Luiz Geraldo Mazza
A tal economia de mercado, somada ao império globalizante, é nutrida por uma via ideológica tangendo a irracionalidade, como se dá quase sempre com esses demônios da alma, com o seu exasperado fundamentalismo. Recebemos imposições de traço imperialista, que aceitamos como verdadeiros, sem tomarmos o cuidado de uma avaliação analógica no chamado Primeiro Mundo. Quando Domênico de Masi andou por aqui fez uma referência, já que naquele momento havia uma febre de desestatizações, ao fato de a Itália ter aderido, entusiasticamente, ao modismo, oito anos passados, e agora voltando a entregar ao Estado a energia.
O governo paranaense atraiu a primeira montadora, a Volvo. Cobriu-a de incentivos, participou do seu capital, como fez agora com as outras três, e ninguém questionou o fato de a grande empresa sueca, produtora aqui de ônibus e caminhões pesados, ser estatal. Também a Renault, a primeira a chegar desse novo ciclo, era originariamente estatal e deixou de sê-lo há pouco tempo.
No leilão da Light do Rio de Janeiro houve necessidade do Pronto Socorro do BndesPar entrar em cena para uma transfusão de capital ao grupo vencedor, capitaneado pela estatal francesa, a fim de que fosse batido o martelo. Daí os técnicos e equipamentos vieram da associada principal. Por aí se vê que apesar da necessidade que o País tem conjunturalmente de abrir-se ao capital externo porque o Estado praticamente faliu, há salvaguardas que poderiam evitar uma desnacionalização extrema e perversa como essa em prejuízo de indústrias aqui instaladas e profissionais aqui formados.
Essas salvaguardas também não existiram no processo paranaense, em que pese todos os seus aspectos positivos, inclusive o de romper a completaridade, que era uma condicionante da nossa economia relativamente a São Paulo. Injetamos recursos em dinheiro público em áreas praticamente doadas. Tornamo-nos sócios de todas elas num momento em que o setor privado local, especialmente aquele de vocação regional, como foi o caso específico da Batavo, muda outra vez de mãos, tanto carecia de recursos a juros baixos.
Não há muita coerência nesse discurso desestatizante, mas hoje ele é impositivo como as verdades reveladas do Santo Ofício da Inquisição: esses grupos internacionais receberam aqui colher de chá inadmissível em seus países de origem. A arrecadação do ICMS comprova algo que os embotados do cosmopolitismo querem ocultar: a Refinaria da Petrobras recolhe 38% do tributo e a Copel 21%. Só as duas estatais, uma federal, outra estadual, recolhem 59%. Nos anúncios dos eventos da Rede Globo predominam estatais como os Correios, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras, mas o discurso continua como se nada disso fosse verdadeiro. Que hipocrisia!
BIZARRICE Colocaram o delegado Adauto de Oliveira na Corregedoria, onde ele corre o risco de ficar engessado. A Corregedoria, no jargão interno condenada quase sempre à impotência, é algo como a ponta-esquerda em pelada de futebol. Até hoje não desembaraçou aquele caso de extermínio de um preso por 20 encapuzados no interior da Delegacia de Furtos de Veículos. E foi examinada a circunstância de o empresário Mandelli ter funcionado, com a liberdade de um delegado, usurpando funções, na inquirição de Vera Crovador?
AXIOMA Paranismo não é paranóia. Não vamos dar vexame no caso do scrapie em ovinos como o fizemos relativamente à febre aftosa quando figuras dos Três Poderes queriam obrigar Santa Catarina a abrir suas divisas à passagem do gado paranaense. Uma cena vergonhosa, primária e selvagem.
GLOSA Grupo de empresas, que pertencem aos mesmos donos e concorreram entre si junto a associações de pais e mestres, foi denunciado pelo Tribunal de Contas. E os outros casos, bem parecidos, vão pra denúncia? Aqueles órgãos que o TC queria fiscalizar e resistiam estão entre eles.
EPIGRAMA Estamos sob o domínio do deboche cultural, no ápice da panelaense de curtura, sob o império das filhinhas-de-papai, dos filhinhos idem, da sucatagem da arte, da maracutaia modelo Calvin Klein: sai o Clube da Luluzinha, entra o Parque de Diversão da Mônica, o Guaíra transformado num Canecão, a FuCuCu em botecão... Delicado e áspero como um campari, a cutucada é do Jorge Carlos Sade em A Folha da Imprensa de ontem. Pena que a área política não revela esse tipo de exercício e engole o prato feito de todo dia, via Palácio Iguaçu, Assembléia Legislativa.
SPRAY O PPS vai fazer um seminário regional sobre estratégia paranaense. A figura mais qualificada para tratar do assunto, o mestre Belmiro Valverde, vai ser convidado. - É a palavra mais usada pelo governador Jaime Lerner, o que não significa que haja uma estratégia no Paraná. O que existe é empírico, sem base doutrinal e badalado pelo confessionalismo do Ipardes. - O governo tenta impor tudo à base da propaganda massiva como fez com essa vergonheira nas estradas, uma das maiores violências já cometidas contra o usuário de rodovias já pagas e que tiveram um mínimo de benfeitorias. - Mas a sociedade começa a reagir: vem aí outra paralisação de caminhoneiros por motivações mais abrangentes e há ainda o exemplo de Londrina debatendo a privatização da Copel. - Ministério Público está solidário ao colega de Maringá que começa a ser alvo de beneficiários dos desvios da dupla Paolicchi-Gianoto.
FOLCLORE A Justiça finalmente aceitou denúncia contra Chico Lopes, aquele do Banco Central. Não demorou muito. Afinal, o pedido de desculpas do Vaticano pelo martírio de Giordano Bruno e violências da Inquisição saiu em 2000.
CROMO Estátua da Liberdade, verde como lagarta, da Havan, é uma arte à altura do kitsch curitibano como o Farol do Saber e similares.
AFORÍSTICO O escrúpulo é algo imperdoável não apenas na política.





