De sexta-feira a domingo, a Rede Globo, a que realmente importa em audiência de televisão, tascou sucessivos lances referenciais à Curitiba e ao Paraná com todas as características de um ‘‘merchandising’’ de apoio à suposta aventura presidencial de Jaime Lerner. Os dois primeiros foram no andamento da novela de maior público da história, ‘‘Laços de família’’: num encontro na segunda casa de Capitu, a garçoniere do Orlando, é oferecido um jantar a um casal originário de Curitiba e que se refere à cidade como sendo de ‘‘primeiro mundo’’. Como nas salas não há vomitório, Gastão, o Vomitador, aquele clássico de ‘‘O Pasquim’’, se sentiria angustiado por não saber fugir da compressão. No capítulo seguinte nova referência ao Paraná e à sua ecologia, agora traduzida no elogio à estrada da Graciosa.
Esses fatos logo depois do lançamento do Inocêncio (que não se perca pelo nome) Oliveira de Lerner à presidência pelo PFL, ao lado do vice Marco Maciel, ganham atualidade porque o governador nega que seja candidato, mas que está tentando se qualificar. Como na sua carreira o ‘‘marketing’’ tem sido o fator mais abrangente, há todos os motivos para crer que esteja se ‘‘qualificando’’ pela única via que conhece e pratica - a da propaganda massiva.
Já no domingo, agora no ‘‘Fantástico’’, nova referência ao Paraná, ainda que no caso bem fundamentada, ao Hospital de Clínicas, como um dos pólos nacionais nos transplantes de medula. Era uma reportagem em cima do tema da novela e da questão da cura da leucemia. Ora, ainda que pouco se deva a Lerner, quer no caso da estrada turística da Graciosa, quer no do centro referencial de transplantes, a verdade é que no seu ‘‘marketing’’, como no dos demais políticos, sempre houve a apropriação de fatores artísticos, históricos e até culturais em favor do interessado em promoções.
Se persistirem as referências à Curitiba e ao Paraná ficará nítido que se trata de uma programação para alimentar o ‘‘background’’ dessa especulação sucessória e na qual Lerner começa a movimentar-se, com maior competência e até ausência de autocrítica, indispensável nos audaciosos, do que os que a tentaram anteriormente como Álvaro Dias e Roberto Requião no PMDB, nas quais tiveram um desempenho vexaminoso.
Um surto de paranismo vem aí com todas as suas inconsequências para conclamar à união todas as forças da terra, o que não é nada fácil, não apenas por causa das ambições em choque, mas pela péssima imagem interna que o governo desfruta minado pela corrupção e prodigalidade, especialmente a destruição do patrimônio público naquelas áreas em que o zelo era uma regra incontornável.
GLOSA
No ranking do futebol brasileiro da ‘‘Folha de S.Paulo’’, o Coritiba é o único do Paraná listado em 16º, atrás do Fortaleza que teve dois vice-campeonatos na Taça Brasil, o que pelo jeito vale mais do que um título de campeão nacional
BIZARRICE Enquanto os senadores Álvaro Dias e Roberto Requião se habilitam a disputar o governo estadual (o do PMDB diz ter 64% de apoio quando este número ele não consegue nem no partido), o governador Jaime Lerner ensaia seus passos rumo à Presidência ou vice-Presidência, na chapa do Jereissati. Dá pra perceber aí porque tudo anda tão mal: as pessoas não fazem as coisas, mas tão- somente política, nada mais, quase num exercício de solitário narcisismo.
AXIOMA O Itaú já despediu mais de 50 bancários do Banestado e arrumou outra bronca diante dos vigilantes que já fizeram manifestações na frente da sede da Procuradoria Regional do Trabalho. Aos que reclamam há uma resposta num dos ‘‘teasers’’ do banco: ‘‘O Itaú tem tudo/ Só falta voc꒒. Os que faltam por causa de demissão obviamente não contam. Para os despedidos, a explicação deveria ser essa: ‘‘O Itaú tem tudo/ Você não faz falta!’’ Ou ainda: ‘‘O Itaú tem tudo/ Só falta despedir você!’’
EPIGRAMA Não há, segundo fontes policiais, o menor risco de o atentado à PIC ter um resultado igual ao da emboscada contra Cândido Martins de Oliveira.
SPRAY Se houvesse um Doutor Silvana no governo Lerner, ele se valeria das férias coletivas para mostrar que o Estado não precisa de tantos servidores e justificar uma dispensa em massa. - O ouvidor geral provou que durante os 11 dias de férias aquela repartição registrou 374 atendimentos, enquanto em janeiro de 2000 houve 219. - Simplesmente com desburocratização obteve tais ganhos. Dá para imaginar que se aplicasse a mesma regra a outros setores, daria para fazer um corte radical no funcionalismo. - Como compatibilizar essa política de massacre com uma eventual candidatura presidencial é que são elas. - Uma das broncas mais registradas foi contra a falta de água em Guaratuba. Nessa praia houve uma pequena melhora na prisão e processamento de ‘‘boys’’ que punham os rádios dos automóveis em som altíssimo. - O tal Bloco Independente, formado por 12 deputados de partidos pequenos (PST, PSL, PL, PSL entre outros), promete endurecer a parada no Legislativo estadual de 15 de fevereiro em diante. Eles querem participar mais dos bônus do que dos ônus, o que é justíssimo. - Todo o ressentimento nasceu do racha na eleição da Mesa. Quando acusaram o grupo de fazer barganha e cartorialismo replicaram que estão mais para cartariais do que cartoriais, já que o Geraldo Cartário é um dos seus líderes. - Espaços enormes a Beto Richa (desde a questão dos gabinetes, o de vice e o de titular de Obras) já assanharam alguns políticos, boa parte deles vinculada ao pai que deixou a política para fazer mediações em favor de empresas de amigos como os pneus usados do Francisco Simeão e da Racimec, entre outras, mas que ainda é um grande conselheiro. - Há quem pense em fazê-lo candidato a governador, ainda mais depois do alarde de que Cassio Taniguchi deseja permenecer no posto.
FOLCLORE Como é impossível reformar os deputados, busca-se intensificar reformas físicas na Assembléia Legislativa. Essa, em andamento, deve ser a décima, mas a alteração física em nada muda a comportamental, sempre fiel à submissão. Assim era nos governos do PMDB, assim é nos de Lerner. Dá para lembrar da passagem bíblica do sepulcro caiado.
CROMO A tempestade passa, mas o governo, incólume, permanece.
AFORÍSTICO Se a TV, principalmente na novela, continuar insistindo que Curitiba e o Paraná são exemplares, acabarei acreditando até mesmo por absoluta falta de alternativas. Na Alemanha foi assim e por longo tempo deu certo.

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