Luiz Geraldo Mazza
Para quem está empolgado com o fato de haver passado no vestibular, sofrer as provações do trote opera como orgulho e vaidade como se a catarse da vitória, como uma anestesia, preparasse o calouro para as doçuras de todas as maquinações do sadomasoquismo. Um dos meus netos, o Leonardo, passou em dois vestibulares de Arquitetura e Urbanismo e se integrou, ao lado da mãe e da irmã, a todo o ritual. Num deles ganhou uma saudação em ovo, amável e não agressiva como a feita em São Paulo com o Covas e na Inglaterra com o primeiro ministro, o trabalhista de baixos teores, Toni Blair. No outro foi com um banho de lama, tudo com alegria e senso de integração, um happening.
Às vezes, e isso acontecia com frequência, usavam tintas até de natureza tóxica que poderiam fechar os poros dos bichos. Para dar o embalo, é claro, a birita é necessária. Se tudo for feito com moderação não há maiores riscos e pode-se até, quem sabe, restabelecer o fastígio que havia nos desfiles de calouros dos anos 40, 50 e 60 quando a Universidade Federal era hegemônica no pedaço.
Entrei na Universidade em 50 e na Faculdade de Direito não havia trote. Alguns de nós até desejaríamos que isso acontecesse. A proibição era radical e por uma razão muito simples: em anos anteriores, um calouro, conta a lenda, que está muito com jeito de folclore, foi jogado no repuxo da praça Santos Andrade e isso teria sido a causa eficiente de uma tuberculose cavalar que o matou. Mais tarde, bem depois que deixei a Universidade em 1954, restabeleceram o trote com seus méritos e horrores.
VOLTA, CALOURO Era um tempo de menos consumo e mais espírito. Grande parte do estudantado vinha de fora, de outras unidades federativas. A forma socialista de conviver estava nas repúblicas, uma forma econômica de organizar a vida dos estudantes em pensões, casas de cômodos e apartamentos. O Octávio Cesário Pereira Júnior, o Jaburu, que foi presidente do meu diretório acadêmico, morava numa delas. Outro que morou desse jeito em Curitiba foi o gênio consolidador da Vale do Rio Doce, o Eliezer Baptista, o Bóris Bacana.
Curitiba era uma verdadeira Cidade Universitária porque essa massa é que dava sentido à vida cultural, gremial, esportiva. Os bloqueios das famílias se esmoreciam com o estudante que conseguia furar o Clube Curitibano como sócio atleta e acabava casando com as donzelas da alta roda ou da classe média. Bailes como o Chá de Engenharia (o Dalton Trevisan, em crônica, dizia que ali as donzelas aprendiam de tudo, menos a tomar chá), o baile do Rubi (Direito), da Esmeralda (Medicina), eram acontecimentos aglutinadores desse vínculo entre a burguesia dominante e o adventício dos bancos acadêmicos.
Kit Abdala, médico em Francisco Beltrão, animador cultural, gozador, inventou um espetáculo teatral no Colégio Estadual para recepcionar os calouros. Era, segundo ele, uma revista do tipo Valter Pinto (Tem Bububu no Bobobó, Nheco Nheco na Lua, Toco cru pegando fogo) nominada Volta, calouro. Os bichos tinham que pagar para assistir ao espetáculo e quando chegaram as escadarias do Estadual viram a faixa enorme, esclarecedora e gozadora Volta, calouro. Entenderam o recado e o trote a que haviam sido submetidos.
ESQUETES Em certas ocasiões os veteranos faziam uma concessão: a de montar um espetáculo teatral para os calouros. Lembro pelo menos de duas esquetes (por trás disso, ouço até hoje a risadinha debochada do Kit Abdala): num deles se anunciava a Tomada da Bastilha. No palco aberto entrava um cidadão muito sério que pegava uma pastilha e a engolia com um copo dágua. A voz ao fundo, como se fosse o Lombardi numa cena do Silvio Santos, esclarecia: Acabamos de apresentar a tomada da pastilha.
Num outro, era anunciado o coro da Medicina e todo mundo imaginava que estaria diante de um coral super afinado. Nada disso: um cidadão atravessava o palco a conduzir um enorme pedaço de couro. Era o coro da Medicina.
OLIMPÍADAS O temor de idealizar o passado pode nos conduzir a equívocos, mas certamente hoje seria impossível imaginar a arregimentação de anos anteriores da sociedade diante dos Jogos Universitários, as olimpíadas locais. Medicina e Engenharia dominavam e Direito se aproximava: as garotas usavam os bonés do curso preferido. Lembro de uma saudação mórbida dos futuros médicos em que havia um refrão que dizia assim o esqueleto da Faculdade está banhado em creolina. Isso tudo para dizer que quem vai vencer é a Medicina.
Houve um ano, 1949 ou 48, em que tivemos aqui olimpíadas nacionais, nas quais o Paraná, na pontuação geral, saiu em segundo lugar. No time de basquete do Rio, o ex-ministro da Saúde, Jamil Hadad, era um dos integrantes e o poeta amazonense Thiago de Mello também era jogador. Ele até permaneceu por mais alguns dias por aqui, apitando algumas partidas do campeonato paranaense. Dos que ficaram, e que jogavam em outras seleções, dá para lembrar do excelente Pedro Tocafundo, que defendeu o Ferroviário, o Atlético e o Palmeiras de São Paulo.
VOYEURISMO Lembro-me de uma situação inusitada numa decisão de basquete no interior da sede social do Coritiba (vejam aí o risco das idealizações pelo acanhamento daquele espaço para uma decisão) entre Minas e São Paulo. Os paranaenses, não sei por que cargas dágua, pegaram antipatia pelos paulistas e a coisa chegou a um ponto em que parte do público quis provocar os bandeirantes tirando sarro daquilo que os orgulha: a revolução constitucionalista. O pessoal de São Paulo, de pé, mão no peito, entoou o Hino Nacional em manobra inteligente contra cacoetes regionais. Pois aí aconteceu o mais incrível: no agito a arquibancada desmantelou-se, veio abaixo. Houve a procura de feridos e o temor de que um conhecido curitibano, vidrado em frestar coxas e calcinhas de mulheres, tivesse sido vítima porque, momentos antes, fora visto entregue ao seu prazer de sempre a contemplar o que tanto o empolgava. Consta, no folclore da terra, que esse compulsivo voyeur chegava a alugar apartamentos em hotéis ao lado de suítes de recém casados e que tinha um equipamento excepcional para improvisar essas sondagens. Por que haveríamos nós, em Curitiba, de precisar do Conde Drácula se tínhamos o homem da bicicleta que carregava virgens de carona, depois de obstinada busca e as seduzia nas centenas de lugares ermos da cidade? Ou se tínhamos um mito real, o Melo Maluco, oficial da Aeronáutica, a quem atribuíam façanhas incríveis como a de passar com um avião entre as duas torres da Catedral ou ainda num rasante por baixo da Ponte Preta na rua João Negrão?





