Luiz Geraldo Mazza
Não apenas o peixe morre pela boca. Os políticos também. Mas seu aliado máximo é a amnésia da população, o desinteresse, o conformismo. Agora com a largada da privatização da Copel, que todos temem que repita o leilão do Banestado com a pilhagem (Leasing, Corretora) que a precedeu, prepara-se o governo para enfrentar a avalanche de ações judiciais e políticas que serão desencadeadas até a consumação da venda.
Dá para imaginar um outdoor com a reprodução de um diálogo entre Jaime Lerner e Aníbal Khury com um balãozinho saindo da boca de Sua Excelência: Aníbal, você acha que eu vou vender a maioria das ações da Copel depois de 25 anos de vida pública? Eu não faria isso nunca, preferia morrer.
Essa declaração, a que já me referi diversas vezes, está no livro Governadores do Paraná de Enéas Faria e Sílvio Sebastiani, página 312. O texto da obra reproduz entrevistas da TV Exclusiva, de 1996, daqueles que ocuparam o governo paranaense, no programa Sala Exclusiva apresentado, todos os domingos.
Vamos dar continuidade a esse depoimento do Jaime Lerner: Não vou privatizar a Copel, prefiro morrer. Então eu acredito nas palavras do governador, mesmo porque além disso o governador é candidato natural à Presidência da República. Ele tem projeção nacional. Eu costumo dizer que ele é produto de exportação...
Pelo jeito a aspiração presidencial se manteve com maior força do que a jura de fidelidade à estatal diante de cuja privatização preferiria a morte, frase que parece sacada de um texto shakespeareano adaptado em mafuá.
Pois agora um grupo de políticos e jornalistas pretende desencadear campanha em defesa da preservação da Copel que, a despeito do seu traço quixotesco, pode endurecer o cenário. Além dessa idéia do outdoor e de mostrar a gravação de tevê em que Aníbal Khury se refere ao assunto, haveria medidas outras como a convocar o povo a apagar a luz das casas por um minuto pelo menos uma vez ao mês em sinal de inconformismo.
Para a democracia isso é muito bom. Afinal, como diz aquele metafísico, quem gosta de moleza é bêbado em ladeira.
BIZARRICE
As instituições brasileiras, de certa forma, não decalcam aquelas que administram o nosso futebol? Vejam que obra de simetria essa da Justiça Desportiva convalidando o conselho do Clube dos 13 sobre a decisão do Torneio João Havelange. Os poderes de Estado não estariam muito próximos de tudo isso?
AXIOMA O Tribunal de Contas não previu, apesar de todo o seu aparato tecnoburocrático, nada do que aconteceu em Londrina, Maringá, Ponta Grossa. E muito menos das turbulências havidas no Banestado. Se não prevê, acaba apenas provendo e isso não é interessante para a democracia e o bem público, tornando aquela instância apenas num desperdício de prodigalidade.
GLOSA Dizem que o número de demitidos da Assembléia ultrapassa mil. Como Stalin ensinava: a morte de uma pessoa, uma família, é uma tragédia; a morte de milhões é apenas estatística. Na prática, o líder soviético demonstrou isso com o seu programa de coletização agrícola forçada.
GLOSA Em primeiro lugar, enfrenta-se a oposição quando se age com rigor; em segundo, ser derrotado lutando por uma boa causa é melhor que ceder a uma má. Um pouquinho mais de Marco Túlio Cícero, diante de cujos pensamentos os nossos políticos, ordinariamente falando (haveria outra forma?), devem rir na base do mais desenfreado deboche.
EPIGRAMA Temos agora jornalistas oficiais (Prefeitura de Curitiba e Estado) fazendo o papel de patrulheiros dos colegas no empenho em defender os seus assessorados. Para o tipo de político que temos não é preciso, de forma alguma, um Ato Institucional, ainda mais quando o servilismo floresce.
SPRAY Miguel Salomão, secretário do Planejamento, promete escrever em breve um artigo sobre favelização. Quando foram suscitadas as dúvidas em torno do PIB em triplicata, mandou brasa num artigo defendendo o feito paranaense. - O Paraná leva um banho do Rio Grande do Sul nas bases estatísticas regionais, como seguidamente o comprova a revista Amanhã. Esses setores foram aqui, há muito, desmontados: sala de situação, banco de dados, enfim todo o aparato logístico, sem falar na perda de quadros científicos e técnicos. - Há muito não temos planejamento sequer indicativo e uma pasta como a de Desenvolvimento Urbano passa, por sua atuação nos convênios (muito questionados nas primeiras devassas em Araucária) e acesso a recursos, a fazer esse papel, ainda que de forma setorizada. - Inexiste um programa paranaense, além do empirismo das garatujas do governador sobre a mega-prebenda do Anel de Integração que esfola o povo e enche as burras de alguns empreiteiros com o pedágio. - Além disso, não há doutrina, isso é inexiste uma teoria em cima do que estaria ocorrendo no Paraná, apesar da abertura feita com a chegada das montadoras. Tanto que o governo não teve competência para vencer o bloqueio de senadores oposicionistas, aferrando-se num sigilo sem qualquer fundamento sério. - As simples vantagens logísticas, independentemente de concessões fiscais exageradas, seriam suficientes para atrair as empresas, como o profeta do capitalismo norte-americano, Lester Thurow, insistiu várias vezes. - Para forçar a guerra fiscal e assegurar a atração desses investimentos, o governo chegou a tornar-se sócio da Renault em 40%, posição que foi caindo com o aumento de capital, isso sem falar nos estímulos na concessão de áreas e de incentivos fiscais. - O Estado debilitado que aí está, e que se vale da venda de ações da Copel para acertar seus desregramentos, é a prova do fracasso e de qualquer vestígio de racionalidade. - Nunca a pasta fazendária sabe como irá fechar a folha de pagamento do mês, pois não há mais antecipações de receita e manobras do gênero, em função da Lei de Responsabilidade Fiscal. Um sufoco por mês.
FOLCLORE Segundo o jornalista Fábio Campana, o clima palaciano é de tal ordem que Lerner acredita em tudo que lhe dizem, inclusive que está magro.
CROMO Orson Welles, em Cidadão Kane, na hora de expirar, disse Rosebud e viu um trenó. Em alguns de nós haverá o fulgor da bolinha de gude, a mais afetiva delas, a jogadeira.
AFORÍSTICO Em seis anos, a dívida do Paraná, que era de R$ 1,38 bilhão, passou para mais de R$ 16 bilhões. Uns acham que é salto, outros que é outra coisa.





