No governo Lupion, o segundo, havia o predomínio da guia rosa que era um título de crédito, negociado a três por dois, já que a inadimplência estatal era manifesta. Mediadores operavam com esse papel que era uma espécie de moeda alternativa.
Nas aulas de Economia Política, o professor Raul Gomes vivia falando na chamada Lei de Grescham, segundo a qual ‘‘a moeda má expulsa a moeda boa’’. O fato é que a ordem estava mais para isso: a guia rosa, alvo de farta especulação com deságios, predominava e expulsava o cruzeiro. Seu prestígio era tão forte que a Boate La Vie em Rose era comparada à guia rosa da Secretaria da Fazenda. Hoje está ‘‘pintando’’ um quadro parecido com faturas negociadas, com descontos, em bancos.
BASQUETE Em janeiro, na praia de Matinhos, vai ser realizado (nos dias 26, 27 e 28) o Torneio de Basquete Master Freitas Neto, em sua 11ª edição. É uma homenagem permanente ao jornalista João de Deus Freitas Neto. No ano passado, havia 17 equipes participando (Volta Redonda, Niterói, Rio, São Paulo dentre elas) e houve necessidade de jogos pela madrugada. Desta feita, com dois espaços (um ginásio de esportes do Senac, outro do município) pretende-se resolver bem a trama.
Freitas Neto me contava que há pessoas ligadíssimas nas peladas de basquete e a tal ponto que alguns, como um oficial da reserva da Aeronáutica e que era um praticante itinerante: viajava pelo Brasil todo e sabia onde bater a bola. Um dia fez a confissão para o Freitinhas: ‘‘Basquete é melhor do que mulher porque dá pra jogar todo dia, toda hora.’’ Basquete não se discute, cada um sabe o melhor ponto de arremessar, às vezes da zona morta, às vezes de outra zona bem mais mortal.
GREVE Bancários estão em greve, outra vez, no Banestado. O sindicato tem que ser a vanguarda, ainda mais no Brasil e numa quadra em que há o pânico das demissões. A direção tem que ousar mais do que a base, às vezes até blefar para sugerir uma força de que não dispõe e com isso tentar, da melhor maneira possível, manter o patronato sob pressão. Na greve, como na guerra, não se deve dar a idéia de ‘‘baixas’’, isso da morte nessa e da demissão naquela: você aceita que o seu companheiro de trincheira ‘‘caiu’’, todavia aposta, com toda a certeza, na própria imortalidade.
É impossível num país reacionário como o Brasil, com seu capitalismo tardio e selvagem, esperar magnanimidade dos que empregam. Eles estão numa guerra por baixa de custos e sacrificar gente, nessa perspectiva, é um mal menor do que fazer outros cortes em estoques, matéria-prima, tecnologia.
Nos anos 60, fazíamos greves jornalísticas a três por dois: demoravam uma hora, duas horas, meio dia, nunca mais do que isso. Até que em 1963 estouramos a boca do balão, deixando Curitiba três dias sem jornais. O único que saía era o ‘‘Jornal da Greve’’ feito nas oficinas do ‘‘Diário Popular’’ do hoje presidente permanente do sindicato patronal, Abdo Aref Kudri. Por causa disso e da bronca do diretor do ‘‘Diário do Paranᒒ, Adherbal Stresser, Abdo apareceu na Justiça Militar como comunista e eu, que me achava do primeiro time de agitadores, como mero integrante da ‘‘linha auxiliar’’, quase um gandula da subversão.
SOJA Ano que vem faço 70 anos, neste marquei 50 de jornalismo. Conheci a soja antes que a maioria dos paranaenses, pois meu pai, Arnaldo, era pracista e lidava com granéis, embora sua especialidade maior fosse a de intermediário de abastecimento de polvilho, buscado na Lapa e Tibagi, terra do ex-secretário de Comunicação Social David Campos.
Em 1961, governo Ney Braga, fui a um debate no Canal 12 sobre os primeiros meses do governo, o Rafael Iatauro era o âncora. Conversa vai, conversa vem, parti para aquilo que meus críticos chamam de comentários destemperados: achei que faltava uma utopia mais distante ao governo, pois sonhar com a Usina do Capivari-Cachoeira era pouco, urgia tocar algo grandioso como a exploração das Sete Quedas, Projeto Marcondes Ferraz, sem sacrifício daqueles ornamentos que Itaipu fez varrer do mapa. Terminado o debate, a UDN em peso foi cobrar as posições que assumi, lembrando que eu tinha cargo de confiança (diretor da área de Turismo). Estavam me esperando na galeria Tijucas para a cobrança.
Na continuidade, vejam só, a Federação das Indústrias pegou a briga e sabem quem se ofereceu para fazer o projeto? Um grupo japonês, e em troca de algo que só teríamos, em escala, uma década depois: soja e em espécie. Olho amendoado não impede enxergar longe.
MEMÓRIA Dentre os sonhos dos anos 60 houve um tocado pelo gênio Parigot de Souza, ao lado do Capivari-Cachoeira, que era o da reversão do Rio Negro. O jornalista Assis Chateaubriand, numa tenda de oxigênio, convalescia lá nos Esteites de um fulminante derrame cerebral que havia deixado sequelas e ao ser visitado por amigos do Grupo Oscar Martinez, entre eles o advogado Rudy Alvarez, que foi prefeito de Assis Chateaubriand como executivo da colonizadora, viu no jornal paranaense a notícia do projeto. Com dificuldade para falar, Chatô explicou que era inviável e enumerou razões, incluindo a dos seus efeitos em bacia hidrográfica internacional. E pediu que os presentes buscassem no ‘‘Diário de São Paulo’’, dia tal e de tal ano, que encontrariam a sua argumentação. A precisão de datas espantou o pessoal, alguns já achavam que o Velho Capitão tinha ‘‘pirado’’, viajava na maionese. No retorno, em São Paulo, foram no arquivo do jornal e acharam o artigo citado.
QUEM FOI? O projeto fantasma, que cria a pensão para vereadores, não tem autoria precisa e determinada. Todos fogem da responsabilidade, embora pareça claro que a preocupação é atender o vereador José Gorski que depois de seis mandatos acabou não reeleito, em função das máquinas e do trem pagador dos que estão dentro e dos que precisavam entrar. Há nove assinaturas e nenhum autor, algo bem no estilo pirandelliano: nove personagens em busca de um autor.
INVEJA Cassio Taniguchi ganhou um prêmio internacional por causa do uso da soja (Nutrisoja) como alimento. Deve tomar cuidado porque a inveja campeia por aí e Lerner só as recebe por força do que fez, anos passados, em Curitiba. É visível que para qualquer pessoa isenta, que não se ligue afetivamente aos enlaces do aulicismo, o prefeito de Curitiba é a reserva disponível, a mais articulada e adequada, do desgastado PFL tupiniquim.

mockup