Luiz Geraldo Mazza
O Estado, a máquina pública, quebrou. Não é novidade. Nunca se viu tamanho descalabro no Paraná. Pior do que isso, porém, é a falta de alternativas. Lerner, o autor da façanha, já venceu tanto Alvaro Dias como Requião, hoje senadores, que aparecem como opções, o que aprofunda a perplexidade e a agudeza do drama paranaense. Já vimos os dois em ação no governo e numa época em que predominava a ilusão de ótica da inflação que permitia a correção do fluxo de caixa e sugeria que as finanças públicas se encontravam em estado de graça. Na verdade, uma desgraça mimetizada.
Ao vermos o coral dos dois senadores, maliciosamente se propondo à salvação, quando torcem abertamente pela sinistrose, como já o demostraram sucessivas vezes, percebemos o nível de desagregação a que chegamos politicamente. Não há sinais na sociedade paranaense de uma busca de reencontro das forças para o restabelecimento da coesão interna.
Se são válidos os esforços comunitários de Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Matinhos com seus movimentos de defesa da ética no exercício político percebe-se, no entanto, que se limitam a aspectos puramente focais e aí, também, sob o risco de aflorarem idiossincrasias que podem prejudicá-los, como se percebe nessa hostilidade ao nome do ex-deputado Paulo Bernardo como secretário da Fazenda de Nedson Micheletti, em Londrina, o que o levou a pedir a quebra do seu sigilo fiscal, bancário e telefônico, a resposta possível da decência.
Num incêndio na área portuária de Paranaguá, percebeu-se que faltou água para o combate às chamas. Não poucos parnanguaras lembraram da tragédia dos anos cinquenta quando o incêndio no terminal durou mais de uma semana. Mas naquele tempo havia esperança e o quadro desolador do Paraná, em que pese a aura do fim do ano e do século, não recomenda esse sinal necessário ao menos no que diz respeito à política. Lamentável que não tenhamos quadros, que não contemos com alternativas, como ficou evidenciado nas eleições municipais quando as soluções velhas se apresentavam como saídas e a taxa de renovação verdadeira foi decepcionante.CROMO
Há algo mais greco-romano do que Rafael e Margarita no réveillon do milênio em Roma. Pena que Fellini tenha morrido, pois na certa sequestraria o casal para a sua obra mais operística
BIZARRICE Se já começam a dar de dedo no governador, como aconteceu anteontem em Cascavel, há riscos de situações piores se aparecer no Calçadão na capital. Houve quem lembrasse daqueles incidentes com o presidente Figueiredo e o então ministro César Cals em Florianópolis e que sinalizaram a agonia do regime militar. Mas aqui, em Curitiba, João Figueiredo abafou até porque era parecido com o presidente da Boca Maldita, o Anfrísio Siqueira.
AXIOMA A Copel deve R$ 119 milhões para a Previdência, mas considerou bem mais prioritário adiantar, em processo inconcluso, R$ 90 milhões à CR Almeida e US$ 9 milhões à DM Construtora, relativos o primeiro a pendências de Segredo e o segundo da Usina Salto Caxias.
GLOSA Sempre, nas minhas escolhas eleitorais, segui São Tomaz de Aquino e a sua doutrina do mal menor. Hoje está difícil saber quem é o menos ruim.
EPIGRAMA O mundo está mudando e a gente do governo não percebe: anteontem o Canal 12 mostrou crianças de 4 e 9 anos colhendo batatas em Balsa Nova num flagrante de crime explícito que deveria sensibilizar todos e ontem, na Gazeta do Povo, a foto do pai de um afogado na praia batendo nervosamente na viatura do Siate, pois a Operação Praias, pelo jeito e por falta de recursos, entrou em férias. Na Gazeta do Paraná, o empresário João Carlos Queiroz, de Londrina, aparecia dando de dedo no governador no Aeroporto de Cascavel. Como se vê, não há clima para oba-oba, o que não impede o Alceni Guerra de dar continuidade ao delírio da campanha presidencial, o que não deixa de ser uma forma de sublimar e driblar a própria realidade.
SPRAY O Ministério Público, em Maringá, resolveu enquadrar jornais pelo fato de receberem, mensalmente, verbas da prefeitura. Ora, se tal interpretação ganhasse dimensões extensivas, a maioria esmagadora da imprensa paranaense não escaparia. - Apesar das constantes advertências do conselheiro João Féder, do Tribunal de Contas, no que naturalmente não era acompanhado na prática pelos demais pares, de que a subvenção jornalística, sob a forma de matéria indireta sem caracterização comercial é ilegal, a prática ainda é comum, apesar de todo o aspecto negativo. - Trata-se de uma cultura, praticada na capital e no interior. Curitiba em especial age assim e aceita usar artigos e reportagens, notícias e documentários, como comprovante de pagamento, desde os tempos do prefeito Ney Braga. - Trata-se de um pecado venial, ditado pelo estreitamento do mercado e por hábitos ainda irremovíveis. Basta anotar que o cliente dominante e que justifica o número absurdo de jornais e semanários, revistas e almanaques, na capital é o setor público, apesar da insurgência da crise atual e do tempo de vacas magras que vai dessa época do ano até março de 2001. - Bate-boca entre Lerner e o empresário londrinense, anteontem em Cascavel, foi ouvido por algumas rádios que captaram a cena e até por uma TV a cabo. Hoje a Gazeta do Paraná apresenta, em sua edição, a degravação do papo que provocou a fuga dos diletos assessores de Lerner do local das manobras. - Mais tarde nova tensão, agora com pequeno grupo de professores, contidos pela Polícia. O fim deste governo vai ser melancólico. - Fissuras não reparadas continuam dividindo a Polícia Militar. Na hierarquia há ainda remanescente do período de gestão do coronel Lara. - Incrível é o poder que se concede ao pessoal da reserva ainda numa instituição hierarquizada como a PM. Do tripé, um dos mais fortes ainda é o chefe da Casa Militar, coronel Vieira.
FOLCLORE Falta condições para a Operação Praias por falta de recursos, lá em Guaratuba policiais (conforme denúncia do jornalista Cândido Gomes Chagas) obtêm comida em restaurantes; no interior, postos de combustíveis se recusam a abastecer viaturas policiais enquanto as faturas antigas não forem pagas, inventa-se algo impensável no Paraná com as férias coletivas de barnabés. Dá para fazer um concurso: quem será o Judas mais malhado na Semana Santa?
AFORÍSTICO O governo lembra a lesma submetida ao sal.





