Aposentadas as canetas, como aconteceria com as máquinas de escrever, fixada a impressão a frio, computadorizado o sistema, estamos aí, com resíduos do romantismo achando que uma informação ou um comentário podem mudar a ordem das coisas.
Pois a CPI das Drogas passou por aqui e vimos o peso da omissão com a trama do crime organizado com os desmanches de automóveis, tudo com apoio político. E hoje, passados mais de quarenta anos, em que pese todo o fulgor da modernidade, no fim do expediente, os jornalistas, muitos deles, ainda repetem o ritual diante da caipirinha gelada: uma certa angústia sartreana levando a crítica ao jornalismo, ao sistema, à mesmice existencial. E no dia seguinte, todos no batente correndo atrás simultaneamente da notícia e da ilusão.
E assim prosseguirá, se Deus quiser e por enquanto para minha alegria.





