Luiz Geraldo Mazza
Volta e meia pagamos pedágio para os vigaristas. Chamá-los de imaginosos e criativos seria redundância imperdoável. O fato é que pintou um grupo de artistas se dizendo integrantes do Olodum. Era uma segunda via piorada e desmascarados foram presos.
Quando os críticos começaram a pichar a ingenuidade do público que não havia percebido a diferença entre o original e a cópia houve a advertência de que até na Universidade Federal já aconteceu safadeza semelhante: um tremendo vigarista, falante como todos, passou-se por mestre universitário, foi também homenageado pelo corpo docente e por magistrados e até no Tribunal de Justiça, deu a aula inaugural e, dias depois, o figurão foi preso porque havia mandado de prisão contra ele.
O impacto do vexame do magistério e de magistrados não foi pequeno e uma das discussões era sobre o talento infinito, as habilidades teatrais dos aplicados no estelionato. Dias depois da situação constrangedora, encontro o meu mestre de Direito Civil, Altino Portugal Soares Pereira, e pergunto como é que a congregação acadêmica entrou nessa. Sério demais, pouco dado a exercício de ironia, o catedrático arrematou: Sabe que ele até dominava o tema da palestra sobre Direito Constitucional. Ainda bem que não falou sobre estelionato.
PAGODE
A propósito desse caso do Olodum fajuto: como diferenciar os conjuntos de pagode, se parecem todos saídos de uma só máquina? A loira e a morena rebolantes, o ritmo chatíssimo. Como pagode tem também o sentido de pândega, deboche, é difícil dizer a sua essência quando é por natureza caricatural. Não poucas vezes aquilo que chamamos de arte lembra o rebanho.
CENSURA Como há uma onda aqui no Paraná disposta a restabelecer a censura, retorno a um conceito: pior do que ela é a autocensura, prática muito comum aqui na terra e que facilitou, em grande parte, nos anos de chumbo, a tarefa dos encarregados de modelar o noticiário.
Comigo aconteceu uma incrível: fui para a TV Paranaense Canal 12, ao programa Telegol, do qual era editor e comentarista, e esqueci de dar uma olhada no mural em que eram afixadas as advertências do dia do Ministério da Justiça e fiz um improviso a respeito da resistência de Pelé em vestir a camisa da seleção em 1972. Como costumava fazer referências a dados políticos e sociológicos sobre o futebol, disse que aquele era um golpe rude para o regime pela circunstância de Pelé encarnar, como ninguém, o brasileiro comum e vitorioso: era do interior e de origem pobre como a maioria, era um migrante e negro e por isso deveria ser bastante desagradável aos militares a negativa em vestir a camisa da seleção, vale dizer a farda da pátria.
Saí felicíssimo com o comentário quando tocou o fone da Polícia Federal fazendo a pergunta singela se eu havia visto a restrição estabelecida. Não houve qualquer consequência, embora eu estivesse respondendo processo na Auditoria de Guerra como subversivo.
Aliás, a maior subversão que sempre houve nos meios de comunicação social do Paraná foi a da subvenção que o conselheiro João Feder sempre condenou em seus relatórios no Tribunal de Contas. O que nada adiantava porque ela continua prevalecendo e quase institucionalizada.
SNI Por falar nos anos de chumbo, era interessante notar que ao lado dos riscos efetivos, de espionagem e delação, havia também muita paranóia. Às vezes se aproximava da roda alguém que simplesmente queria se comunicar. Como passava por suspeito, era isolado como um possível agente do SNI, Dops, DOI-Codi.
Diante da loja LAviers, esquina da Avenida Luis Xavier com a Rua Ermelino de Leão, ao lado do Hotel Del Rey, eu conversava sobre pescarias com Orlando Carlini, o Careca. Mostrava-lhe um desses mapas de pescaria (que naquela atmosfera poderia ser encarado como algo ligado à guerrilha ou ao terror) e ia descrevendo: Bem, passou a entrada de Agudos do Sul, na estrada de terra, há a casa do sargento e ali tem uma cerca falsa, natural, camuflada por matagal e árvores... Notamos que um sujeito, à nossa frente, desafiava a lei da gravidade se contorcendo para ouvir o que dizíamos. Apontei-o para o Carlini e este, com seu mau humor militante, puxou-o pela gola do paletó para que ficasse mais próximo e ouvisse melhor, derrubando-o.
UMA FÁBULA Há um advogado de Curitiba, Joaquim Lopes, que é dono de um feito jurídico excepcional: em defesa do seu cachorrinho, Biro-Biro, foi até o STF, a última instância para defender o direito de mantê-lo em seu apartamento, em que pese o dispositivo expresso dos atos constitutivos do seu condomínio. A batalha foi exercida com talento, persistência e arte e no fim o Joaquim, ao ganhar a parada, acabou facilitando a flexibilidade da jurisprudência sobre o assunto. Seu zelo foi de tal ordem que abriu até uma conta em favor de Biro-Biro Lopes numa agência do Banco do Brasil. É o que o seu amigo e colega advogado, Antonio Amaral, confirma com todas as letras.
TESTEMUNHA O procurador de Justiça Acir Camargo foi um dos maiores repositórios do folclore forense e muitas de suas histórias ilustram a obra do advogado Fernandino Caldeira de Andrade em torno desse anedotário. Uma delas é a da testemunha que não decodificava o que o juiz, que presidia uma audiência na Vara de Família, lhe perguntava por causa da sua incultura e simplicidade.
O senhor sabe por ter visto ou ouvido dizer algo que possa significar restrição ao comportamento moral dessa senhora?
E a testemunha nada de entender. Aí o juiz simplificou a linguagem, mas ainda assim se tornava incompreensível. Então, rompendo o silêncio, a testemunha se soltou e interveio com toda a força: Não to entendendo o que o senhor pergunta. Desconfio que o senhor quer saber se ela é direita. Pra mim e pra todo mundo ela tem jeito de dadeira.
TORCIDA Esperidião Féres, presidente da Federação de Futebol, não conseguia esconder o seu amor pelo Atlético. Ficava nervoso, em delírio ambulatório, andava de um lado para outro, xingando, berrando. Num jogo à noite ele não se conteve com a marcação de um impedimento contra o Atlético e arremessou seu guarda-chuva em direção ao bandeirinha. Como se fosse um dardo lançado por atleta especializado, o guarda chuva descreveu um semicírculo e ficou enterrado na grama. Em seguida começou a chover e o Esperidião, nervoso, pedia que lhe devolvessem o objeto.





