Já estamos na entrada do 148º aniversário do Paraná como unidade política. É claro que ontem algumas instituições, agrupadas no Movimento Pró-Paraná, fizeram o ritual da renovação de compromissos com a herança recebida dos que nos libertaram da dependência política de São Paulo. Mas o futuro imediato não é bom, em termos prospectivos, como se apresentava na ocasião do Centenário em 1953 quando os discursos de Munhoz da Rocha (mais de três por dia na abertura ou encerramentos de centenas de congressos nacionais e regionais que aqui se realizaram) marcavam (mais do que esperança e fé) uma visão profunda do processo civilizatório que aqui se desencadeava.
Não dá para comparar o quadro de descalabro moral dos dias presentes com a perspectiva que se abria nos anos 50 com a retomada da presença do Paraná nos quadros ministeriais, a hegemonia da produção cafeeira e a superação do Porto de Paranaguá sobre o de Santos nessa especialidade, a paralisia havida no governo Lupion em cima de uma suspeita de que apoiara Adhemar de Barros em detrimento de Kubitschek, assim mesmo compensada com obras como a construção, em curto prazo, da BR 116 entre Curitiba e São Paulo.
O esgarçamento do tecido moral, apesar dos exageros ditos contra Lupion, jamais teve o deslanche dos nossos dias. Nunca se viu tamanha falta de zelo pelo patrimônio comum, afinal poupança de todo um povo, num espetáculo de compulsão canibalística que por sua voracidade derruba o ditado clássico de que se não acabássemos com a saúva ela acabaria com o Brasil.
Tentemos um cenário para 2003, do qual não estamos tão longe e que responderá aos estímulos e omissões do período atual. Pode ser, como dizem os engajados (isso é uma contradição em termos para instituição científica ou que tenha tal propósito) doutrinadores do Ipardes, que tenhamos passado, em renda interna, o Rio Grande do Sul. Cruzados, porém, os indicadores do PIB bruto ou per capita com os sociais continuaremos perdendo a melhor das batalhas, aí já com um corpo estatal enxuto e o predomínio do capitalismo até mesmo em ações básicas de saúde com o leilão da Sanepar.
No sesquicentenário do Paraná, ao governante eleito caberá gerir essa massa falida, apenas com a compensão da liberação gradativa do ICMS das montadoras e demais empresas que se beneficiaram dos subsídios de lei, o que também não é pouco, mas igualmente não suficiente, para alavancar uma economia que passa a fundar-se no grande capital, o que nunca foi sua característica (o ciclo do café se lastreou na pequena e média propriedades) e na atrofia da agricultura e mesmo da agroindústria, apesar do modelo cooperativista aqui erigido e que não contou com salvaguardas do governo para impedir a sua absorção pelas multinacionais.
No sesquicentenário não teremos mais a Copel para servir de lastro, de moeda para financiar a perplexidade e o aventureirismo do setor público como agora. O pior é que corremos o risco de contar com a mesma visão de gerenciamento ora condenada porque a oposição só grita, todavia não tem propostas.BIZARRICE
Há reinados em que a morte do Bobo do Rei é o fim do monarca: ele depende tanto da bajulação dos assessores como das facécias do saltimbanco
AXIOMA Lerner pode ter imaginado que ao descer no aeroporto anteontem haveria uma recepção do povo que nele votou duas vezes. Não havia nem dos favoráveis, nem da maioria que hoje nele não acredita.
GLOSA Há coisas que acontecem neste País que deixam os criadores do realismo fantástico (Jorge Miguel Borges, Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Icaza, Cortázar) com sentimento de inferioridade por incapacidade de imaginação. Consta que hospitais doados pelo governo e instituições ianques acabaram vendidos. Imaginação voltada para Pasárgada ou Maracangalha, o dado poético, é menos espantosa que as ocorridas em áreas de trambique.
EPIGRAMA E o caso do Fórum, que como forma já é um absurdo ante a arquitetura leve do Centro Cívico, bem à frente do Tribunal de Justiça, vai ficar assim sem julgamento claro e punição eventual de responsáveis?
A propósito, o último número (11) da revista CREA-PR traz o tema na capa e em mais três páginas. Título: ‘‘Fissuras no concreto’’. Só no concreto ou ainda no controle dos desperdícios públicos?
SPRAY Sempre foram comuns os confrontos entre a Copel e a administração direta e isso se repetiu no governo Lerner em trombadas entre Ingo Hubert e o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis. - A alegada dívida, contraída ao tempo de Requião com a estatal, vinha sendo paga em duodécimos, isso é ao mês, na ordem R$ 3,2 milhões, o que no exercício anual totalizava R$ 38,4 milhões. - Sempre o presidente da Copel tentou, é claro, liquidar essa pendência no interesse do estamento, sob a alegação, fundada, de que o governo estava acumulando demais seus débitos e que isso não era bom num momento em que se preparava a empresa para a privatização. - Alongou-se o perfil dessa dívida pelos três anos em que Gionédis permaneceu na Fazenda. Agora, na hora do aperto de fim de ano, o homem da Copel não tem contraste no governo e tentou, de todas as formas, o parcelamento do mês do dezembro, desconsiderando efeitos perversos sobre o orçamento dos funcionários que não seriam menores do que os dos trabalhadores das empreiteiras e prestadoras de serviço que têm grana a receber da estatal. - O governo é curioso: endureceu com a Copel, mas não discutiu na hora em que a empresa resolveu pagar R$ 90 milhões à CR Almeida como acordo judicial de uma pendência que poderia ir às calendas. - Vejamos a ecologia deste governo: em Doutor Ulysses, antiga Vila Branca, uma serraria, no centro da cidade, trata madeira com fungicida de alto poder de toxicidade, o que contamina as 22 fontes de águas mineiras que servem de cartão-postal da região. Ecologia por aqui é pura escatologia.
FOLCLORE O concurso de arremesso de coco em Guaratuba, bolado pelo Rubinho Ferreira, foi um sucesso e já tentaram fazer um outro de melancia. Ora essa é matéria de ornamento de políticos que querem aparecer. Para ficar no estilo desse governo o ideal seria lançamento de ‘‘laranjas’’, pois jamais vimos por aqui tanta laranjice.
CROMO No ovo a inocência e a fragilidade da tarântula.
AFORÍSTICO Na ousadia do governo, a anemia consciente da oposição.

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