Luiz Geraldo Mazza
Nada como as lutas sociais para a derrubada de preconceitos erigidos em sistema: um dos que sugeriam como vantagem para instalação das montadoras no Paraná seria o clichezão de que o metalúrgico da terra não teria maturidade para as greves. Como as automotivas foram também nesse canto de sereia, acabaram quebrando a cara em diversas paredes, inclusive, mais recente, a do pessoal da malha produtiva, de peças e acessórios.
Mal começaram a operar, as montadoras, em função de problemas de mercado, puxaram o freio de mão, despediram funcionários e quando o movimento das vendas não é suficiente partem para demissões coletivas como a dos 350 trabalhadores da Audi-Volks.
Um relato sobre aquela indústria sugere que no fim do ano passado havia 3.352 funcionários na organização, o que representava 54% a mais do que o número de quando foi inaugurada. Como o próprio lay-out singelo da empresa sugere tratar-se de uma das mais modernas e enxutas do mundo é de surpreender que tantas oscilações ocorram quando o mercado não está desaquecido. Isso acaba restabelecendo o fantasma da sinistrose daqueles que combatiam as montadoras, alegando (e isso o próprio senador Álvaro Dias fez ao lembrar que em menos de uma década haveria dezenas de milhões de unidades encalhadas no pátios) uma próxima, e visível, saturação dos mercados.
Da mesma forma, pois, que alguns fantasmas são exorcizados, aprende-se que as propaladas vantagens que trariam não chegaram na dosagem anunciada. A classe operária não foi ao paraíso na Grande Curitiba: o salário metalúrgico médio é da ordem de R$ 600 e o dos que trabalham em peças e acessórios R$ 350. Assim, fica visível a desmistificação da alta geração de empregos e o traço mais condicionante do modelo: capitalização intensiva e agregação tecnológica.
Já somos o segundo pólo automotivo do Brasil. Estamos, porém, sujeitos às suas diástoles e sístoles: férias coletivas, como se deram com a Volvo e outras na hora do aperto, ou demissões, quando a resposta do mercado não é a esperada. Tomara que não soframos o que ocorreu com a Bélgica que teve a sua Renault fechada para que surgisse, inclusive, a de São José dos Pinhais.
BIZARRICE
Por que não chamar, depois do último boletim de balneabilidade das praias, Caiobá e Guaratuba de Caiobosta e Guaratubosta? Acomodar isso ao delírio multicolorido da Costa Leste de Jaime Lerner não é fácil
AXIOMA Em política nacional, Requião não dá sorte: estava crente nas manobras de José Sarney para a presidência do Senado quando a bancada tucana em peso resolveu apoiar o Barbalho. Claro que isso é moeda de troca para que haja apoio a Aécio Neves na presidência da Câmara.
GLOSA O Tribunal de Contas admite que errou ao aprovar as contas de 97 e 98 de Maringá. E as de Londrina, as do Banestado e os acordos da Copel como os dois recentes com a CR Almeida e DM, antecipando-se a decisões judiciais?
EPIGRAMA Ao adotar turno único nas repartições estaduais, o governo não estaria se valendo de uma alegoria para combater eleições em dois turnos?
BASBAQUICE O mundo precisa de uma alternativa ao império de Davos. Mas mostrar Cuba na condição de paradigma, como alguns sugerem em Porto Alegre, é mais idiota ainda do que aquela fixação do PC do B num mundo atrasado como o da Albânia, onde o que havia de mais socializado era o analfabetismo.
SPRAY O governo estadual subestima a capacidade de mobilização da cidadania e pensa que a venda da Copel vai ser aceita pacificamente. Não é bem assim: a maior resistência não virá dessa oposição frouxa do Legislativo, mas até de algumas entidades que sempre jogaram com o oficialismo como a Associação Comercial do Paraná entre outras. - Um decálogo com as razões da venda, feito na Secretaria da Fazenda, ocupada coincidentemente pelo presidente, começou a circular e já a sofrer os primeiros reparos nas enganações internacionais e nacionais. - A idéia do placar pondo os nomes dos deputados que estão a favor ou contra é um decalque piorado das diretas (aliás não funcionou, pois nem a exposição garantiu a Emenda Dante de Oliveira, derrotada). Outra coisa: a medida já está aprovada e agora o que há a fazer é obstruir, de todas as formas, o andamento do processo e evitar, antes de tudo, que o governo repita o que fez no caso Banestado, pilhado antes de privatizado. - A desinformação, como se deu no exemplo da dívida consolidada, quando Ingo Hubert desmentiu os números de Lerner na mensagem do orçamento, é outro adversário do sistema, isso sem falar nas trapalhadas como a dos erros nos editais. - Erros no edital podem dar margem a procedimentos judiciais, embargos, nulidades e atropelam o açodamento oficial. - Lerner não conseguiu reunir a bancada federal como pretendia na visita de Inocêncio de Oliveira. Muitos dos que se queixam da falta de diálogo com o Executivo estadual deixaram de comparecer, como Abelardo Lupion e até alguns bem assistidos como Luciano Pizzatto, beneficiário de muitas das iniciativas oficiais. - O Ibama anuncia endurecimento na fiscalização da pesca amadora. Aqui, no Paraná, tanto na orla como nas águas interiores, o abuso é maior por parte justamente dos profissionais. Na Baía de Guaratuba a embocadura está quase sempre tomada pelas redes e não se toma qualquer providência. - Mesmo a pesca artesanal, como a do camarão, é das mais predatórias: basta olhar peixes minúsculos mortos nas redes, um massacre.
FOLCLORE Só falta agora uma ONG em defesa dos usuários dos balneários pedir o processamento do governo estadual e prefeituras por doenças eventualmente contraídas das cloacas como hepatite, distúrbios gástricos, dermatoses etc.
CROMO Na Espanha, numa tourada, não apenas o toureiro, mas o próprio miúra, voltam-se espantados para um curitibano na multidão que em lugar de olê proferiu um olé aberto, como se estivesse no futebol.





