O Paraná é modelo, pelo menos publicitariamente, para muitas coisas: ecologia, desenvolvimento urbano e, agora, e isso com todos os méritos, em padrão de privatização. E o Estado, não apenas aqui, mas em todo o Brasil, sempre foi privatizado: basta ver o quanto empresários, entre eles aqueles que mais fornecem recursos nas campanhas eleitorais, dependem do ato de gravitar em torno do poder. Uma vez o senador Roberto Freire, do PCB com filtro, tocou o dedo na ferida ao dizer que o Estado sempre foi privatizado e poderia alinhar aí até a Petrobras, ícone das estatais, como fonte de privilégios a fornecedores e prestadores de serviços.
Mas o Paraná bateu todos os recordes em matéria de modelo privatizante: mesmo sem ágio, aqui é possível uma ganhadora de leilão ser surpreendida com um brinde. Foi o que aconteceu com o Banestado, absorvido pelo Itaú e que pode levar de brinde a maioria acionária da melhor estatal de energia do País. Assim, pois, além de ‘‘filantropias’’, como as do pedágio, temos mais essa, que é realmente exemplar.
Deixando o gracejo de lado, já que em se tratando do governo paranaense é difícil separar o motejo do que é sério, vamos torcer sinceramente para que essa tragédia, debitada à compulsão da prodigalidade (lembram dos secretários paranaenses, chapéus na mão, mendigando dinheiro federal a qualquer custo para fechar o caixa, que mais pareciam a imagem dos cavaleiros do Apocalipse a vagar, os esqueletos a segurarem nas mãos o alfanje da peste e da fome?), não aconteça. E vamos confiar na disposição da Associação Comercial do Paraná, sempre cúmplice principalmente desse grupo no poder, de exigir o máximo de transparência no caso do leilão da Copel. Um dos sonhos da ACP, o da carteira de fomento com recursos do Fundo de Desenvolvimento Econômico, nasce falida com a massa de ‘‘monetizações’’ políticas transferidas do Banestado para o governo, créditos esses de difícil recuperação até porque foram acertados com essa finalidade absurda – a do prejuízo planejado.
BIZARRICE
A cada maldade, o Bobo do Rei ostenta um ar de quem acabou de fazer a primeira comunhão, um ato sacramental
AXIOMA No governo Ney Braga, o primeiro, apelidaram um dos seus auxiliares de segundo escalão, de tantas maldades que fazia e com tamanha dedicação, de ‘‘Escoteiro do Mal’’. Sempre alerta em favor de pelo menos uma ação maldosa por dia.
GLOSA Aí comunicaram ao governador que o Banco Central concedeu mais 18 meses para que fossem resgatadas as ações da Copel caucionadas no Banestado. Com aquela calma, que é apanágio dos gênios, Lerner lembrou: ‘‘Tem tempo para tudo, afinal esse compromisso é para o próximo século!’’ Vai ser recordista: quebrou o Estado num século e não o reabilitará no seguinte.
EPIGRAMA Precisamos voltar ao culto verdadeiro das palavras e das suas significações filológicas e semânticas. Nomeações para o Tribunal de Contas ditadas pelo cupinchismo não significam louvor à amizade e ao mérito.
SPRAY O triunfalismo é uma de nossas mais antigas deformações. Não é obra de Jaime Lerner, mas vem desde antes, dos tempos de Lupion do ‘‘Paraná Maior’’. - Ney Braga dele se valeu e ajudou a criar aquele clima de arranque no Paraná que se dava ironicamente no instante em que éramos obrigados a erradicar o café que nos projetara. Com um detalhe: o presidente do IBC, Leônidas Bório, era uma indicação da terra, e que comandou o fim do ciclo na indenização dos cafeeiros antieconômicos erradicados. - Tivemos poucos momentos de abertura para a crítica e nos apegamos na exploração dos indicadores que nos favoreciam e na ocultação dos que nos colocavam mal. E ontem vimos, outra vez, que no plano social andamos mal: no ranking da mortalidade infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aparecemos em nono lugar, o que prova o descompasso desse tipo de indicador com os de natureza econômica. - A derrota nos estados do Sul para Santa Catarina e Rio Grande é uma constante tanto nesse referencial como no de escolaridade e expectativa de vida. - Curiosamente, foi numa região deprimida e abalada pelos conflitos da terra, o Noroeste, em Nova Olímpia, que conseguimos o segundo melhor Índice de Desenvolvimento Infantil do País. - Outro dado da sinistrose: o Paraná é o quarto colocado em conflitos agrários no Brasil, segundo a Pastoral da Terra. E somos – isso para alguns é motivo de orgulho – a unidade federativa com maior número de indiciados na CPI do Narcotráfico. - Das 1.262.106 crianças de até 6 anos do Paraná, 46% possuem pais com escolaridade precária, menos de quatro anos de estudos. Essa é uma evidência do entorno familiar precário, prova de nossas deficiências sociais e, de certa forma, ausência do Estado. - Em primeiro Rio Grande do Sul; Santa Catarina em segundo. E ficamos atrás de Goiás, Espírito Santo e Mato Grosso. - O jornalista Sinval Stocchero, ás da fotografia, inaugura seu estúdio dia 22, às 20 horas, na Rua Rio Grande do Norte, 2.616, Vila Guaíra (esquina Rua Santa Catarina). Uma especialidade sua: a de unir grupos familiares, esportivos, formaturas numa só foto, sem perda de detalhes de identificação das pessoas. - O advogado João Roberto Santos Régnier lançou ontem na Biblioteca Pública o livro ‘‘Cidadania... Agravo e Desagravo’’, edição da Juruá e Secretaria de Cultura.
HERODES Pelo jeito haverá matança dos inocentes no Banestado: o Itaú não aceita as concessões pouco capitalistas e quer reduzir o salário médio de R$ 1.887 de beneficiários de horas extras para R$ 1.258. Há 7,5 mil funcionários, a média com idade de 39 anos e 13 de serviço. Cálculos prontos para demissões. Perto do Natal, Herodes saiu à cata dos inocentes. O capitalismo é algo que não se ajusta às formas patriarcais dos bancos públicos. O remédio é chiar, fazer greve, reagir, porque as demissões estão se dando desde anteontem.
FOLCLORE O governo quer moratória até dezembro de 2001 para resgatar as ações da Copel caucionadas para segurar o desmanche do Banestado. Se não tivesse gasto R$ 500 milhões em propaganda em quatro anos de governo não precisaria de todo o sacrifício, aqui usado em seu sentido original de ‘‘sagrado ofício’’. Sangrar o erário é agora sacral, além de sacal para o povo.
CROMO Sem sapatos, a criança pode colocar a sandália de dedo na janela?
AFORÍSTICO Nunca tivemos um governo com tanta crise. Para compensar jamais tivemos um governador tão homenageado. Vivemos um tempo esquizóide.

mockup