Agora que arrefeceu a campanha pelo controle externo do Judiciário, eis que o governo paranaense, este mais do que qualquer ente fora de qualquer controle, resolve monitorar a Polícia Civil, via Ministério Público. Se a instituição estivesse em condições morais e técnicas de brigar por seu raio de autonomia estaríamos assistindo a um infindável debate em torno de prerrogativas. E os delegados de carreira, sempre ciosos das suas funções, estão meio inibidos para entrar no debate pelo grau de corrosão que atinge a brava corporação depois da passagem, por aqui, da CPI do Narcotráfico.
O controle da Polícia no governo Lerner era da classe política e em especial do deputado Aníbal Khury que promovia, removia, mudava delegados, policiais e mexia, inclusive, na hierarquia da Polícia Militar. No quarto ano de gestão, convidado junto com outros jornalistas e radialistas para dar opinião e oferecer sugestões sobre a escalada de violência e a questão da segurança, fui ao microfone e disse claramente diante de mais de uma centena de hierarcas das Polícias Civil e Militar: ‘‘Governador Jaime Lerner: a condição indispensável para que o senhor comece a enfrentar de fato os problemas da área depende da recuperação das prerrogativas que foram indevidamente delegadas ao deputado Aníbal Khury.’’ Como a obviedade choca, houve um silêncio e um dos componentes da mesa fez menção de tentar uma contestação e foi contido pelo governador.
A acomodação cultural que se estabeleceu só poderia levar ao trauma gerado pela passagem da CPI do Narcotráfico e com a destituição de toda a cúpula civil apontada como vinculada ao crime organizado. Descontados os exageros das CPIs e no caso regional com o Padre Roque posando de exorcista do mal, ao ponto de tentar listar o senador Osmar Dias dentre os indiciados, o fato serviu para mostrar o caos instalado no setor e de sua absoluta falta de credibilidade, em que pese o inquisitorialismo da missão parlamentar.
O Judiciário não quer controle externo, confiando na autogestão. Isso é no funcionamento das corregedorias que não operaram no caso de Lalau e que não deve ser o único, embora a árvore esteja longe de expressar a floresta. Também o Ministério Público não quer saber de controle externo, tanto que reagiu com fúria ao édito intimidatório da Medida Provisória. Em São Paulo se chegou a um sistema de controle interno de transbordamentos dos procuradores.
É preciso buscar o equilíbrio perdido, posto que pareça a uma população, ansiosa por linchamentos, mais virtuoso o exagero do que a cumplicidade. Nem uma coisa, nem outra. Urge que em todos os casos, inclusive nesse da Polícia, prevaleça a máxima de Horácio, o clássico, ‘‘modus in rebus’’, moderação nas coisas, tanto das ações policiais como de seus fiscalizadores e acusadores. Outra coisa: o verdadeiro controle das instituições é tarefa da sociedade, que precisa para tanto organizar-se, como fez em Londrina e Maringá.
BIZARRICE
Primeiro a redução da jornada de trabalho dos servidores estaduais, depois o estímulo às demissões voluntárias e, em seguida, a dispensa em massa. Como conciliar a inspiração de Herodes com pretensões presidenciais?
AXIOMA Quando farão, afinal, meu senhor, a lobotomia pré-frontal no ‘‘Chapéu Pensador’’? A rima é rica e a inspiração louvável.
GLOSA Dizer que o Tribunal de Contas faz controle do governo é uma piada. Duro com prefeituras pequenas (as grandes, só na exceção) é cúmplice do governo por irrefreável vocação. Ele se ajusta à Lei de Responsabilidade Fiscal?
EPIGRAMA Se aumentou em 14% o número de homicídios em Curitiba induzidos pelo narcotráfico e o roubo de automóveis, bem como a operação dos desmanches tiveram continuidade normal, pelo jeito o alerta da CPI deu em nada.
SPRAY Se o governador Jaime Lerner deixar mesmo de ir a Noviorque à estréia do balé de sua filha em troca de uma viagem a Recife no calendário de sua campanha presidencial é porque a disposição é séria. - Ele vai ao Nordeste com uma imagem negativa (7º lugar entre dez governadores, conforme o Datafolha, enquanto Cassio Taniguchi é ainda o terceiro prefeito de capital do País) e sem aquele potencial que Ney Braga revelava em 61 quando levou à capital pernambucana os caminhões de batatas para distribuição popular. - Não consegue arrumar a casa e tenta de todas as formas atrair o ex-secretário Giovani Gionédis ao aprisco. No almoço havido no ‘‘Chapéu Pensador’’ e articulado por Cassio a que compareceu Gionédis estavam presentes ainda o conselheiro Heinz Herwig e o ex-prefeito Saul Raiz. - Um dos problemas cruciais, que carece de definição para este ano, é o do lixo com o esgotamento próximo do aterro sanitário da Cachimba. Cidades da Região Metropolitana, de um modo geral, não aceitam o papel de depositárias do lixo de Curitiba. - Rio Branco do Sul já o demonstrou em plebiscito que não aceita a localização. - É possível até que o tema sirva de divisor de águas na disputa para a presidência da Assomec, Associação dos Prefeitos da Região Metropolitana, já que as forças de oposição podem emplacar a presidência com a exploração de todos os descontentamentos. - Há quem acredite até em jogada de caráter emocional na base de faixas: ‘‘Para Curitiba, tudo; para o resto, o lixo do progresso’’. Não é justo, mas politicamente forte. Afinal, há automotivas em São José dos Pinhais e em Campo Largo e nos outros municípios muitas unidades da malha produtiva do sistema automotivo. - Sobre a questão do lixo uma informação: um grupo argentino que domina a tecnologia de triagem e reaproveitamento, inclusive com a produção de tijolos, já está em conversações na capital para habilitar-se ao mercado. - De qualquer forma esse tema vai também minimizar os proclamados feitos do ‘‘Lixo que não é lixo’’ e da tal fantasia da Cidade Ecológica do grupo lernerista e não haverá como reverter a decepção, depois de tanta lavagem cerebral.
FOLCLORE Malicioso tempo integral, embora cuidando de hotel em Guaratuba, o Rubinho Ferreira sugere que o novo secretário de Esporte e Turismo de Curitiba, Rodrigo Martinez, tem muito a ensinar a Pelé, Hortência, Oscar, Bernardinho e Robson Caetano. Rubinho não é jejuno em esporte, tanto que fez na cidade balneária o 1º Concurso de Arremesso de Coco, posto que em muitas de nossas praias o que há a arremessar não seja exatamente a fruta e com acento circunflexo na última sílaba.

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