Dos 40% de aumento das favelas, registrado em Curitiba de 1991 para cá, pouco disso se deve à gestão de Cassio Taniguchi. Ninguém foi tão cauteloso com o oba-oba publicitário como o burgomestre reeleito: ao menos não enveredou pelos caminhos da ‘‘idealização’’ do ciclo lernerista, a badalação da cidade-modelo, da cidade ecológica.
Como se estivesse prevendo o que indicam os dados preliminares do Censo IBGE, ele se lançou na proposta de fazer de Curitiba uma capital social do País. Não deixa de ser um ‘‘teaser’’ a mais que a prática pode ou não referendar. O fato é que a propaganda massiva de 91 para cá, e mesmo anteriormente, contribuiu, de forma alarmante, para que a periferia curitibana engravidasse e chegasse ao quinto lugar bem à frente de Belô, Salvador, Belém. Porto Alegre, que detinha manchas fortes de pauperismo, está agora em 14º lugar com quase a metade dos núcleos favelados da capital paranaense.
Ao colocar como prioridade a atuação desse novo período de gestão em cima de processos de urbanização dos núcleos favelados, Cassio se antecipou em alguns dias à terrível revelação que ainda pode ser modificada para pior, pois a existência de 122 núcleos parece, de certa forma, conservadora. Conciliar esse testemunho com a qualidade de vida, tantas vezes proclamada, é difícil.
De um modo geral tivemos, de 70 para cá, apenas dois momentos de governos de timbre diferenciado, os de Maurício Fruet sob Richa e o de Requião como sua continuidade. Ambos visceralmente populistas, atuaram muito no varejo das demandas imediatas e de forma alguma desestimulavam as invasões urbanas. No período de Requião, tivemos uma propaganda massiva, em rede estadual, que o apontava como aquele que oferecia o transporte e a comida mais baratos do Brasil, sugerindo, ainda, que urbanizava as ocupações. Assim, pois, houve uma sequência de otimismo no discurso aparentemente diferenciado.
Mais recentemente, embora os cuidados de Cassio Taniguchi em não manter a escalada triunfalista, tivemos a clarinada do novo perfil econômico do Paraná centrado na indústria automotiva e que traria mais migrantes em busca do ‘‘paraíso’’ e do qual retirariam as migalhas do banquete, às vezes apenas o lixo. E essa patologia, a da favelização, não alcança apenas Curitiba.
Todas as cidades-pólo (Londrina, Ponta Grossa, Maringá, o colar metropolitano) têm favelas em quantidade cada vez mais assustadora, prova inconteste de que não há, de forma alguma, a sonhada difusão espacial do bem-estar, peça do programa de Ney Braga em sua segunda gestão como anteparo para desequilíbrios regionais e que se acentuam, especialmente agora, a partir do primeiro governo Lerner.
O prefeito de Curitiba, não disposto a sustentar fantasias e marketing, diz que o IBGE está equivocado: há mais do dobro de favelas na cidade, 262.
BIZARRICE
Cassio Taniguchi reuniu o seu secretariado para uma ‘‘imersão’’ e desautorizou especulações em torno de sua candidatura ao governo em 2002. Já aquele, que não tem a menor condição de ser candidato, Jaime Lerner, sugere que vai disputar a presidência. Este precisa emergir na realidade
AXIOMA ‘‘Mamãe’’ – diz a pré-adolescente, ansiosa como quem acaba de descobrir uma verdade – ‘‘Agora já sei o que é suruba: é a novela das 9!’’
GLOSA Conforme a correção de Cassio Taniguchi sobre o número de favelas, que é de 262 núcleos com 52 mil famílias, Curitiba sobe no ranking da sinistrose passando de 5º a 3º lugar no Brasil. Como dizem os versos apostolares: a verdade nos libertará. Estamos, já, com a medalha de bronze.
Não pode ser ecológica e muito menos modelo de qualidade de vida uma cidade turbinada pelas favelas, resultado oculto do marketing ideológico.
EPIGRAMA Descoberta a chaga das favelas, depois virá a dos rios condutores de esgotos e, em seguida, a da saturação do sistema de transporte coletivo. Na canaleta da Avenida República Argentina, anos passados, havia um biarticulado a cada minuto, agora já são dois e a formação de comboios é visível.
E o Lerner vai fazer campanha presidencial em cima das empulhações que cultuou sobre Curitiba ou sugerirá saídas inteligentes como a do pedágio?
SPRAY A campanha eleitoral deve ter aguçado em Cassio Taniguchi a visão do processo de exclusão social em Curitiba e que isso não pode ser enfrentado com quimera publicitária. - A dureza da competição o levou a enxergar uma realidade que está fora da embalagem costumeira, daí o fato de eleger como prioridade a atuação na parte social. Isso vai colocá-lo em choque com a cultura mantida ao longo do tempo e que jogava para baixo do tapete os problemas sociais. - Aliás essa consciência do ‘‘social’’ não havia na oposição que oportunisticamente elogiava o modelo e não o mantinha sob crítica, como era de sua obrigação. - Está criada a dicotomia que enriquecerá o cenário: esgotada a cota de mentiras sobre Curitiba, o quadro se enriquece, dialeticamente, e aqueles que mantinham uma visão crítica do processo não mais serão vilipendiados na Universidade e nos vários escalões administrativos e nem tratados como malditos, como quase sempre ocorria. - Pessoalmente, tive uma prova disso: convidado para falar a todas as turmas do curso de Arquitetura da Universidade Federal e que iriam apresentar um trabalho sobre urbanismo em Barcelona, apesar de ter mantido, por duas horas, a crítica em cima do sistema nenhuma das minhas observações constou do memorial final. A alegação da cátedra era a de que as reflexões que coloquei serviriam de ‘‘massa crítica’’, mas não constariam do discurso oficial. - A arquiteta Fernanda Sanchez Garcia, que desmistificou a questão no livro ‘‘A Cidade Espetáculo’’, teve censurados alguns textos seus em mostra de um dos museus de Curitiba por não estar em sincronia com a verdade oficial. - Um dos setores que servirão como alvo de análises críticas nas novas gestões municipais será a parte de convênios da Secretaria de Desenvolvimento Urbano.
FOLCLORE Primeiro foi a conta da luz e a da água, depois vieram o carnê do IPTU e do IPVA. Quem passou pelo teste pode enfrentar até dinossauro.
CROMO A aranha é mais racional do que Penélope à espera de Ulysses: tece pacientemente sem desfazer o trabalho para depois refazê-lo.
AFORÍSTICO Se o Tribunal de Contas do Paraná é referência para o País, dá para imaginar a extensão do drama brasileiro.

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