Volta e meia a Câmara Municipal de Curitiba aparece com uma iniciativa que visa tirar a provisoriedade dos mandatos: ora é o decalque dos celebrados institutos de previdência parlamentar, ora a atribuição de direitos se são funcionários municipais ou ainda o estabelecimento de pensões como se pretende agora para aqueles que o povo derrotou nas urnas. Tadeu Veneri, o solitário brigador, o único que não aceita algumas das condicionantes institucionais como a da partilha de carros terceirizados, restabelece a linha original do PT dos tempos do Pedro Tonelli na Assembléia Legislativa e cujo rigor na denúncia superava a ação das bancadas atuais, mais chegadas em acomodações. E foi ele, uma vez mais, quem atacou a manobra, marcada pelo assistencialismo e razões piegas que se nutrem da visão paternalista da política.
O pior é que se trata, a rigor, de uma legislação, se é que se pode assim conceituá-la, já que é essencialmente antiética, em causa própria porque visa criar ‘‘direitos’’ na hipótese de uma condenação ao ostracismo, o que se deu com vários dos atuais vereadores. Enquanto uma saudável onda de renovação depurava câmaras municipais como a de São Paulo e a de Londrina, em Curitiba, justamente por força da instrumentação que favorece os detentores de mandatos, ela foi reduzida, o que mostra baixo nível de politização até pela polarização havida no pleito majoritário para a prefeitura.
Não espanta, pois, que se pretenda trocar a perda do mandato por uma sinecura de R$ 2 mil, quase a metade do que recebem os legisladores atuais, feito, é claro, o desconto das mordomias dos assessores e carros à disposição. Houve um tempo em que havia dois senhores – o cartel dos transportes e a prefeitura, já que nem sempre atuavam de forma sincronizada, uma delas visível na eleição de Iris Simões para a presidência e que derrotou os governos estadual e municipal de uma só pancada. Foi a última, mas aconteceu.
O vereador é o político teoricamente mais perto do povo e só a certeza do afrouxamento das regras morais ao lado da indiferença da maioria, no pior dos conformismos, podem levá-lo a absurdos como esse. Antes de melhorarmos a representação popular precisamos nos aperfeiçoar como cidadania. Essa seria a vacina suficiente para nos imunizar contra a demagogia e o assistencialismo.
Mesmo que a iniciativa vise beneficiar um vereador-símbolo da Casa, o velho Gorski, exemplo de correção e humildade, como se depreende, não é correta e nem se insere numa linha de modernidade. Questões como essa devem ser bem avaliadas, pesadas e discutidas.
BIZARRICE
O maior dos desesperos de um Bobo do Rei é quando ele descobre na equipe do soberano concorrentes tentando recriar o Chalaça do império. Gente engraçada demais para um só rei
AXIOMA Sílvio Santos, entendido como ninguém em premiações, ao saber do que houve com as ações da Copel em relação ao Itaú, está diposto a mudar o nome da sua promoção ‘‘Baú da Felicidade’’.
-Diga, Lombardi, dá para chegar num baú desses?
E junto a gargalhada característica, enquanto solta aviõezinhos de R$ 50 para o auditório às suas ‘‘companheiras de trabalho’’.
GLOSA Frase de um especialista em comunicação sobre a possibilidade de haver melhora na imagem do governo estadual: ‘‘É tão fácil como salvar uma empresa de navegação aérea com a queda de um avião por dia.’’
EPIGRAMA Conforme deputados da oposição, o governo teria ‘‘queimado’’ nada menos de R$ 130 milhões nos Jogos da Natureza (seriam da Safadeza, da Esperteza como se caricatura, já que impera a ‘‘caixa-preta’’): R$ 80 milhões em obras de engenharia (várias delas pagas sem conclusão como o Canal da Barragem e o Portal da Foz) e R$ 50 milhões em divulgação.
Como se observa, os feitos olímpicos nessa competição se dão justamente fora do ar, da água e do chão, já que se consumam na burocracia e na política.
SPRAY Há um clima de paranóia relativamente ao Banestado, todavia justificável: o Itaú afirma não existir o propósito de demissões em massa, mas se recusa obviamente a dar qualquer garantia de emprego. O temor da dispensa faz do sindicato um ator mais determinado até para marcar posição. - Dispensas havidas no início da semana foram apenas de estagiários, office-boys e os terceirizados, segundo a direção do Itaú. Como diz o adágio popular: o mingau se come pelas bordas. - Pelo jeito a operação feita ontem no fechamento da agência da Westphalen, pelo comando sindical, lembra, e muito, a tática das ‘‘grevilhas’’ de 1963-64 e eficazes, especialmente, na celebração de acordos coletivos e em dissídios. - O Itaú, que pretende manter a marca Banestado, vai ter problemas de imagem com as medidas de adequação e também com o caso das ações caucionadas da Copel. Tanto na questão do conflito com o sindicato como na do comprometimento da maioria das ações da estatal de energia vai ter que fazer um grande esforço no sentido de mostrar que veio ao Paraná para ajudá-lo a crescer e não a ter agravadas as suas questões econômicas e sociais. - Nos dois setores, estatais, há sempre uma incompatibilidade de noção de valores quanto à exposição ao risco, essencial ao capitalismo. - O advogado de Luis Antônio Paolicchi, secretário da Fazenda de Maringá, é o criminalista Wagner Pacheco, ex-chefe da Casa Civil de Alvaro Dias e que foi indiciado na fraude eleitoral ‘‘Ferreirinha’’ e absolvido por ausência de provas junto com outros componentes da equipe palaciana. - O rastilho de pólvora das apurações, tanto em Londrina como em Maringá, atinge gregos e troianos, normandos e saxões, guelfos e guibelinos da política paranaense. - Se ficar visível que as apropriações havidas nas duas cidades visavam caixa eleitoral vai dar mais enfarte do que até agora.
FOLCLORE Pelo jeito, neste século, Jaime Lerner vai ficar como um dos poucos governadores que atrasaram salário de servidores, quando havia tudo para que aparecesse como o mais cumpridor, até em relação ao 13º. Um setor do governo quer dar prioridade ao pagamento de contas. Alguns estão ansiosos de tal forma que carecem de babador.
CROMO Papai Noel do monturo: em lugar do trenó de renas a carroça que ele próprio puxa como catador de lixo. A árvore é a pirâmide de papelão, a luz a tira fosforescente que ajuda a localizar a carga no escuro.
AFORÍSTICO Quebra de sigilo alimenta o espetáculo, mas não evita que tenhamos, no andamento, mais de um ‘‘pizzaiolo’’.

mockup