Luiz Geraldo Mazza
Quem não teve o tipo de infância que tivemos terá certamente dificuldades para saber o que vem a ser recolutação. Isso ocorria nos anos 40 num dos folguedos clássicos da época o jogo de bolinha de gude em qualquer das suas modalidades como o búrico, o triângulo, o turco e a cobrinha.
Dizem os estudiosos dessa linguística dos piás que recolutar era uma forma defectiva do verbo recrutar, usado especialmente na Guerra do Paraguai e assim dito para os que eram chamados ao voluntariado da Pátria. Não poucas vezes conjuguei o verbo recolutar nas pendências amorosas como quem busca recrutar os olhos da namorada, ainda que por alguns instantes, como se eles fossem também uma daquelas bolinhas de gude, das jogadeiras especiais, que amávamos como um talismã.
No meio desta semana, em função do que esta Folha tem publicado sobre os episódios tenebrosos de Maringá e que envolvem figuras carimbadas, alguns desses prestimosos auxiliares saíram por aí, em Curitiba, a catar os jornais diretamente das bancas. Recolutavam, enfim, como os mais velhos e ousados faziam com os mais tímidos nas bolinhas de gude: sequestravam-nas, tal qual os aspones partidários agiram nas bancas da Boca Maldita.
Dessa façanha de catar jornais para que o povo não os leia acompanhei um episódio lapidar nos tempos da sucursal da Última Hora: uma série de textos contava do envolvimento de altas figuras de Curitiba um prefeito, um gerente de banco, deputado federal, a burguesia luminosa das colunas sociais eram apontados como participantes de um escândalo de corrupção (sexual e até de lenocínio) de menores. Havia muito exagero em tudo o que se dizia, tanto que os advogados iam permitindo e em alguns casos estimulando que testemunhas citassem nomes de bacanas do empresariado, do mundanismo e do jornalismo com o claro objetivo de emperrar os procedimentos. Tocava o inquérito o Almir Chagas Vilela, hoje ouvidor da Segurança.
O tom escandaloso, populista, de UH, provocava recordes de vendas. Citado nominalmente, talvez até por sua fama de jovem sedutor, o estudante Alcidino Pereira não queria constranger o seu pai, o advogado e ex-deputado Alcides Pereira, e saiu com uma Kombi atrás do carro de entrega do jornal desde a chegada no aeroporto. Fez uma combinação com a diretoria regional de que compraria toda a tiragem (a do jornal, claro) acompanhando a circulação, banca a banca. Só que entrou numa fria: o jornalista Ducastel Nicz, que estava no comando provisório, pediu mais uma remessa com o objetivo de mostrar serviço até porque era cotado, com méritos de sobra, para dirigir a sucursal.
Alcidino encheu o apartamento de um amigo com os jornais e só percebeu que o haviam enganado, horas depois de sua paciente recolutação.
O DEBOCHE Nos depoimentos dessa estória, típica da sociedade vitoriana e hipócrita, havia referências sacaníssimas a figurões da alta roda e com detalhes picarescos de situações inusitadas. Um deles ficou com o apelido de Linguinha de ouro, como seria chamado pelas meninas aliciadas. Houve um montão de atritos familiares, desquites, o escambau.
Esses fatos se deram num momento de mudança comportamental aguda já com a disseminação do uso de drogas alucinógenas, estupefacientes, maconha, cocaína, coisas que os pais, ontem como hoje, se autobloqueiam fingindo ignorar. Era o divisor de águas da província que descobria que as mocinhas da pequena burguesia davam, o que soava como um espanto, o que é próprio do farisaísmo social.
O PONTO Na reinauguração da Usina de Segredo (se há alguém que mereceria estar presente nesse ato seriam os ex-governadores José Richa e Alvaro Dias que tocaram a obra e este numa guerra sem quartel contra Cecílio Almeida) o secretário de Comunicação Social, Rafael Greca de Macedo, parecia ser uma espécie de ponto de teatro interrompendo o governador e complementando informações. Num momento, Lerner não suportou e deu um corte ao vivo no seu agitado e talentoso auxiliar, lembrando-o que não precisava ser pautado com tanta obstinação. Rafael tentou minimizar a ocorrência, sugerindo que se tratava de um tipo de convívio entre amigos de personalidades diferentes.
PRESEPADA Além daquela de tentar envolver o ex-governador Ney Braga como um dos comandantes da privatização da estatal e a outra de pagar os R$ 90 milhões em composição com a CR Almeida a pretexto de evitar prejuízo maior, Ingo Hubert, presidente da Copel e hoje acumulando o posto fazendário, lançou um resto de goma de mascar, que já o aborrecia, porque dificultava o ato de apertar as mãos dos presentes, num presépio das proximidades no ato de reinauguração em Segredo.
O Menino Jesus que recebia, como um pequeno faraó, na manjedoura humilde, ouro, incenso e mirra dos três reis magos acabou ganhando um regalo do mundo moderno, o chiclete, aquele que transforma as pessoas em ruminantes, como lembrou Aldous Huxley, ao sugerir que os mascantes parecem rezar.
Detalhe: chiclete deve ser mascado, de forma parcelada, como pretendiam fazer com o salário de dezembro do funcionalismo e Lerner não concordou.
AGITAÇÃO Nos anos 50, eram comuns as manifestações de massa, ainda mais depois da tragédia do suicídio de Getúlio Vargas, agosto de 54. Aqui não houve a intensidade das manifestações de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo. Ficou, porém, como um divisor de águas, acentuado pela Guerra Fria. A cada aumento do preço da carne, na entressafra, mecanismo normal do mercado com a queda da produção, havia baderna: o povo invadia os açougues, roubava a carne e não levava para casa, mas a queimava na rua.
Como hoje vivemos, na globalização, com a deificação do mercado, dá para lembrar que nem sempre essa ideologia levou o povo ao conformismo, pelo menos na forma como se dá agora. Os ajuizados dirão que isso não resolve. Mas é assim que o pessoal generoso, que se opõe ao pacto das grandes potências sobre o comércio, age ao promover saudáveis barricadas para botar todo esse arsenal pelo menos em discussão, checar essa ordem de valores, materialista e, sobretudo, hedonista.
O mercado hoje é a abstração do Bezerro de Ouro de ontem.





