Luiz Geraldo Mazza
Dois escritores tentaram, em obras enciclopédicas, falar do século: John K. Galbraith, liberal, escreveu A Era da Incerteza e Hobbsbawn, marxista, A Era dos Extremos. Duas reduções do nosso tempo, a de Galbraith feita antes ainda do novo cenário geopolítico, a de Hobbsbawn concluída sem registros como o da descoberta do genoma do homem.
Uma temeridade para qualquer pessoa, que tenha um mínimo de respeito pela ciência, está em fazer sínteses antes do fechamento do século que ora se dá, para nós nesta meia-noite. Desde as coisas mais elementares, como o dos sinais de recessão nos Estados Unidos, ao da apuração de efeitos colaterais com o uso do Viagra, até as mais relevantes como a do aumento da expectativa de vida das pessoas mesmo em cenários subdesenvolvidos, podem, de fato, surpreender.
Utopias, por exemplo, são difíceis de identificar no Paraná neste século. As mais relevantes se deram anteriormente como a da República Teocrática Guarani, que teve a sua capital na Ciudad del Guairá, hoje Terra Roxa; a anarquista da Colônia Cecília, em Palmeira, e a do socialismo dos falanstérios de Charles Fourieux na Colônia Teresa Cristina, no Rio Ivaí, ideada pelo médico Maurice Faivre, parteiro da Imperatriz.
Tivemos, no entanto, uma saga que não poucos estudiosos consideram superior à de Canudos e de Antonio Conselheiro: a do Contestado com o surgimento de uma base messiânica do monge João Maria nos Campos do Irani e reduto do Taquaruçu. Como as guerras de Roma tiveram um César para relatá-las e as das navegações um Camões para decantá-las em Os Lusíadas, a obra do repórter e geógrafo militar Euclides da Cunha deu, com Os Sertões, o mais preciso documentário com a epopéia de Canudos. Faltou-nos o intérprete dessas tensões e sob o ponto de vista bibliográfico levamos um banho dos catarinenses que ganharam a parada em todos os sentidos, no jurídico e patrimonial e no político e cultural.
Se no século passado, em seu final, a fatalidade geográfica fez da Lapa o fator importante da vitória dos legalistas na insurreição federalista, o Paraná voltaria a desempenhar papel tanto na revolução de 30 e 32 quanto na do golpe de 64. Tivemos, também, por essa mesma circunstância a do caminho de passagem presença nos feitos da Coluna Prestes.
Quem melhor pensou o Paraná no passado foi o próprio conselheiro Zacarias, que instalou a província em 1853. Talvez seja ele a figura nacional mais relevante que tivemos pelo fato de haver sido quase um premier como presidente do Conselho de Ministros, ministro de várias pastas e governador de vários Estados. Suas mensagens revelam um conhecimento excepcional da geopolítica da época, o cuidado com as nossas vocações econômicas. Dos que mais fizeram da segunda metade do século para cá: Ney Braga e dos que bem pensaram o Paraná: Bento Munhoz da Rocha Neto. Com eles perdemos o acanhamento.
O documentário que a Folha apresenta hoje é motivo de reflexão e de estímulo ao aprofundamento dos fatos para que possamos dar resposta a algo que nos angustia: mosaico de tantas gentes brasileiras e etnias, em que medida a procura dessas raízes facilita a saída para o encontro da nossa identidade. Até os nossos dísticos, que foram alterados por uma comissão de estudiosos no governo Alvaro Dias, e que estão inscritos nos mapas e documentos, encontram-se imaginem só sub judice desde o dia em que o advogado Francisco Brito de Lacerda, que já morreu, foi à instância superior para discutir a mudança havida nos signos que nos identificam.
Não bastasse isso, cada governo que entra coloca a sua logomarca e teaser como Lupion com Paraná Maior, Ney Braga com Todos somos uma só força sugerindo o que realmente fez com a integração e busca da unidade não apenas físico-territorial como também cultural; Paulo Pimentel com a esfera verde e o Aqui se Trabalha, decalcado da Itália fascista; Richa com o senso de democracia e participação, Alvaro Dias com a casinha de alvenaria, Requião com o Brasil que deu certo (para quem?) e agora Lerner com a transformação que a gente faz (quem fez a quebra foi ele), embora as folhinhas verdes da ecologia, dele e do Cassio, sejam bela criação, sob o rigor semiológico, dentre as muitas do comunicador visual e arquiteto Manoel Coelho.
MELANCOLIA E EUFORIA Os derradeiros anos do milênio mostram o Paraná, ao lado de uma busca selvagem de derrubada, sem critério, do patrimônio público, em nome da inevitabilidade fundamentalista da globalização, sinais fortes de participação social e política, visível nos casos de luta contra a corrupção em Londrina e Maringá.
O governo estadual, comandado por Jaime Lerner, é visto igualmente como um desagregador dos valores regionais na medida em que embarca, na base de um fervor confessional, num tipo de modernidade, como a expressa na atração de grupos multinacionais, enquanto se desenvolve de forma larvar a corrupção, atingindo especialmente o Banestado.
Outro pecado é o de não ter sabido fixar salvaguardas para defender a produção e o trabalho do que é genuinamente paranaense nesse processo e que dançou com os excessos da abertura havida.
O que há de melancólico em tudo isso é compensado largamente pelos feitos da participação: o povo se organiza, embora até aqui limitado à elite, para levar denúncias ao Ministério Público, instituição que se notabiliza pelo fato de exercer, principalmente no interior, as suas prerrogativas com amplitude.
Lamentável a precária expressão nacional do Paraná, já que poucos contaram com tanto potencial (especialmente a mitologia do gestor urbano) como Lerner. Mesmo nos episódios de bloqueio aos empréstimos pelos senadores Roberto Requião e Osmar Dias, que impunham como condição a abertura dos protocolos das montadoras, percebeu-se a nossa ausência de punch e determinação. Aparecendo em antepenúltimo lugar no ranking do DataFolha, Jaime Lerner fecha o milênio com a pior classificação obtida por governantes paranaenses.
Quem dá a nota baixa é o povo, o que mostra que já não se condiciona, como anteriormente, à massagem da mídia, antes asfixiante, hoje mais aberta.
SÍMBOLO O atentado à Promotoria de Investigações Criminais é um símbolo do governo atual que, por sua inação, estimula a audácia dos delinquentes como também a dos que meteram a mão no Banestado e em outras áreas.





