Essa veio da Praia de Guaratuba, relatada pelo jornalista Cândido Gomes Chagas, editor da revista ‘‘Paraná em Páginas’’: policiais militares sediados naquele balneário se vêem obrigados a pedir comida nos restaurantes. Além disso há um outro problema crucial que dá bem a medida da crise governamental: cada carro da Polícia está autorizado a gastar, no máximo, R$ 10 de combustível por dia. É o retrato-síntese de um quadro que se repete especialmente no interior: postos de gasolina, como a TV Globo mostrou, não estão mais em condições de dar crédito ao governo.
Incrível é que com tanta crise haja espaço para tanto desvio de recursos e maroteiras como as que se deram em Londrina e Maringá, e nas quais há suspeitas de vinculação direta com políticos e instituições metropolitanas. Espera-se que com a prisão (ocorrida na última quinta-feira, em Santa Catarina) do Paolicchi, o famoso secretário da Fazenda de Maringá, muita coisa se esclareça e até mesmo alguns acordos políticos atípicos.
O que se dá no governo paranaense comprova aquela definição clássica da economia como a ‘‘ciência da escassez’’. Ocorre que quanto maior a secura de recursos e mais completo o cerco da austeridade, a fraude viceja: desde que a inflação deixou de corrigir fluxos de caixa e a imposição de leis como a de Rita Camata, que reduz drasticamente os gastos com pessoal, passou a exigir contenção orçamentária, o governo chegou ao extremo de não pagar o terço das férias aos funcionários, o que botou algumas categorias, como a dos mestres, em protesto permanente. Atrasou pagamentos (alguns veículos importantes se recusaram a divulgar a campanha do Refis, importantíssima para equilibrar o caixa, enquanto o governo não saldasse os compromissos acumulados e empurrados com a barriga), o que fez com que não poucas empreiteiras se vissem obrigadas a demitir pessoal, enfim as ações e omissões tiveram efeitos multiplicadores na economia.
Falido e falado, como nunca em nossa história, o governo agoniza e fecha o seu ciclo de forma bem melancólica, apoiado por uma Assembléia títere que com ele cada vez mais se parece no açodamento em impedir a clareza sobre esse fato elementar: como é possível em meio a tanta crise haver tanta corrupção e tantas coisas obscuras como a rapinagem no Banestado, o pedágio, os Jogos da Safadeza e episódios como os de Londrina e Maringá, nos quais o Palácio Iguaçu não é apenas espectador?
BIZARRICE
No reinado em que o Bobo do Rei figura como o mais erudito, o caos já se implantou e nada haverá que o salve, nem mesmo um milagre
AXIOMA Se o Lalau for solto logo, sob qualquer alegação, mesmo que fundada em lei, vai ser extremamente difícil levar o povo a crer na Justiça.
GLOSA Jamais diga perto de um grupo de políticos situacionistas que o Luis Antônio Paolicchi começou a falar. A não ser que a Ecco-Salva esteja perto.
EPIGRAMA Na Holanda, Lerner é ‘‘herói’’. Em Castro e Carambeí, em que há mais holandeses abrasileirados, que o conhecem melhor, sua cotação é baixa. Foi sob o seu governo que a Batavo deixou se ser brasileira, hoje da Parmalat.
SILOGISMO Aí o filósofo, que acompanhava as coisas da política do Paraná, num momento de reflexão rústica, sacou a máxima: ‘‘Mais vale um Paolicchi em fuga do que um pau em lugar indesejado, na cabeça, por exemplo.’’ Como Paolicchi está preso, pode sobrar pau pra muita gente.
SPRAY O governo vai encontrar resistências no Tribunal de Contas para muitas das suas ações. Uma delas, prometida pelo conselheiro Mattos Leão, é pela impugnação de um anúncio oficial em que o poder público divulgou o reajuste do pedágio e as providências fiscalizadoras que teria tomado. - Fundamentos dessa impugnação: 1) Pegaria melhor que as concessionárias e beneficiárias dessem a notícia: 2) O uso do nome do governador no texto é uma interdição expressa de lei; 3) Não há empenho prévio da pasta fazendária (ocupada com o 13º e a folha de dezembro do funcionalismo) para a publicação, o que a torna juridicamente, segundo assessores, um ato ‘‘inexistente’’. - O pedágio, como se vê, vai ser uma espécie de sarna para o situacionismo: pra coçar, basta começar. - Além de tudo, a expectativa de uma solução jurídica que reduzisse o desgaste do governo com a vitória dos recursos interpostos contra as concessionárias no Tribunal de Porto Alegre ainda vai demorar, como se percebe na reportagem desta Folha sobre o assunto. - Restrições a duas concessionárias (Rodonorte e Rodovia das Cataratas) operariam como um fator de recuperação na imagem do governo como poder delegante e concedente, o que aliás o contrato em nada facilita por atribuir às próprias beneficiárias esse papel bem como os seus respectivos dispêndios. - ‘‘Memórias de 1964 no Paranᒒ, obra do jornalista Milton Ivan Heller e da colega Maria Duarte, está gerando polêmicas. O ex-ministro Amauri Silva contestou vários registros. Deni Schwartz é engenheiro civil e não agrônomo. O livro sugere que Affonso Camargo era candidato de Ney Braga na convenção do PDC, o que está errado, já que o governador usou até de muito vigor para a defesa de Paulo Pimentel. - O ideal seria fazer um debate, em especial sobre Aníbal Khury, que Heller insiste em mostrar como vítima de 64 quando participava da conspiração e exibi-lo de forma bem maniqueísta com mais virtudes do que defeitos.
FOLCLORE O melhor presente de Natal e de Ano-Novo foi o do reajuste do pedágio às concessionárias do Anel de Integração. Vão-se os dedos e fica o Anel. Para compensar, o Papai Noel contraditório deve conceder o 13º ao funcionalismo.
CROMO Da clarabóia eu vejo a lua que é clara e bóia e navega inteira no azul de poucas nuvens. Atrás do arvoredo dá foto de calendário.
AFORÍSTICO A massa, ululante, chamando o Nicolau de ladrão. Imaginaram que, de repente, esse clamor se tornasse generalizado e houvesse invasões de palácios como recentemente na Iugoslávia?

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