Luiz Geraldo Mazza
Por que um amor adolescente é mais forte do que um apelo de mãe para assistir novenas? E não seria herético, já que tinha tão pouco de erótico, andar, como um angustiado no templo, a procurar aquela que tanto cultivávamos, não com essa fúria física de hoje, mas com um recato de novelinha de Joaquim Manuel de Macedo, mais ou menos no estilo de A Moreninha?
E lá no púlpito o Monsenhor Vicente Vítola contando a estória das ermidas de todas as Nossas Senhoras deste Brasil. Inclusive as regionais como a padroeira do Paraná, a do Rocio, e a de Antonina, a do Pilar.
Essa forma de amor, incompatível com os dias de hoje, estava configurada no orgulho com que alguém contava na roda que já pegara na mão dela. Hoje beijo roto-rooter é petição inicial. O recurso extraordinário pode ser tudo. É mais real com menos asa para o imaginário.
JIPE AZUL Havia um jipinho azulado que a polícia usava no fim dos anos 40 quando o major Lira a comandava. Em nossas arruaças de adolescentes que jogavam futebol na calçada e quebravam vidraças o temor era reverencial diante dessas viaturas e também de policiais como o Serrato, que cuidava de menores, e um outro chamado de Caputo. Este a gente, quando o via aproximar-se, evitava dizer-lhe o nome porque havia o risco de ele entender que o nominávamos apenas pelas duas sílabas finais.
Que fazíamos quando estávamos diante da chegada dos carros da polícia? Simples: uma das artes era navegar em sentido contrário ao trânsito. Nada tínhamos de inocentes ou anjinhos, como acreditavam nossas mães. Uma das nossas molecagens era, imaginem, fazer corridas subindo a Trajano Reis em direção ao Cemitério Municipal com alguns dos integrantes ousando fazê-lo sem qualquer roupa, enfim pelados da silva.
LÍRICA Mesmo depois de adulto, casado, perseguia essa aura de Curitiba que se esvaía na megalópole nascente: as duas filhas, Grace e Liana Mara, num só carrinho de bebê que eu trazia das proximidades do Cemitério para a direção do Bom Retiro e de lá ao tanque do São Lourenço. Colocava uma pedra como freio das rodas e ficava a dar mergulhos no açude do Rio Belém, aquele tempo não tão poluído, e as deixava, nervosas, enquanto me viam mergulhar.
Os sinais ruralizados da cidade desapareciam (em que lugar estava o renque de ameixas amarelas que vi sob o luar nas imediações da Fábrica de Velas, a Estearina?) e quando as meninas estavam mais crescidinhas sabem a loucura que aprontei? Elas experimentaram algo que tinha seus últimos sinais: andar em rabeira de carroça, é claro que autorizados pela colona de Santa Felicidade que anunciava a cesta básica tal qual a protofonia de O Guarani como dizia o também lírico, aquele tempo, Dalton Trevisan: Ói a galinha, o pimentão, o pepino, abobrinha, a lenha, tudo em voz tremida pelo ranger na carroça nas ruas irregulares e de pedras soltas. Completava o refrão o estalo do chicote e o grito de estímulo Uia, baio!
EPISTEMOLÓGICO Exemplo de corte epistemológico: na aula de Clínica Médica o catedrático detalhava o sentido da anamnese, o colóquio entre médico-paciente (neste campo ninguém, talvez em nossa história, tenha sido tão rigoroso quanto o Lisandro dos Santos Lima que a canalha de 64 procurou enquadrar) quando a porta range e lá aparece a colona, turbante à cabeça, em seu italiano cantado: olha a galinha, batata-doce, alface.
EQUÍVOCOS O Milton Ivan vai lançar amanhã Memórias de 64. Na primeira obra (editada por esforço de Renê Dotti, secretário de Cultura) só faltou sugerir que Aníbal Khury era uma espécie de Chê Guevara. Aníbal estava ao lado do golpe como a maioria dos políticos e o seu enquadramento não era obviamente por subversão, ainda que o acusassem de negociar com armas. Vítima, de certa forma, também, porque submetido ao ritual da intolerância e do ressentimento de pessoas radicais, militares em maioria, que diziam, de forma clara, que a Revolução não teria chegado ao Paraná se ele, o guru, não fosse cassado. A ânsia era tanta que acabou sendo.
Um dia fui procurado por dois oficiais do Exército que queriam depoimento para incriminar Ney Braga por causa das relações com a mídia. É que Ney fora lançado contra Costa e Silva no Paraná para a presidência e ganhou uma prévia e isso irritava profundamente os chamados falcões. Recusei e ainda acusei o interlocutor, que aproximara os milicos de minha pessoa no interior de uma sessão de cinema, no Avenida, de estar magoado porque Ney não nomeara seu pai desembargador. A observação, pouco sutil, criou mal-estar para os três.
QUASE ÉPICO Há gestos dessa época, de muita dignidade, como por exemplo o de José Munhoz de Mello, ex-deputado federal, ex-presidente do Tribunal de Justiça e ex-prefeito de Londrina, de recusar-se, diante do comando da 5ª Região Militar, a reprimir a massa estudantil que cercava a reitoria. Alguns manifestantes acham que pelo fato de haverem derrubado o busto do reitor tinham feito algo bem mais heróico.
Já contei aqui que ao visitar um seminário de religiosos fui chamado por um deles para ver uma relíquia. Pensei morbidamente nos restos de algum santo quando me vi apenas diante da orelha da estátua do reitor Flávio Lacerda.
Como se vê o grau de alienação dos entusiastas de aparelhos independe de cultura, lucidez e espírito de luta. A fantasia do imaginário a tudo permeia. Dentre eles deveria haver algo mais do que um Frei Caneca, mártir, ou dos padres que estavam na glória da Sierra Maestra com Fidel e Guevara.
GUARESCCHI A propósito desse engajamento dos religiosos houve uma obra de Giovani Guarescchi, um pouco vulgarizada pela série de filmes, em que Don Camilo, o pároco, entrava em conflito, cercado de amabilidades, com Pepone, o prefeito comunista. Aquilo que parecia água com açúcar aos radicais era a expressão, evidentemente alegorizada, de episódios comuns em cidades e vilas da Itália. Isso viria a traduzir-se, na prática, na abertura à esquerda da Igreja, que encontraria seu ponto agudo com o Papa João XXIII, e nas várias coalisões entre socialistas (e até comunistas, em alguns casos) com a chamada Democracia Cristã. Fico não muito surpreso ao ver hoje Giovani Berlinguer, irmão de Enrico, criador do eurocomunismo, como um consultor do Vaticano em matéria de Bioética (aliado ao brasileiro Volnei Garrafa). Giovani veio a um congresso da UNE pregar a filiação à UIE (União Internacional controlada pelo Oriente comunista) e foi duramente combatido por Paulo Assunção, integralista, que terminou seus dias como promotor em Londrina. O tempo passa e vira bruma e sonho. E lá se vão nesse redemoinho as nossas tonalidades afetivas.





