Luiz Geraldo Mazza
A pior coisa que pode acontecer a um órgão científico ou técnico, ou tido pretensamente como tal, é tornar-se político e propagandístico. O que se dá amiúde com o IPPUC, por exemplo, que entre a racionalidade e a sustentação do marketing, acaba ficando na onda ideológica, ou o Ipardes que começa a pisar na bola com maior frequência em função do novo perfil da economia. O empenho, como em bula de remédio, para destacar a ação terapêutica e minimizar efeitos secundários faz parte dessa tática que exigiria um Sócrates como foi preciso para enfrentar a escalada dos sofistas.
O mais hegemônico dos organismos estatais do Paraná é a Copel. Houve época em que ela pretendeu invadir áreas para as quais não contava sequer com recursos humanos adequados, mas assim mesmo o fazia no melhor estilo Eurico Miranda. Tanto que em 1980 se meteu a sebo no campo da demografia e pretendeu fazer um estudo prospectivo indicando, antes da consumação do Censo do IBGE, estimativa de 10 milhões de habitantes, registro ainda não alcançado 20 anos depois.
Fácil é deduzir que para justificar junto aos organismos internacionais, que financiavam suas obras, as linhas de transmissão transpondo áreas de população rarefeita devem ter engordado tais indicadores para que se tivesse uma visão de consumo real ou projetado bem maior.
Não era possível que esse levantamento não enxergasse o esvaziamento do Paraná com o esgotamento das nossas e o surgimento de novas fronteiras agrícolas, áreas ubérrimas sendo usadas no represamento das hidrelétricas, o ciclo da soja impondo o uso de amplas áreas e com índices de mecanização elevados e consequente liberação massiva de mão-de-obra. O fato é que o poder da Copel prevaleceu, embora chegasse a números bem próximos dos 7,6 milhões de habitantes. Esse tipo de clima confessional que dentro em pouco chega no crê ou morre é uma constante nas entranhas do poder.
Agora com a publicação dos dados preliminares sobre favelamento, vamos assistir ao exercício acrobático dos que tentarão contestar os números, nada favoráveis ao paraíso da propaganda. Quarta unidade do País em favelamento, o Paraná tem na mobilidade migratória interna a causa e Curitiba, alvo da maior lavagem cerebral da nossa história, é o pólo destacado desses desajustes.
No Rio de Janeiro existia um tal de Mário Saladini, secretário de Turismo, que propunha que se transformasse o decor das favelas em arte: pop, optical, psicodélica, fauvista, surrealista. Lá ainda há motivo porque os conjuntos favelados ficam nos morros (os primeiros ocupantes foram legionários da campanha de Canudos e que ganharam a moradia como prêmio no ataque a Antonio Conselheiro) e aqui eles jazem nos fundos de vale. Entre nós não há como colocar o fator diferencial da cor na miséria em preto e branco, tal qual na semiologia de um filme neorealista italiano.
BIZARRICE
Mostrar espanto com o fato de existirem fantasmas na Assembléia Legislativa do Paraná é hipocrisia pura. Fantasmas eram a um só tempo no jogo do poder servidores efetivos e, sobretudo, afetivos. Uma vergonha sem tamanho
AXIOMA É mais fácil a Corte chilena forçar o depoimento de Pinochet do que qualquer instância de poder por aqui enquadrar o Eurico Miranda. Isso é o Brasil. O autoritarismo fascina. Vejam nossos candidatos a governador.
GLOSA Se o que rola em nossas praias são dejectos não é possível que se os confunda com sabonete. Em Camboriosta é assim, mas isso não consola.
EPIGRAMA O escrúpulo é algo cada vez menos presente tanto no setor público quanto no privado. Quando há qualquer sinal da anomalia a maioria se espanta.
PANGLOSS Miguel Salomão é uma figura respeitável. Tanto que o FMI o contratou para montar o Banco Central de Angola. Deu para discutir toda estatística do IBGE sobre temas sociais e econômicos e que mostra um Paraná menos colorido do que o da propaganda. No caso das pesquisas sobre fomento industrial, até que tem razão por se lastrearem numa projeção sucessiva de números de uma década atrás, portanto uma base falsa. Mas agora está aí a questionar os números da favelização, que é um corolário do tipo de desenvolvimento que temos.
O Paraná pode não estar tão bem, mas o Salomão que está cada vez numa melhor é o Salomão Soiffer e não o dedicado Miguel Salomão que parece, cada vez mais, o Pangloss de nossos dias, aquele voltaireano que vivia no melhor dos mundos.
SPRAY Urge ficar de olho para que não haja com a Copel o que houve com o Banestado: levar a instituição ao leilão depois de uma pilhagem. - Depois da notícia de ontem da contratação de advisers internacionais (e aquela outra que vinha fazendo estudos de formatação?), é preciso que a sociedade, dona efetiva do patrimônio, acompanhe com maior atenção, sem passionalismos, ainda mais depois da venda de ações da empresa para cobrir o caixa estourado, esses procedimentos. - A Associação Comercial do Paraná deve persistir, de forma inflexível, na disposição de impor aos rituais o máximo de clareza, a tal da badalada transparência, que existe no discurso e não na prática. - O governo está longe de deter reservas de credibilidade para que a sociedade fique ao largo dos acontecimentos. Quebrou o Estado, provocou o maior número de ações investigatórias no Ministério Público: 93 ações civís públicas, 154 inquéritos civís, 510 procedimentos administrativos, e participou de eventos até hoje fora de investigação como os Jogos Mundiais da Natureza e o caso da compra das ações do Sercomtel pela Copel, no qual reverteu uma CPI instalada.
FOLCLORE Sobre essa pendência entre a C.R. Almeida e o Ministério de Assuntos Fundiários em torno de terras da Amazônia é sempre interessante ouvir a palavra sábia dos colonizadores. Um deles, Ibrahim Abudi Neto, tem uma frase sacramental: Terra boa e mulher bonita só é dono quem está em cima.
CROMO Prostitutas de verdade choram diante da novela global, mas não percebem que a burguesia não lhes concede, como as do mundo virtual, tanta indulgência.
AFORÍSTICO Depois de mim, o dilúvio. Um dos nossos políticos poderia repeti-lo com a maior convicção sem ser chamado de plagiário de Luís XIV.





