De tudo que houve no governo Lerner, nesses seis anos, a mais forte credencial foi, sem dúvida, a de, pelo menos, manter o pagamento dos barnabés em dia, incluindo aí o 13º. É verdade que ele mantém a categoria sob arrocho de cinco anos (o que já deu margem a alguns ensaios de protestos), que parcelou o pagamento do terço das férias. E também não demitiu, evitou esse tipo de desgaste com a maior obstinação, apesar de colegas seus, como o Mário Covas, em São Paulo, ter dispensado 130 mil funcionários, o que não o impediu de reeleger-se, ainda que atrasando e parcelando o 13º.
A estrutura do governo paranaense é a de uma palafita, e um dos derradeiros fatores de manutenção de um mínimo de estabilidade é justamente essa questão do pagamento do funcionalismo, ora ameaçada por um plano tático do secretário da Fazenda, Ingo Hubert, que contemplaria o parcelamento de dezembro, que de tão pouco verossímel soa para os servidores, já desesperados, como algo ligado à contra-informação e ao terrorismo psicológico por parte de ‘‘viúvas’’ do ex-poderoso Giovani Gionédis. Do exterior, Lerner teria rejeitado a manobra sob o argumento de que nessa área ainda detém os créditos pelo fato de não ter atrasado pagamentos.
Para quem será necessariamente apontado como autor genuíno da quebra do Estado e de um desmanche desastroso como o do Banestado, um pantanal de fraude e corrupção, cuja extensão só com o tempo se esclarecerá, esse pequeno detalhe do parcelamento de folhas do funcionalismo seria a gota que transbordaria o cálice de amargura.
Ademais, essa contingência não favoreceria em nada a tal hipótese da candidatura à vice-Presidência, delírio que os áulicos estão cultuando com uma obstinação de estivador. Por sinal que a bateria de denúncias e hostilidade sairia precisamente do Paraná pelos fatos aqui ocorridos em sua desastrosa gestão, a não ser que se fechasse uma aliança que envolvesse os senadores irmãos Dias e até o senador Roberto Requião, o que não tem a menor viabilidade de acontecer.
O descanso de Lerner no giro europeu, com massagem no ego em prêmios, não servirá de pára-choque, de forma alguma, para o cenário contundente que irá encontrar aqui depois de amanhã, bem semelhante ao despertar de um sonâmbulo vagando à beira de um abismo ou se equilibrando em linhas de alta tensão, as mesmas que pode dar de presente ao Banco Itaú.
BIZARRICE
Pensando bem: o Bobo do Rei é que é bobo ou o bobo mesmo é o Rei?
AXIOMA Estou com Jaime e não abro. Vejam o que ele disse na Associação Comercial do Paraná: ‘‘O Paraná vive profunda crise moral. De tal grandeza que me entristeço ao pensar que meus filhos e netos podem estar condenados a um futuro sombrio quando mais valerá ser ladrão do que honesto.’’ Esse Jaime é outro, aquele que fez um grande governo, o Canet Júnior.
GLOSA Essa história das contas fantasmas do Banestado de Londrina é parecida com o projeto da aposentadoria de vereador em Curitiba: ninguém sabe quem é o autor da façanha. Vai ver é também um fantasma.
EPIGRAMA Com a sessão de ontem da Associação Comercial do Paraná, a entidade retoma sua raiz liberal: aberta ao debate e sem engajamento, como acontecia anteriormente e há muito tempo, no governo.
ESTILOS Dois estilos de intervenção ontem na Associação Comercial: o de Canet Júnior atribuindo tudo que acontece no Paraná à consequência de uma crise dominantemente moral, e o do senador Osmar Dias se dispondo a fazer o máximo para salvar a Copel da camisa-de-força em que Lerner a colocou com a série de desregramentos e incompetência do seu governo.
Apesar da maior objetividade da análise e sugestões do senador, o impacto maior (até por seu conteúdo filosófico, visão de valores acima dos da mera economia) foi produzido pela intervenção do ex-governador Canet Júnior. De fato a crise no Paraná é axiológica, de valores. Os agentes públicos, de um modo geral, perderam a perspectiva dessa escala, da noção do que se pode ou não se pode fazer. Outro que também defendeu a Copel foi Emílio Gomes.
Que saudade dos tempos de Canet Júnior (4 mil quilômetros de asfalto) e de Emílio Gomes que dava sequência natural aos feitos do neysmo: época de construção de usinas, escolas, da ferrovia Central do Paraná. Hoje escasseiam as obras e sobra irregularidade, corrupção, fraude.
SPRAY O anúncio da suspensão do lançamento da Operação Verão 2001 marcada para segunda-feira se deveu, segundo comunicado oficial, à contenção de despesas. - A cada momento o governo vai armando o quebra-cabeças para levar aos servidores a ‘‘boa nova’’ do parcelamento do salário de dezembro. - Como impera o regime da caixa-preta, a questão foi colocada sem maiores detalhes e com uma explicação adicional, a de que o governo, desde Requião, deve uma grana preta para a Copel e que Ingo Hubert, secretário da Fazenda e presidente da estatal, estaria disposto a receber (e também pagar, já que está em dupla função) pelo menos uma parte dos milhões debitados. - Esse corte nos recursos (mais as pressões de outros secretários que não suportam o cerco dos credores) impediria a complementação da folha do mês. Daí adviria a necessidade do parcelamento. O setor mais ligado ao governador, cada vez menor, estaria negando esses informes, alegando contactos com Lerner no exterior. - O juiz Ney José de Freitas, do Tribunal Regional do Trabalho, é o primeiro mestre em Direito da PUC Paraná. Obteve nota máxima com a tese ‘‘O Estado empregador e a rescisão do contrato de trabalho em face da motivação do ato administrativo.’’ - Por falar em rescisão, está havendo má informação nos casos de dispensa de servidores do Banestado. Um deles, com 22 anos de serviço, ainda escriturário, recusou-se a sair de uma função na Direção Geral para trabalhar em agência e por essa razão foi dispensado com o pagamento de todos os direitos. A postura de acomodação é normal num banco público, jamais num privado. A cultura vai ter que mudar. - Esse fato, mesmo que justificável, obriga o sindicato dos trabalhadores a redobrar a vigilância e as ações de protestos.
FOLCLORE Brizola, em São Borja, na volta do exílio: ‘‘Eles (os militares) nos cortaram a cabeça.’’ Um dos presentes repicou: ‘‘Pescoço não brota!’’
CROMO A lua refletida no Rio Piquiri se espedaça quando o pescador tira da água o peixe prateado: a convulsão de formas cria um mosaico nervoso.
AFORÍSTICO Nunca o Paraná esteve em tal crise moral. Canet tem razão.

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