A oposição tem o direito de exagerar e imaginar até o impensável diante do grau de insensibilidade do governo, rumo ao embotamento, quanto à condução da coisa pública. Quando a Associação Comercial do Paraná (ACP) se dispôs a aprofundar as suas avaliações sobre a venda de ativos, especialmente a Copel, se Lerner fosse um democrata imediatamente convocaria a sua representação para envolver-se no processo em favor da mais absoluta transparência. Não o fez, e isso só poderia provocar uma reação de espanto na entidade.
Curioso é que poucas instituições privadas se engajaram tanto num ciclo como o de Lerner, tanto em sua passagem na Prefeitura de Curitiba como na sua ida para o governo estadual. Circunstâncias obrigaram a ACP a uma postura mais adequada ao seu raio de representação no sentido da independência, ou melhor, até para ser mais claro, da interdependência, no desdobramento do funcionamento do seu Conselho Político, e na busca, sensível e necessária, da participação.
Anteontem, o pasmo entre dirigentes da ACP era de tal ordem que alguns, mais indignados, chegaram a cogitar de uma nota oficial estranhando a exclusão da organização do processo de acompanhamento do leilão da Copel. Houve um recuo na convicção de que o governador ainda pode reverter a orientação. Permaneceu, porém, a atmosfera de chumbo do mal estar e da decepção.
Por essas e outras e diante do leilão generalizado dos nossos ativos, que não pertencem ao governador e sim ao conjunto da sociedade, é que a oposição passa a olhar esse período administrativo como a cavalgada de Átila, o rei dos hunos, que por onde passava tudo arrasava, deixando apenas o solo sáfaro. Pode ser um exagero, mas a didática o exige com o propósito de corrigir, se é que é possível fazê-lo nessa altura dos acontecimentos.
Governo é continuidade, e este é o que rompe a sequência: Richa deixou uma dívida de R$ 1,15 bi; Alvaro Dias, ao sucedê-lo, passou a Requião, uma dívida de R$ 1,290 bi e este ao entregar o bastão para Mário Pereira e daí para Lerner chegou a R$ 1,38 bi. Lerner, hoje, já colocou a dívida do Paraná em R$ 16,8 bi e isso mesmo com os descontos do leilão do Banestado.
Quando entregar o governo, se chegar ao fim, a herança será terrível porque não mais teremos ativos para leiloar e os seus sucessores ficarão com o ônus desse quadro e apenas com as vantagens decorrentes da liberação do ICMS represado nas montadoras e demais empresas e que não tirará o Paraná de uma sombria contabilidade, a do ‘‘vermelho’’.
BIZARRICE
Prefeitos de Londrina, Maringá e Ponta Grossa poderiam entornar o caldo do leilão da Sanepar com uma ruptura contratual. Aliás muitos já fizeram ameaça nessa direção
AXIOMA Segundo o presidente do Tribunal de Contas, Rafael Iatauro, os prefeitos que reclamam contra os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal não passam de uns chorões. De fato eles choram, enquanto o pessoal do TC sorri, como sempre numa boa entre as mordomias de praxe.
GLOSA Os vestibas vibram com a entrada na universidade e festejam na lama. A lama concreta, não a alegórica, que faz parte do ecossistema dos políticos.
EPIGRAMA Se Rafael Greca, segundo as especulações do 4º andar do Palácio Iguaçu, for mesmo para a Secretaria de Educação, ele terá a sua candidatura a governador sob risco: no mínimo uma greve e umas 20 manifestações se darão neste ano em função da área sindical dos professores. Se Alvaro Dias perdeu o pleito de 94 por causa das tensões de seis anos antes, imagine-se o que não se daria com experiências bem mais frescas.
SPRAY Está para ser conhecida a autoria do atentado contra a Promotoria de Investigações Criminais. O próprio delegado Adauto, que coordena as operações, afirmou ter elementos de convicção suficientes para apontar suspeitos. - A parte pericial, praticamente concluída, respaldaria as investigações e o respectivo laudo deve ser conhecido na semana entrante. - Também o Ministério Público já criou a unidade que fará o controle externo da atividade policial. Há muito o MP brigava por esse objetivo e encontrava a reação corporativa dos delegados que agora se ressentem de base moral para reagir diante do que se apurou na passagem da CPI nacional em torno do crime organizado. - Falta de diligências para investigar a ação de um grupo de extermínio, provavelmente da Polícia (segundo o delegado corregedor Bassan), que com 20 encapuzados fuzilou um preso na Delegacia de Furtos de Automóveis e situações semelhantes como a do empresário Mandelli inquirindo numa delegacia a viúva do advogado Crovador, tida como suspeita da autoria do crime, passaram a impor essa necessidade. - Fala-se agora no desaparecimento de um inquérito da Polícia Civil que apura o assassinato de um engenheiro paraplégico. - A ‘‘politização’’ da Polícia, tanto Civil quanto Militar, tem sido o fator de desagregação maior porque submeteu a hierarquia e a base do sistema a um comando fora das regras institucionais. - Ficou nítido que o chefe do Executivo, o governador, estava tão por fora do que ocorria que não teve outra alternativa que não a demissão imediata de toda a cúpula civil da área de Segurança nas primeiras denúncias da CPI da Câmara Federal. - Embora tenha defendido a figura de Cândido Martins de Oliveira, ex-secretário de Segurança, Lerner não teve outra alternativa se não a de afastá-lo em função do clamor público e do espanto provocado pelas apurações preliminares dos parlamentares. - É claro que havia muito ‘‘estrelismo’’ inquisitorial no processo, o que só encontrará seu ponto de equilíbrio com a continuidade das apurações na Justiça.
FOLCLORE Um dia o ex-deputado Hélio Duque chamou Requião de Napoleão de hospício, o que levou o hoje senador a processá-lo. Pois anteontem, Requião, bem no seu estilo, disse que Jaime Lerner era uma ‘‘Joana D’Arc self service, que ateou fogo ao próprio corpo.’’ Como se vê um comentário abrasivo, no qual não há como botar mais lenha na fogueira.
CROMO O catador de lixo, em sua carroça, é Ben-Hur no comando de uma biga romana para arrasar as adversidades. O pior é que a vítima é o cavalo.
AFORÍSTICO Terminados os leilões de Jaime Lerner, o Estado desaparecerá ou será mais forte, cada vez com menos a fazer?

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