A cada notícia documental, que funciona como contraponto ao triunfalismo oficial, o governo esperneia. Já não basta contestar os dados do IBGE quanto ao Censo Industrial, no que há até alguma razão por falhas da base estatística de mais de 20 anos e submetida a projeções. Agora o empenho é contestar mesmo os números de órgãos oficiais que monitoram o festival de gastança pública, e que mostra o desvario paranaense que saltou de pouco mais de um dígito de bilhão para R$ 16,8 bi no ciclo atual de prodigalidade.
Sempre houve uma idéia de que os números, a estatística, fossem dotados de antígenos contra o sofisma. Da mesma forma que a lógica formal gerou o silogismo, a matemática não poucas vezes se transforma em matemágica como aquele indicador referido da Copel nos anos 80 que projetava uma população de 10 milhões quando no Censo pouco passou dos 7 milhões e meio.
Coincidentemente, um homem da Copel, hoje acumulando a Secretaria da Fazenda, Ingo Hubert, afirma que a dívida pública do Paraná é de cerca de R$ 7,5 bilhões, originária do processo de saneamento do Banestado e investimentos estatais dos últimos 15 anos; que o perfil de vencimento médio dessa dívida é de 15 anos e que a amortização e pagamento de juros absorve mensalmente cerca de R$ 80 milhões. Não esquecer que houve um abate de R$ 1,5 bi com o leilão do banco estadual e no qual está embutido o pepino dos precatórios.
Se tal afirmação fosse rigorosamente verdadeira, o governo Lerner não teria, apesar da gama imensa de projetos financiados internacionalmente na educação, na habitação, no desenvolvimento urbano, na agricultura, enfim em vários setores, acrescentado qualquer gravame além dos R$ 6 bilhões de saneamento do Banestado que se seguiu, como todos sabem, aos atos de rapinagem havidos na Leasing e na Corretora, sem falar em outros como os não investigados (como aqueles relativos à área de Câmbio, da imobiliária e ‘‘monetizações’’ em que os débitos de operadores passaram à responsabilidade do Estado).
O governo adora esconder as coisas, como fez com as ações caucionadas da Copel como garantia para a irresponsabilidade dos precatórios, aqueles títulos estaduais e municipais que deixaram um ‘‘rombo’’ nas contas. Oculta igualmente a circunstância de, além desses mais de R$ 600 milhões, termos ainda um lote de 24,4% de ações da estatal pertencentes ao BNDESPar, empresa subsidiária do BNDES na área de participações. Tudo isso aí decorrente de operações para acertar o fluxo de caixa de um governo que entra em distonia neurovegetativa a cada mês para fechar a folha do funcionalismo e cuja pulsão é vender todos os seus ativos. Está ficando cada vez mais difícil ‘‘dourar’’ a pílula.
Tivemos várias ‘‘trombadas’’ em torno de números globais da dívida quando da gestão de Giovani Gionédis que contava com a cobertura parlamentar da maioria para impedir exames mais aprofundados do assunto, enquanto dava como verdadeira a cifra do governo, aliás aquele tempo um pouco maior do que o referencial mais recente, ainda que muito distante do cálculo da oposição.
BIZARRICE
Rafael Iatauro, novo presidente do Tribunal de Contas, promete dar ‘‘incertas’’ nas prefeituras do interior para ver como estão funcionando. Imaginem se alguém resolve fazer o mesmo com aquela Corte.
AXIOMA ACM pretendendo que a Câmara Federal processe Eurico Miranda por quebra de decoro é o cúmulo da hipocrisia: o presidente do Senado e o seu colega Jader Barbalho levaram esse tipo de falta aos extremos e nada aconteceu. A sociedade inteira foi agredida pela troca de ofensas dos pais da pátria.
GLOSA O governo vende os seus ativos. O que vai fazer afinal com os passivos?
EPIGRAMA O levantamento do IBGE sobre favelas ignora a existência dessas em Londrina e Maringá, apesar de instrumentos que aciona anualmente e que podem detectar essas anomalias como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio.
A propósito: o governo paranaense afirma que a mortalidade infantil por mil nascidos vivos aqui é de apenas 19, enquanto o IBGE registra 29. Um fator de distorção seria a taxa de 20% de óbitos não comunicados, aplicada de forma indiscriminada mesmo naquelas unidades (este seria o caso paranaense) que tem um sistema de cobertura estatística que vai da maternidade ao cemitério.
SPRAY Não será surpresa se o Ministério Público, provocado por órgãos da área de engenharia, pedir uma investigação em profundidade na questão do Fórum, impedindo liminarmente que se adote a idéia de cortar o prédio como um bolo de aniversário, sem se importar com quem lambeu o glacê.- Uma informação técnica sobre o polêmico edifício: uma prova de carga, feita por uma das maiores autoridades no assunto, submeteu o prédio a algo como um ciclone de cinco pontos na escala Richter e tudo permaneceu como estava.- Outro detalhe: na administração Requião, que criou os primeiros questionamentos em torno da obras pelo diretor do Decom, ex-deputado Luis Henrique Bona Turra, houve correções como reforço de colunas, remoção de fissuras.- Inaceitável é que nada se apure em cima de um assunto tão grave e que abrange o próprio Poder Judiciário já que acompanhava o andamento da obra por um setor especializado em engenharia.- O vice que mais ganhou espaço físico e político na história do Paraná é o da Prefeitura de Curitiba, Beto Richa. Além de um gabinete de vice na prefeitura há outro na Secretaria de Obras. Se a pasta recuperar atribuição de fazer concorrências (que Cassio passou para uma comissão especial) será o contrário do que foram os vice governadores, especialmente o genial Hosken de Novaes, que era de uma humildade franciscana e se recusava até a usar o carro oficial, mesmo na condição de governador.
FOLCLORE A propósito de Hosken de Novaes, ex-prefeito de Londrina, há coisas incríveis como a de ir pessoalmente ao supermercado e dispensar auxílio do motorista. Um dia lhe perguntaram o que pretendia e respondeu ‘‘recolher-me à minha insignificância’’. Testemunhei em almoço com o jornalista Cunha Pereira mais o historiador Paulo Mercadante no Palácio Iguaçu o respeito que o pessoal que opera na segunda instância tem pelo trabalho de jurista do mineiro-londrinense. Um exemplo raro.
CROMO Kátia foi fazer a cobertura do resultado do vestiba da Federal e acabou ganhando um pouquinho de lama: é cada vez mais difícil o distanciamento jornalístico. E iluminou a redação com uma carinha de caloura feliz.

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