Nunca esta unidade federativa passou pela crise moral que hoje enfrenta. Quem sacou, admiravelmente, essa realidade foi o ex-governador Jaime Canet Júnior. Fugindo à discrição, apropriada ao seu estilo, tanto que desde 1981, quando apoiou José Richa com o grupo do PP que se acoplara ao PMDB, não mais fazia declarações políticas, colocou aquilo que lhe parece, e com sobras de razão, o maior de todos os nossos problemas.
Embora sem o assento intelectual, que marcava o modo de ser do nosso mais brilhante estadista, Bento Munhoz da Rocha Neto, Canet Júnior levantou algo apropriado ao mundo dos filósofos e epistemologistas recolocando, numa época de hedonismo, o culto do prazer e do consumo, o primado da moral. Jeremy Benthan, cientista político, que desenvolveu uma doutrina do balanço entre os prazeres e as dores, também cuidou de definir os limites do Direito e da Moral. São círculos concêntricos, o mais abrangente, o da Moral, o de menor raio, o do Direito. Daí o conceito de que o ‘‘Direito é o mínimo ético’’.
PARALELO O que já ocorreu nesses seis anos de gestão lerneriana não tem paralelo em nossa história como os episódios havidos no Banestado e que precederam a sua passagem ao controle do Itaú. Todos sabem que milhões de reais foram drenados na Leasing e na Corretora para algum ralo. O Ministério Público, com poucos agentes para atender uma demanda gigantesca de fraude e corrupção, terá, tanto na esfera federal quanto na estadual, imensas dificuldades para a apuração e o processamento exemplar dos responsáveis. No caso dos precatórios ninguém se convence que os fatos ali se deram por imprevidência e incompetência. Há método demais na loucura, como dizia o atormentado Hamlet, ironizando seus próprios conflitos, na tragédia de Shakespeare.
É apropriado, no dia em que o Paraná completa 147 anos de autonomia, fazer com o maior cuidado essa reflexão: mergulhamos num mar de corrupção ou não estaríamos ajustando desvios de conduta e uma relativa dose de ‘‘acertos’’ à escala dos dias que correm? Não teríamos, normalmente, uma cota de anomalia não pressentida por omissão dos meios de comunicação, ausência de denunciantes honestos e veementes, administração maliciosa dos conflitos?
CRIATIVIDADE Se esse lado negro não existisse, como fator dominante, poderíamos examinar o aspecto positivo da busca do novo perfil da economia paranaense, imposto pelo tropel globalizante e que encontrou em Lerner o seu tradutor com a atração das montadoras e do adensamento do parque industrial. Sabe-se até que em 2001 teremos as liberações do ICMS represado e que terão forte significação na melhora do quadro financeiro. Todavia é justamente o fato de estarmos numa quadra de dificuldades e de insolvência estatal que surpreende o fato de estar ocorrendo justamente agora essa taxa de corrupção, visível não apenas nos fatos aludidos, mas também nos episódios de Londrina e Maringá, nos quais até ficou visível que a malha de promiscuidade atinge o centro de poder, sem falar que há presunção de que alcance, por vasos comunicantes, parte da oposição.
O fato, portanto, de num tempo de escassez extrema, acentuada pela moeda estável, ser marcado por tanta corrupção, não deixa de constituir-se num feito da criatividade. É verdade que o nível de participação das pessoas cresceu, que a atuação do Ministério Público estimulou a cidadania numa sinergia que a todos beneficiará. No plano institucional há mais bloqueios do que empenho em clarear as coisas. Haja vista para o papel cúmplice do Legislativo que chegou ao cúmulo de remover uma CPI (a da venda de ações do Sercomtel para a Copel), já instalada e que, por duas vezes, impediu que instituições de inquérito pedidas pela oposição funcionassem, colocando em seu lugar organismos que se pode chamar de ‘‘laranjas’’ pelo açodamento com que foram constituídos em comum acordo com o Palácio Iguaçu. Este não deseja o menor clareamento para coisas desconfortáveis como apreciar o pedágio ou os Jogos da Natureza como precisou ser alertado por uma CPI do Congresso Nacional para a existência de um vínculo estreito entre autoridades policiais e o crime ao ponto de o nosso aparecer naquele relatório como o detentor do ‘‘‘ranking’’ no número de indiciados.
O PRIMADO A intervenção de Canet Júnior na Associação Comercial do Paraná, pelo peso e seriedade do depoente, ao lamentar a crise moral que atinge pessoas e instituições, expressa um sentimento generalizado não apenas do nosso empresariado, mas de toda a população. Não é possível que numa ordem, tida como democrática, não haja meios de manter o governo sob controle. A alegação de que na perspectiva representativa, isso é parlamentar, os atos se legitimam (mesmo quando abertamente contra a lei e a moral como na questão específica da reversão da CPI da Sercomtel-Copel) é formalista, pois a sociedade organizada, como agiu em Londrina, pode manter todo o sistema de poder sob pressão.
O lamentável é que no momento em que sob o ponto de vista da economia o Paraná conquista maior raio de autonomia e vai deixando de ser um expressão de complementaridade do contexto paulista tenhamos chegado a esse fundo de poço em matéria moral. Se em 19 de dezembro de 1853 conseguimos a emancipação política os homens do poder de hoje estariam em condições de proclamar agora que caminhamos para a emancipação mais forte, a da economia. Isso até poderia ocorrer, a médio prazo, já que a situação atual, quanto ao quadro financeiro, é caótica e não aconselha qualquer euforia. Ao contrário a impressão hoje dominante é que o Estado ‘‘quebrou’’ e num campo em que, ao menos no tempo da inflação, havia criado um modelo de gestão financeira.
É irônico lembrar que por muito tempo no fascínio magnético das estatísticas e dos números ficamos a imaginar em que horizonte se daria o nosso deslanche, em que diminuiríamos a nossa dependência de São Paulo, em que melhoraríamos de posição nos indicadores econômicos e sociais (aí sempre superados por Santa Catarina e o Rio Grande do Sul) e em que figuraríamos numa posição melhor no ‘‘ranking’’ da renda interna. Sempre houve essa disposição e até o incentivo como quando Paulo Pimentel sugeriu que poderíamos ser o segundo do Brasil, atrás apenas dos paulistas. Melhoramos, emparelhamos com os gaúchos, mas com uma baixa num campo humilhante, e destacado por Jaime Canet Júnior, o da moral.

mockup