O esporte predileto deste governo é o surf: ora na lama, vide os casos do Banestado submetido ao corsarismo, ora nas águas revoltas da crise. Surfar é preciso, diria o comandante das operações, cada vez mais esportivo para poder equilibrar-se na prancha e concluir com a expressão ‘‘viver não é preciso’’. Esclareço pela enésima vez que a frase ‘‘navegar é preciso, viver não é preciso’’ não é de Fernando Pessoa, nem do Capelo Gaivota, muito menos de algum artista ‘‘pop’’, destes que se apresentaram no Rock in Rio. É do Pompeu, aquele que estava com Caio e Crasso, no triunvirato romano. Queria significar que navegar tem precisão e garantia, viver, ao contrário, não. A não ser que se pretenda navegar naquela nau capitânea dos 500 anos.
Especialista em trapalhadas, apesar das habilidades no surfar, a mesma burrice cometida na publicação de editais do Banestado foi repetida agora (e a errata chega a ter as dimensões de uma página de jornal) com a Copel. Resultado: mesmo que não haja tormentas judiciais e políticas, a empresa, se observar um mínimo dos rituais exigidos, só será leiloada em fins deste ano ou em 2002, tempo de eleições.
Até lá dá para imaginar o drama do caixa: como o toicinho, que o gato comeu da mão do menino no jogo, sumiram os ‘‘royalties’’ de Itaipu que o governo já gastou. Só isso implica uma perda de R$ 48 milhões mensais. A arrecadação do ICMS, salvo aquela represada das montadoras e que começa a fluir, é baixa estruturalmente pela fiscalização deficiente. São Paulo e Rio Grande do Sul obtém com o tributo 8% do PIB, o Paraná apenas 6%.
Com o governo quebrado, algemado nas imposições das leis fiscais, sem saída visível, o jeito é surfar, enquanto afaga o Inocêncio de Oliveira retribuindo a gentileza de haver lançado Lerner à presidência. Surfar não salva, mas ajuda a driblar a morte. Aliás, logo vai ter surf no exterior outra vez, pois afinal ninguém é de ferro e a imaginosa oposição se prepara, novamente, para aquele exercício de exorcismo contra a vice-governadora Emília Belinati.
BIZARRICE
O local da série ‘‘No Limite’’ vai ser na Chapada dos Veadeiros. É de todo interessante que cuidem dos limites. Mas falar em limite na Globo é complicado: vide a novela das 9. A figura má, perversa da novela, é virgem, o que já dá uma idéia dos valores propostos
AXIOMA Álvaro Dias em conversa com o Caíto Quintana sobre oposições unidas para 2002 ouviu aquela pergunta: e como é que fica essa bancada do PSDB que vota sempre com o governo? O pior é que Álvaro costuma fazer críticas a FHC e até por isso perde a moral de cobrar posições dos aliados. O mesmo se dá com Requião, derrotado permanente nas deliberações nacionais do PMDB, tentando uma dissidência que não chega a ser um Exército Brancaleone.
GLOSA ‘‘Cuidado com o Tribunal de Contas!’’. A frase pode ter duplo sentido: promover a instituição ou mostrá-la como inutilidade aparatosa, já que não enxergou os escândalos do Banestado, de Londrina e Maringá e mantém a estranha pose de sacerdote do templo. Precisamos ter cuidado com tudo que é oficial.
EPIGRAMA Sugere-se que o governo buscaria convencer a Petrobras a patrocinar os Jogos Mundiais da Natureza até como forma de desculpar-se do acidente no Rio Iguaçu. A estatal poderia aceitar com a seguinte condição: ver o balanço contábil, até hoje desconhecido, da primeira edição.
SPRAY Associações de Pais e Mestres reagiram contra a denúncia do TC porque o sistema descentralizado é mais eficiente e limpo e não cabe a elas saber se há ou não cartel. O pedágio não é explorado por um cartel? - A secretária de Educação, Alcyone Saliba, quer a investigação aprofundada, mas defende o sistema que evita intermediações desnecessárias. Se o generalizassem não haveria a roubalheira, em termos nacionais, na área social. - Dívida dos títulos estaduais (ações caucionadas da Copel) persiste, apesar do delírio de alguns componentes do Palácio Iguaçu. A juíza federal Sílvia Brollo teve que esclarecer porque os fogueteiros palacianos já festejavam. - Última forma: a Câmara Municipal de Curitiba, diante das reações furiosas do público, não está disposta a botar em prática o jeton que dobra os ganhos do pessoal. Se facilitarem, vai dar intervenção do Ministério Público. - A cumplicidade com os abusos do Grupo Atalla no Paraná é endêmica. No regime militar, então, deitava e rolava ao ponto do seu dirigente aparecer em capas de revistas internacionais. Com Richa houve algum conflito, pois a indústria não queria pagar tarifas de água e luz e se agarrava no argumento de que Porecatu inteira dela dependia. - Até hoje há problemas pendentes do Banestado e do extinto Badep entre as mais importantes dívidas, isso sem falar na inadimplência com ICMS. - Espera-se que com esse importante encontro de ‘‘globalização alternativa fora da lógica imperialista’’ em Porto Alegre se consiga aos poucos articular uma doutrina que não venha com regressões primárias como a do nacionalismo e do Estado que provê e prevê. - Importante é o contra-discurso na velha regra do liberal John Keneth Galbrait e do socialista Norberto Bobbio: é indispensável opor ao poder descendente do Estado ou das corporações capitalistas o poder ascendente da sociedade organizada. - Euclides Scalco não é ministeriável, não foi convidado e se for não aceita. Prefere manter-se na Itaipu.
FOLCLORE Em Porto Alegre discute-se como sair da arapuca armada pelo G-7 e a Organização Mundial do Comércio. Delfim Netto na CNT, anteontem, sugeriu que o Brasil tem condições de ir ao banquete dos grandes como conviva e não como garçom. Hoje nem garçom é: está mais para um desesperado atrás de migalhas que sobrarem da festa, tal a sua submissão e condição periférica.
CROMO Sem a intensidade da luz o que seria da arte dos vitrais das igrejas?
AFORÍSTICO Da catatonia à Doença de São Vito, eis o pêndulo do governo.

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