Luiz Geraldo Mazza
Nada mais parecido com um aquário do que o cenário palaciano. A realidade que conta é a de dentro para fora. Adversidades do mundo, turbulências ali não chegam como se todos estivessem numa fortificação de monges tibetanos. Diante das notícias divulgadas anteontem, quando circularam apenas jornais do Rio e São Paulo e por isso mesmo venderam mais, e que mostraram no ranking do Datafolha a posição humilhante, em sétimo posto, do nosso governador, houve uma ordem palaciana: o assunto não existe porque era feriado e não o lemos.
Na sequência, um silogismo bem ao estilo da casa: se não tomamos conhecimento, o fato não existe. Foi assim também no andamento do corsarismo no Banestado. Tanto que o governador, com a maior tranquilidade, promoveu o presidente da Leasing para secretário de Estado.
Mas, apesar disso tudo, da espantosa queda de credibilidade do governador em níveis nunca registrados, já que acumula 31% de ruim/péssimo, apenas superado pelos 39% de Joaquim Roriz do governo distrital de Brasília, a ordem é ficar na moita e manter silêncio sobre isso e sustentar a chama da candidatura à Presidência ou à vice-Presidência da República.
O governo não sabe como fechar o pagamento de dezembro do funcionalismo, não tem recursos para sustentar a Operação Praias, não sabe como pagar os postos de combustíveis que se negam a abastecer as viaturas policiais, imagina férias coletivas, as saídas mais atípicas e insólitas, para sugerir que está em movimento.
Revogando a realidade, pela alegação de desconhecimento, percebe-se que há muito o governo perdeu a bússola.
BIZARRICE
Com esse calor, o Bobo do Rei mostra suas habilidades artesanais espatifando sorvetes na testa. Não significa que tenha a cuca fresca
AXIOMA O governador dá férias coletivas para metade dos servidores como forma de driblar o sufoco financeiro e acertar o pagamento da folha de dezembro. Se o funcionalismo tivesse tantas férias quanto as dele em viagens ao exterior, talvez até fosse uma saída.
GLOSA Se ficar assentada a jurisprudência que obriga a haver via alternativa nas estradas pedagiadas, o Anel de Integração acaba. Os recursos da Viapar e do governo estadual não foram acatados e o Tribunal de Porto Alegre encaminhou o assunto para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Vai-se o anel e fica mais de um dedo acusador: o da sociedade e o do Ministério Público. E tudo com efeito eleitoral permanente porque as obras prometidas jamais satisfarão o usuário.
EPIGRAMA Sempre os governantes do Paraná apareceram em primeiro ou segundo lugares no ranking das pesquisas. Rara era a ocasião em que aparecia como o terceiro. Há muito tempo, entre dez governadores, Lerner é o sétimo. Conseguiu inverter, de forma absoluta, a pirâmide. E sentar nela, que seria figurar em primeiro lugar, constituir-se-ia num feito glorioso. Antes isso do que ficar esmagado pela base.
SPRAY Dividida a empresa em cinco como preparo ao processo de privatização, evita-se no caso da maior estatal paranaense, a Copel, um tipo de orientação como a havida no leilão da Vale do Rio Doce. Aliás a maior autoridade no assunto, Eliezer Batista, seu genuíno consolidador, era pela fragmentação como no formato ora adotado no Paraná. - Ainda há tempo para que a sociedade reaja à compulsão leiloeira do governo que quebrou o Estado: o senador Alvaro Dias, credenciado pelas lutas que moveu contra a cartelização de Segredo e agora com a batalha em defesa da Petrobras (agora PetroBrax), pode perfeitamente agir no plano legislativo ao menos para impor um plebiscito como condição prévia. - A Copel saiu da área de energia para penetrar em campos de participação acionária, de informática, de telecomunicações (caso do Sercomtel é paradigmático), geração e distribuição. - A Associação Comercial do Paraná decidiu acompanhar de perto, em marcação cerrada, para evitar que se repita algo como o caso do Banestado em que ações caucionadas ficaram nas mãos do comprador. - A entidade tem um histórico de luta nesse campo quando, no governo Lupion, seu associado e consultor, o advogado Rubens Requião, na condição de sócio minoritário, protestou contra o fato de as linhas de transmissão passarem pela propriedade de José Lupion, irmão do governador Moisés Lupion, e então presidente da Copel. Isso foi o suficiente para que Moisés afastasse José. - O Paraná está perdendo, graças à prodigalidade do governo que desmontou um modelo financeiro, seus principais ativos. Depois da Copel, que terá a sua privatização decidida em 2002, será a vez da Sanepar, na qual os franceses já botaram os pés. - Um plebiscito, claro que não desejado pelo governo e o sistema (inclua-se aí o FMI ao lado do governo federal), teria uma importância fundamental ainda que de natureza política, acuando os vendilhões e leiloeiros e abrindo caminho para identificar qual de todos os governos é o que mais responde pelos danos atuais. - Vários motivos o justificam, dentre eles a sorrateira manobra para usar o nome e o prestígio de Ney Braga como presidente do Conselho, jogada que o estadista repudiou e recusou com apoio de toda a família, para convalidar a jogada sinistra em andamento. - Não apenas o Nelson Justus é empreiteiro (embora voltado para a construção civil). Há outro, que o antecedeu no posto, e que tinha a empresa, de médio porte, Danwig.
FOLCLORE De onde surgiu a expressão arrombassi que foi grafada nas camisas que glorificaram o feito de Gustavo Kuerten como tenista número um do mundo? Até o presidente FHC vestiu a celebrada camisa que dizia Arrombassi, Guga. Pois bem a história, bem à catarina, é a seguinte: uma figura popularíssima de Floripa, Dona Laíla, foi num restaurante da praça principal, a da figueira, e comeu pantagruelicamente. O garçom, impressionado, na hora de fechar a conta, disse arrombassi, Laíla!. E assim foi dito e assim ficou. O arrombasti de Floripa acabou se metamorfoseando em arrombassi.
CROMO Búzios, conchas, hipocampos, o navegador das águas vivas, musgo e aquela misteriosa fosforescência na areia da praia, o exo-esqueleto do siri, coronhas, caramujos. Nada disso é tão presente quanto o plástico.
AFORÍSTICO Por falar em praia, mais um vexame deste governo irrecuperável: não há dinheiro para sustentar a Operação Praias, tradição paranaense. Antes as instituições vinculadas se valiam de antecipação de receitas e hoje a lei, clara e expressamente, o proíbe.





