Mendaz como poucos, o governo Jaime Lerner se aferrou ao regime da ‘‘caixa preta’’. Agora tenta burlar a opinião pública usando números divergentes sobre a dívida interna e externa: outro dia, solenemente, a pretexto de contestar informações que apontavam um desequilíbrio da ordem de R$ 16,8 bilhões, o doublê de secretário da Fazenda e presidente da Copel, Ingo Hubert, veio a público, salomonicamente, reduzindo o valor a menos da metade, em R$ 7,5 bilhões.
Ao fazê-lo, Hubert desmentiu seu antecessor, Giovani Gionédis, que a fixara em R$ 9,3 bilhões, contestando números mais robustos da oposição, e também o próprio Lerner que, na mensagem orçamentária, a colocou em R$ 13,9 bilhões, já descontados os R$ 1,5 bilhão da venda do Banestado.
O que os agentes do governo deveriam tomar consciência, no momento em que são anestesiados com o delírio da campanha presidencial, é que este governo já entrou no ciclo de exaustão e tem menos de um ano e meio para redimir-se da façanha de haver colocado o Paraná no maior dos atoleiros. Urge agir com rapidez e cautela nessa luta desigual contra o pulsar do relógio.
A oposição está levantando os números reais com a máxima cautela para evitar precipitações e contestações que frustrem as expectativas do público e que o informem para poder tomar posição correta, já que não dá para confiar nos discrepantes dados oficiais usados ao sabor das circunstâncias.
Há mentiras que os escolásticos apontavam como válidas, dentre elas as chamadas ‘‘piedosas’’, como a do médico que, considerando a estrutura do paciente, a sua subjetividade, não lhe revela claramente a patologia de que padece. O bravo Mário Covas poderia ter sido poupado da notícia de que o câncer atingira a sua meninge, mas ela não foi revelada pelos médicos, a quem competiria fazê-lo, para manter a soberania da relação com o paciente, e sim pela mídia.
No Paraná o governo tem todo o direito, até para preservar o público que lhe dá sustentação, do pânico, de dar-lhe uma ração diária de otimismo. Pode até dissimular um pouco, na boa intenção de mantê-lo em bom nível de auto estima. O que está impedido de fazer é mentir acintosamente, desbragadamente, debochadamente. Marcado pelo advérbio de modo, classicamente. Classicamente mente.
Agora outra questão numérica e tão importante quanto a anterior: segundo a ‘‘Gazeta Mercantil’’, edição regional, um membro do alto escalão da Copel teria afirmado que a empresa pode chegar aos R$ 8 bilhões no leilão. No caso os registros do governo, até aqui murmurados, mal chegam à metade. A Copel não é do grupo que está no poder e sim de todo o povo. Ficar de olho é preciso.
GLOSA
Oitenta barraquinhas foram trituradas por tratores na praia numa operação gigantesca porque ocupavam áreas do Patrimônio da União. E os que montaram loteamentos, fizeram mansões, continuam na mesma?
BIZARRICE A água da Sanepar, cuja privatização foi acertada por Lerner com o Banco Central para este ano, cada vez mais se distância do conceito original do produto, já que tem cheiro, cor e gosto quando deveria ser inodora, incolor e insípida. Cada vez mais se parece com QBoa.
Pois agora veio uma denúncia pesada: o excesso de cloro pode expor o usuário aos resíduos cancerígenos. Não falta mais nada neste Paraná cada vez mais escatológico do que ecológico.
AXIOMA Por que escatológico? Simples: 60% dos esgotos de Piraquara, Araucária e São José dos Pinhais ficam nos rios. Vale dizer nos mananciais que abastecem Curitiba e Região Metropolitana. Aí o nosso governador acha que resolve o problema colocando aquela folhinha verde na logomarca da cidade e do Estado.
EPIGRAMA Um quarto (25%) do valor patrimonial da Copel já pertence, em função das prodigalidades do governo para fechar o caixa mensal, ao BNDESPar, empresa de participações do banco de fomento. Como ainda há aquela parte de ações já caucionadas para acertar a bagunça com precatórios do Banestado, de repente o governo vende até as penitenciárias, com o que livra eventuais agentes com desvio de conduta à desagradável moradia.
SPRAY Greves no Banestado, como as de ontem, serão frequentes, um exercício de pressão indispensável, ainda que de resultados mínimos, para desgastar o Itaú e reduzir as demissões. - O volante distribuído na cidade revelava que o alvo das demissões está em bancários com média de 25 anos de serviço e com idade entre 40 e 50 anos, faixa de difícil assimilação pelo mercado. É o horror econômico da modernidade, globalizado, chegando até nós. - De 25 a 28, em Matinhos, sai o 11º Torneio Master de Basquetebol João de Deus Freitas Neto, no ginásio do Sesc. Por causa da herança maldita do ex-prefeito o novo ginásio de esportes, não concluído, não poderá ser usado. Isso acarretará transtornos, pois no ano passado houve jogos até de madrugada. Estão inscritas 20 equipes. - Uma representação idêntica ‘a feita em Curitiba na OAB-Paraná em torno do Escritório de Advocacia Pereira Gionédis, que acabou arquivada, foi enviada ao Conselho Federal. - Veste-se um santo para despir outro: Lerner vetou a lei que proibia caminhões e carretas no ferry-boat a Guaratuba. Só que com isso expõe a cidade ao massacre inevitável de sua malha urbana pelo tráfego pesado.
FOLCLORE O escritor Noel Nascimento, romancista e ensaísta, ao ser inquirido nos famosos processos de 1964, teve que responder a uma pergunta inesperada: se conhecia algum comunista. Passou a listá-los: Lenine, Trotski, Maurice Thorez, Togliati e até um norte-americano, o jornalista John Reed.
CROMO Se benzerem a água de Curitiba, ela oferecerá menos riscos?
AFORÍSTICO Burocratas da cultura – estes que ocupam cargos nos espaços criados às dezenas em Curitiba – favorecem o fomento ou amarram? Amarram e são pelo dirigismo oficial, que é a pior de todas as características.

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