Há quem acredite no ditado popular de que a primeira impressão é a que perdura. O nosso governador entende o contrário: a derradeira é que a tudo sobrepujaria. Foi com esse impulso que se criou todo o clima da reforma do secretariado, da qual se esperava um morteiro e houve apenas traque baiano ou, melhor ainda, aquele folguedo junino chamado ‘‘espanta-coió’’.
Esperava-se, também, que a nova face do governo, em curto espaço de tempo, gerasse uma atmosfera de dinamismo como se tudo estivesse no marco zero, algo como o ‘‘primeiro dia da criação’’. Não houve fatos novos relevantes, quer na montagem do secretariado ou no tocante a idéias. Apenas a quimera, para uso interno, de uma inserção na chapa sucessória como vice do Jereissati, depois do modigliânico Marco Maciel, o Magro, um D. Quixote gótico, teríamos o nosso paranaense com uma configuração próxima do Sancho Pança.
Volta e meia acenam com essa hipótese de o Paraná aparecer na chapa. A primeira dos anos 50 foi a de Munhoz da Rocha, cujo padrão não dá para comparar com qualquer dos que o sucederam, que deixou o governo, assumiu a pasta ministerial da Agricultura (derrubou o paulista Whitaker por causa da reforma cambial, algo impensável nos quadros atuais) e era a preferência do presidente João Café Filho até para a Presidência. Das que estiveram mais perto de prosperar, a de Ney Braga, em pleno regime militar, não emplacou, a despeito das qualificações obtidas como gestor e político.
A maneira como o governo nomeou seus auxiliares de confiança Caio Soares e Jaime Lechinski para o Tribunal de Contas, ainda que alertado da ilegalidade do provimento de um cargo que exige concurso público, bem como a forma como fez abortar, no Legislativo, o pedido de CPIs para os escândalos do pedágio e dos Jogos Mundiais da Safadeza, não exaltam a austeridade e, sim, premiam a visão estreita de grupo, atos, enfim, de um minimalismo provinciano, digno de um feudo, algo hoje raro até mesmo nos mais radicais exemplos de coronelismo.
Com essas credenciais não muda o governo, como sugeriu que faria, e perde condições para habilitar-se a figurar numa chapa nacional. Já não bastassem o alastramento da mancha oleosa do crime organizado, que deu uma liderança indesejada ao Paraná nas estatísticas, mais a quebra do Estado e a pilhagem do banco oficial, que mostraram o governo no atacado temos a sequência de exercícios de autoritarismo, como esse para abortar CPIs, que não era do seu estilo, e que agora se confunde com ações para premiar amigos no varejo.
BIZARRICE
Quando o governo está moribundo, o Bobo da Corte ainda ajuda, mas quando morre ele fica trágico: como retinir os guizos em meio a carpideiras?
AXIOMA O Paraná poderia ser o maior produtor de cítricos do Brasil não fosse a resistência política dos que nos consideravam área interdita por causa do cancro cítrico. Muitos anos depois, esse bloqueio, que interessava a São Paulo, foi removido e tivemos os pomares do Noroeste e até a indústria de sucos. Já em laranjice política ninguém nos supera: o pomar de CPIs laranjas é cada vez maior, como se viu anteontem no Legislativo.
GLOSA Se Lerner figurar numa chapa nacional terá, daqui do Paraná, o maior dos repertórios de ataque. Quando Lula foi candidato contra Collor se viu o quanto uma exploração maldosa de uma frase do Claus Germer, manipulada e sacana, prejudicou o petista. Imaginem o arsenal que sairia daqui e sem o uso de qualquer expediente para ampliá-lo.
EPIGRAMA Empresas e pessoas físicas do Paraná com movimentação de R$ 5 milhões no exercício de 1998, conforme rastreamento da CPMF, apareceram como isentos e omissos de declarações do Imposto de Renda. Ministério Público de olho. Como se observa, mesmo antes da autorização legislativa, a ‘‘varredura’’ operava, o que é saudável para todos.
PARADOXO Al Capone no confessionário: um padre não se contaminaria ao ouvi-lo?
SPRAY Diante da resistência doentia às CPIs da oposição, dribladas de forma rasteira, à sociedade só resta o mesmo exercício de pressão que funcionou bem em Londrina e Maringá e em menor escala em Ponta Grossa e Matinhos. - Não há como acreditar na funcionalidade institucional no Paraná para apurar as graves distorções. A acomodação é flagrante e mina a dinâmica intrapoderes. Como fazer aqui a lição de casa, como se deu no interior, se a OAB aqui já não tem a veemência da sua representação fora da capital? - Essa mesma indagação cabe ao Ministério Público, instância representativa dos interesses difusos da sociedade: como fazê-lo, superando as resistências político-administrativas que se escudam numa alegada e formal relação sem conflito? - Para que essas instâncias sejam irrigadas – Ministério Público, Judiciário, Legislativo, Executivo – indispensável se faz que os chamados ‘‘entes intermediários’’ do tipo OAB, entidades liberais e científicas, corporações empresariais e trabalhistas entrem para valer nas batalhas. - Partidos políticos também não ficam de lado nessa ordem de pendência. - Provocar a ação do Judiciário é outra saída. O que não pode acontecer é o Tribunal de Contas, através do conselheiro Nestor Baptista, pedir que um secretário de Estado devolva o dinheiro gasto em obra inconclusa como o Parque da Barragem em Itaipu (Jogos da Natureza) e nada acontecer com as coisas dormindo numa gaveta burocrática. - Dois nomes para a Secretaria de Esportes de Curitiba: Edgar Hubner, que esteve na coordenação dos Jogos da Natureza, e Rodrigo Martinez. Alguns vetos, alguns votos.
FOLCLORE O Coritiba estava num jejum de vitórias e, mais do que isso, de gols em seu estádio, o Couto Pereira. Numa noite essas empresas que fazem concursos exibiram, antes do jogo, um desfile de carros da linha Gol. O Décio Macedo, empresário de turismo, maringaense curitibanizado, cumprimentou o presidente do clube lá nas sociais: ‘‘O senhor prometeu e cumpriu: hoje temos Gol a dar com o pé!’’
CROMO Meu neto mais novo, Ângelo, 4 aninhos, desde que nasceu ganhou uniformes do Coritiba, dados por minha filha, Liana, sua madrinha. Anteontem ele nos derrubou: cantava ‘‘Meu Paraná, meu tricolor!’’ embalado pelos feitos recentes e a doutrinação do outro avô.
AFORÍSTICO A mediocridade e a mediania, que estamos vendo por aí, não se ajustam ao modo de ser paranaense.

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