Há quem diga que para enfrentar o autoritarismo só há um tipo de arma também centrada na prepotência: enfim, a força. Muitos estão olhando o gesto do incrível Eurico Miranda ao colocar a logomarca do SBT na camisa do Vasco da Gama como o meio possível de enfrentar um poder hegemônico e incontestável como o da Rede Globo de Televisão. Um país nutrido pelo autoritarismo teve a chance de assistir a um ato de desafio, ainda que temerário, para a maior expressão de poder que temos e que por si só nos revela como incapacitados para o viver democrático.
Obviamente o SBT não foi consultado e, se o fosse, jamais autorizaria o uso do signo da organização para alimentar a ação retaliatória do presidente do Vasco, que nos seus domínios não é diferente do ACM tanto na Bahia quanto no Senado, contra a Vênus Platinada. Mesmo ganhando uma promoção inusitada num dia de audiência aguda, a rede de Sílvio Santos, por um imperativo de ética de natureza corporativa, estranhou a manobra e a condenou e até pretendeu, se tal conviesse, tocar uma ação contra o uso indevido.
O povo, de um modo geral, anda tão desejoso de linchamentos que considera os procuradores de Justiça, mesmo quando exageram, os mocinhos do filme brasileiro em que os vilões estão no poder político ou no da riqueza, nem sempre simétricos. Da mesma forma que não sabe (e não quer) matizar o espectro que vai do infra-vermelho ao ultravioleta no caso de transbordamentos do Ministério Público, sob o argumento de que mais vale o exagero do que a nossa tendência para a impunidade, notoriamente dominante, também foi tolerante com o Eurico Miranda, apesar de toda a desumanidade revelada no dia em que houve a tragédia no estádio de São Januário. Eurico queria, a todo custo, que o jogo tivesse continuidade. E como estava disposto a usar o tacape contra a Globo foi logo dizendo que ela era contra por causa do horário do ‘‘Uga-Uga’’. ‘‘Similia similibus curantur’’ (‘‘os semelhantes curam-se pelos semelhantes’’), princípio da homeopatia, parece aí aplicado. Pergunta-se, porém, se é difícil conter um Miranda, imagine-se uma Rede Globo.
O fato é que os grandes ídolos brasileiros são exemplos de autoritarismo, de Getúlio Vargas passando por Jânio Quadros e Adhemar de Barros aos nossos tupiniquins. Povo que aceita Medida Provisória sem chiar pode até beijar o chicote que o vergasta, como num clichê da oratória de Álvaro Dias.
CURITIBA, A ORIGINAL O Brasil inteiro, excetuada a torcida vascaína, queria que o São Caetano fosse campeão no velho e repetido lugar comum de ficar ao lado dos fracos e oprimidos, dos pobres, dos excluídos, o que não passa do mero discurso de origem jesuítica nutrido pelos sentimentos de piedade, magnanimidade e comiseração. Já os críticos do modo de ser curitibano acham que aqui a maioria torceu pelo Vasco da Gama, da mesma forma que vota com os ricos e outros estereótipos de sociologia de calçada.
O campeão do mau humor na cidade, Orlando Carlini, interveio na discussão dizendo o seguinte: ‘‘Se a disputa entre Golias e Davi fosse aqui, a maioria ficava a favor do brutamontes e contra o mais fraco’’. Seriam até capazes de roubar-lhe a funda por entendê-la como arma fora das regras do jogo. Do Carlini tem aquela outra: ‘‘Curitiba é tão acanhada que aqui nem as imimizades prosperam’’.
Pode-se acrescentar a conceitos tão radicais o de Getúlio de Castro, que diz que com essa tal de globalização o Capitão Marvel não ganha uma do Doutor Silvana e que se a história não chegou ao fim, como preleciona Fukuyama, pelo menos ela botou fim na inocência e na fantasia. Marx diz coisas mais ou menos parecidas no ‘‘Manifesto Comunista’’ que elaborou junto com Engels.
RADICALISMOS No fermento pré-64, um notável advogado, Manoel Linhares de Lacerda, ultra-direitista, um dos maiores especialistas em Direito Fundiário, impressionado com o que ele considerava a marcha dos comunistas ao poder publicou uma classificado em jornal se dispondo a vender boa parte dos seus bens para comprar armas e combater a subversão. Improvisei marchinha de Carnaval sobre o assunto: ‘‘Hipoteco meu teco-teco// a minha casa// o meu quintal// vou armar minha família// pra evitar que comunista// me subverta o Carnaval’’
PARANÓIA Bastou mostrar a coincidência de que a novela da Globo, ‘‘Laços de Família’’, andava trazendo ‘‘merchandising’’ que poderia beneficiar Jaime Lerner direta ou indiretamente, a turma dos deputados do PMDB resolveu fazer o acompanhamento para ver se havia abusos e imaginar o quanto isso poderia estar custando aos cofres públicos.
Imaginem se o diretor da novela, para salvar a Camila da leucemia, resolve encaminhá-la ao centro de excelência do Hospital de Clínicas, iriam todos entrar em estado de paranóia.
A MATRIZ A água é a matriz da vida. Tanto que a procuram desesperadamente em Marte. Como é que pode uma região, cuja água no centro metropolitano é acusada de conter elementos cancerígenos, ser apontada, publicitariamente, como exemplo de ecologia e qualidade de vida?
Da água todos os abusos já foram cometidos: lembro na inauguração da captação da BR-277, que ainda nem funcionava, uma vez que a estação de tratamento não se encontrava em operação. Isso no governo Paulo Pimentel e na presença do presidente Costa e Silva, quando se dizia que o produto não faltaria até o ano 2000, para o qual ainda faltavam uns 30 e poucos anos.
Pois já cortaram um tributário, o Rio Atuba, logo de saída, e mais recentemente o Rio Palmital, por excesso de carga poluidora. Com tudo isso, a Sanepar se vê obrigada a encher de produtos químicos a água tratada porque os demagogos e populistas permitiram a invasão dos mananciais pelos sem-teto. Caminhamos agora para ser da legião dos sem-água.

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