O incidente havido no Aeroporto de Cascavel com o empresário londrinense João Carlos de Queiroz e o governador Jaime Lerner é um acontecimento que, de forma alguma, pode ser tido como isolado. O tipo de atitude adotada pelo homem que saiu de Londrina especialmente para mexer com o governador pode se transformar num hábito diante do clima de inconformismo existente e essa atmosfera de justiçamento, de forte encaixe psicossocial, e que está presente em inúmeras formas de intolerância como a do público diante do juiz Lalau. Visível não apenas a intolerância como a irracionalidade em se criar na opinião pública que aquele juiz, por ser acusado de crimes, deva ocupar cela humilhante quando a legislação diz expressamente o contrário.
Ocorre que para os palacianos isso tudo é bobagem, já que Lerner teria todas as condições de alavancar a candidatura presidencial. O governador, na medida em que se percebe o imobilismo da sua gestão diante da crise, corre o risco muito sério de ser importunado se resolver andar pelas ruas de Curitiba à vontade, como fazia no primeiro mandato e quando prefeito.
‘‘Por que o senhor não vai a Londrina faz 11 meses?... O senhor foi a Rolândia, mas desceu em Arapongas, o povo de Londrina quer saber aonde o senhor está e porque fugiu de Londrina...’’ Resposta de Lerner: ‘‘ Eu conheço esse tipo de armadilha, de pessoas que vêm aqui para me provocar. Eu quero dizer o seguinte: estarei sempre levando obras e...’’
E foi por aí a fora o desagradável incidente. A uma certa altura, o empresário sugere que o povo de Londrina enxotaria a autoridade se ela aparecesse por lá. Só essa afirmação já faria com que a Lei de Segurança Nacional caísse em cima do empresário com todo o seu vigor de diploma em desuso, em função do ‘‘fairplay’’ ainda reinante na praça.
Ora, se a cidade enxotaria o governador, como sugeriu, a pergunta (por que não aparece por lá faz 11 meses?) perde o sentido pela conotação hostil.
O presidente FHC, por artes do PT e correlatos, sofreu o diabo nas visitas ao interior do Brasil com vaias, apedrejamentos e tudo o mais. Pois agora FHC está em franca recuperação nas pesquisas e dentro em pouco poderá ser dar ao luxo de imitar o Covas nas aproximações com a patuléia. Jaime Lerner tem muito a fazer para conseguir essa proximidade e, convenhamos, que pouco está sendo feito nessa direção. Se não é bom para ele, também não o é para a sociedade.
DUNGA
Um saque genial do Luis Fernando Veríssimo foi quando se referiu à forma como Dunga, o capitão do tetra, ‘‘matava’’ a bola. ‘‘Ele o faz como se agisse com o distante ancestral da bola, a vaca’’
O MARIDO O advogado José Ferreira, Juquinha, teve um derrame na vista e foi com a mulher, Dona Regina, no médico. Diante das perguntas, Juquinha foi dizendo que fumava, comia e bebia pouco e que fazia caminhadas longas ao amanhecer. Dona Regina começou a impacientar-se e fez menção de sair. Juquinha e o médico perguntaram porque estava querendo sair. Professora, ligada nas artes da pedagogia e da ironia socrática, respondeu: ‘‘Vou buscar o meu marido porque esse que está aí e que fuma e bebe pouco não é ele...’’
RÁDIO Adão Plínio da Silva, ex-técnico de futebol, está indo a Paranaguá com amigos, enquanto ouvem uma rádio de Curitiba. Numa certa altura do trajeto, ainda nos limites metropolitanos, a emissora não pegava. Adão tascou a sua sabedoria: ‘‘Essa rádio é que nem cavalo de bandido em faroeste: atravessou a ponte, ninguém mais pega!’’
O TREM Numa das muitas inaugurações de trechos paranaenses da Ferrovia São Paulo-Rio Grande, quem pintou por aqui foi o presidente Wenceslau Braz. O ex- governador Munhoz da Tocha, ao referir-se ao episódio histórico, conta algo com todo o fulgor de tema folclórico: eram tantas as curvas do traçado que um homem humilde a cavalo e que andava em linha reta saudou o presidente mais de três vezes. Em que pese tudo isso, a ferrovia foi chave para que chegássemos ao ciclo do café: ele veio justamente com os trilhos. Pena que o trecho da Central do Paraná, a ligação Ponta Grossa-Apucarana, só viesse quando o ciclo estava praticamente exaurido.
SABEDORIA Mais um pouco de Marco Túlio Cícero: ‘‘Aquelas minhas amizades eleitoreiras, pretensiosas e falsas servem para dar algum brilho nas ruas, mas não me trazem nenhum proveito particular. Por isso, embora minha casa esteja bem cheia já ao amanhecer, embora eu caminhe até a praça central amplamente rodeado por bandos de amigos, não sou capaz de encontrar ninguém, em meio a essa grande massa, com quem possa brincar com liberdade ou suspirar pensamentos mais íntimos.’’ De Cartas a Ático.
Em cima desse tema, o da solidão no poder, Munhoz da Rocha desenvolveu reflexões profundas. E pateticamente dá para lembrar também Fernando Collor de Mello quando fazia o apelo para que não o deixassem só. É uma lição que poucos aproveitam porque como o Terceiro Reich ou o Império Romano também se acreditam bafejados pela eternidade e não enxergam a provisoriedade do poder.
PIORES Todos os anos, ironizando promoções de jornais que elegem os melhores em vários campos, normalmente figurões que não saem da mídia, o jornalista Cândido Gomes Chagas, da revista ‘‘Paraná em Páginas’’, faz a lista dos piores. Como é um perseguidor implacável do governador Lerner, desde os anos 70, da primeira gestão deste na Prefeitura de Curitiba, deveria já o apontar como ‘‘fora de concurso’’.
Neste ano, além de Lerner, Candinho botou o Francisco Moraes do IML, a Petrobras pelo estrago no Rio Iguaçu, os prefeitos de Maringá (Jairo Gianoto) e Londrina (Antonio Belinati), o delegado Noronha, o empresário Sérgio Prosdócimo por sua atuação no Coritiba, o secretário Nakamura etc.
Nem a anistia fez Candinho esquecer que Lerner o ‘‘entregou’’ ao SNI. Sua volúpia de combatente é sufocante: o Inspetor Javert, de Victor Hugo, e que perseguia o Jean Valjean que havia roubado um pão em ‘‘Os Miseráveis’, diante dele é ‘‘fichinha’’. Dando risadinhas do Doutor Silvana, quando fazem essa comparação, ele diz: ‘‘Essa turma levou mais do que uma padaria.’’

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