Luiz Geraldo Mazza
Se for possível unir todas as pedras do mosaico paranaense de corrupção, daquele que se instalou no Banestado e com ramificações em vários campos mais os casos tópicos, também enraizados, em Londrina e Maringá teremos a nítida impressão de que o corpo de nossa terra, minado por tumefações, se torna cada vez mais dolorido e latejante, a infecção a tudo invadindo, exigindo o mais breve possível a intervenção do bisturi para liberar e drenar esse furúnculo.
Normalmente a medicina caseira oferece a terapia da aplicação da folha-gorda ou pomada de basilicão para forçar a eclosão da purulência, descongestionar e livrar o corpo da dor. O tipo de infecção que alcança o organismo paranaense não recua com paliativos domésticos e exige, pelo contrário, ação cirúrgica e dosagens heróicas de drogas pesadas.
Identificado o campo infeccionado e dolorido percebe-se que no caso específico do Banestado pretendia-se com o andamento do leilão que se fizesse uma anistia geral, que se as lançasse para baixo do tapete, todas as operações sob a alegação discutível de que abrangiam um itinerário na história do banco que viria desde o primeiro governo Lupion. Nada como uma generalização desse tipo com a pulverização das responsabilidades para tentar, como naquela regra clássica da anistia, o esquecimento de tudo e de todos, o silêncio tumular, enquanto os beneficiários continuariam na de sempre com aquele ar de sérios e adversários radicais de qualquer forma de corrupção.
O Ministério Público, tanto o estadual quanto o federal, está sobrecarregado com denúncias e procedimentos relativos à terrível síndrome que nos atinge: para se ter uma idéia de quanto tempo esses rituais absorvem basta lembrar que uma denúncia, ainda do governo Alvaro Dias, sobre um desconto (alega-se que é comum em práticas bancárias e isso aconteceu de forma ampla e irrestrita na gestão Lerner) a empreiteiros só neste ano foi levado à Justiça Federal com enquadramento no crime do colarinho branco de ex-diretores do Banestado. Ora só no momento de agonia do Banestado nas mãos do governo auditores e advogados da organização levaram ao Ministério Público dezenas de escabrosas notícias. Até hoje apenas três das relativas à Leasing foram ajuizadas, quando há um total de 25 notícias-crime. Da Corretora, que deixou o monumental mico das ações caucionadas da Copel por causa daquele escândalo dos precatórios, mal se começou a apreciar. E do setor de Câmbio nem se fala.
Lateja o furúnculo, até aqui um vulcão extinto, no aguardo da erupção.
BIZARRICE
Nem todo Bobo do Rei tem a dignidade do palhaço. Eles têm pouco em comum: o clown socializa o riso com a platéia, o outro capitaliza tudo em direção ao monarca que, com o tempo, mais se parece com quem tanto o diverte
AXIOMA O governador, à falta do que inaugurar, de obras enfim, reinaugura as dos seus antecessores, dando-lhes nomenclatura nova; ontem a Usina de Segredo, pela qual nada fez, amanhã a de Capivari-Cachoeira. No terceiro milênio, ele vai reinaugurar a Fortaleza da Ilha do Mel. E, na sequência, alguns sambaquis de 5 mil anos passados: nas ostras do homem primitivo o sinal profético do ostracismo, que virá bem antes do tempo.
GLOSA O senador Alvaro Dias viajou no avião daquele doleiro e dele recebeu doações em campanha eleitoral. Lerner também viajou no avião e recebeu doações do Hissan Hussein, traficante e que está, como Youssef, preso. Eis aí uma parte obscura do chamado acordo branco. Alvaro alega que doações ou cessão e contrato de aviões são responsabilidade de coordenação da campanha eleitoral e Lerner, como sempre, nem se manifesta, como se estivesse acima de qualquer suspeita ou não desejasse, talvez, comprometer coordenadores de campanha. Doação de campanha eleitoral é que nem a de sangue na hora do desespero: não há tempo para saber quem é o doador e sim, apenas, o tipo sanguíneo para ver se cabe na transfusão.
EPIGRAMA Dá para imaginar, em Curitiba, uma ação como a que se desenrola em Londrina e Maringá. Só na imaginação porque qualquer tipo de investigação dessa ordem não prospera, tal a apatia reinante nas instituições e no povo. Não esquecer a liga entre polícia e crime organizado.
SPRAY Essa bobeira de dar nome de Ney Braga ao Palácio Iguaçu nem a família, que tem senso do ridículo, aceita. - A designação Iguaçu veio junto com a construção do Centro Cívico, como a sede de governo. O nome anterior do palácio era São Francisco. - Na papagaiada de Lerner-Taniguchi de botar cerca no Centro Cívico numa agressão à história já houve abuso e agora temos mais esse. Em que lugar ficou o tal respeito à história e ao patrimônio artístico? Lúcio Costa e Niemayer vieram depois do Centro Cívico e antes do império do kitsch em Curitiba. - Mais bronca a caminho: se a jurisprudência emplacar no sentido de que não se pode cobrar pedágio em lugar em que não haja estrada gratuita alternativa vai para o saco essa maxisafanagem que mais parece um édito dos reis de França antes da revolução das luzes. - Aliás, o nosso governante pode repetir Luis XIV e dizer convicto: Depois de mim, o dilúvio que já está aí. Só falta agora aparecer um empreiteiro se dizendo um êmulo de Noé para nos salvar em sua barcaça porque a imaginação deles é infinita: perdem na terra, acabam ganhando na água. - Vem aí uma ação popular de Roberto Rocha contra lombadas eletrônicas da Consilux em Curitiba. - Domingo, 18 horas, na TVA-TV Objetiva, Canal 75, a primeira audição de Jeito Nosso, programa cultural da terra com o comando do maestro Valtel Branco.
FOLCLORE Cláudio Humberto contou ontem a história da prisão de Caetano Veloso nos tempos de chumbo. Um coronel lhe perguntou se era veado e Cae respondeu que não, que era civil. Há milhares dessas passagens, umas reais, outras lenda pura. Dentre elas a da moça que, perguntada pelo delegado da DOPS, por que tinha idéias esquerdistas respondeu que seguia a ideologia da mãe.
- E se ela fosse puta?
- Aí eu seria da polícia política.
CROMO Se alguns dos nossos políticos, em criança, brincassem de passa-anel revelariam cedo a vocação para Ph.D. em fazer sumir jóias até em folguedos.
AFORÍSTICO Se agora está assim, imaginem como ficará o governo lá por 2002.





