Luiz Geraldo Mazza
Quem foi picado por uma cobra teme mangueira de jardim. Essa anedótica regra do saber popular, fundada numa interpretação livre da teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, volta a ser acionada para explicar a atitude tomada pelo governador Jaime Lerner ao pleitear na Justiça a suspensão do reajuste do pedágio e até, em alguns casos, a rescisão contratual das concessionárias. Obviamente o senador Roberto Requião, ao saber da nova, usou a metralhadora giratória, atribuindo ao governo um sentido de pura dissimulação, agora menos radical, para a elevação desproporcionada das tarifas, do que o adotado na véspera da reeleição ao cortar linearmente em 50% os seus valores.
Claro que partindo de quem parte se pode até usar o benefício da dúvida em favor do governante. Ocorre, porém, que há aquele antecedente grave no qual o governo não se empenhou a fundo nas disputas judiciais e cujo final atingiu o conjunto da economia paranaense. Adianta alguma coisa, mesmo que comprovada a quebra de contrato por parte das concessionárias em não cumprirem o cronograma de obras, ir à Justiça? Essa é uma dúvida do usuário que perdeu a confiança no governo e se sente desamparado. As concessionárias, mesmo aquelas apanhadas em desobediência contratual, se valerão dos prolongados rituais processuais e continuarão cobrando as novas taxas, enquanto a disputa pericial não oferece uma comprovação do que alega o governo. Ademais o governo mal fiscaliza obras e dá para imaginar a confusão que se estabeleceria se lhe fosse deferida a faculdade de ele próprio fazer a cobrança.
O filme não está queimado, mas apenas gasto e a maioria se sente num cenário de reprise, algo requentado e que no fim se torna doloroso. Repete-se aqui, em gênero, número e grau, o que houve, em escala menor, ainda que apreciável, com o esoterismo das planilhas do transporte coletivo urbano da Capital e que gerou um cartel capaz de controlar a Câmara Municipal. Fui do Conselho que examinava, mensalmente, o reajuste, imposto pela inflação: não havia a menor racionalidade e inexistiam respostas claras aos itens que provocavam as altas impositivas. Jamais se fez uma auditoria contábil de verdade nessa questão.
Ocorre que de lá para cá o Brasil melhorou (o Paraná é uma ilha, a exceção) com episódios como os da queda de Collor, da gatunagem do orçamento por via parlamentar e os mais recentes de Londrina e Maringá e aqui tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Houvesse clareza, decodificação das planilhas, e a medida do governador de acionar as infratoras teria apoio popular. Não tem porque a desconfiança é generalizada e o maior deus deste período administrativo é a caixa-preta, tão simbólica quanto a de Pandora.
A Justiça Federal, ao negar a liminar para punir as concessionárias, mostrou que o mundo jurídico e o político nem sempre sincronizam.
BIZARRICE
Regras de futebol poderiam ajustar-se à política: da mesma forma que não se pode, no mesmo jogo, tirar um jogador de campo e depois reconvocá-lo também pega mal afastar um secretário numa reforma e depois renomeá-lo. Essa impropriedade futebolística é também uma heresia ética. Mas aconteceu com a secretária Alcyone Saliba, da Educação. Se já era desleal o seu afastamento, pior ficou com a reconvocação. Arrependimento não remove constrangimento.
AXIOMA Nível de credibilidade do governo estadual se mede por um fato singelo: ninguém se dispõe a aceitar o papel de líder no Legislativo. Pode ser reação de circunstância e provisória, mas não deixa de ser eloquente.
GLOSA Se Rio Branco do Sul, que já serviu de cemitério de automóveis, rejeitar o aterro sanitário de Curitiba no município não vai ser fácil encontrar em cidades próximas qual delas se habilitaria. Para esse ônus não há bônus.
EPIGRAMA Depois da gasolina, vem o ajuste do álcool e também o da água. Tem-se a impressão que os indicadores inflacionários do governo são meramente gráficos. É só por no gráfico e pronto: uma pornografia.
SPRAY No ano passado, mais ou menos a essa época, o governo paranaense recebeu uma correspondência formal do Ministério da Fazenda, elogiando o desempenho na área financeira quanto às metas de ajuste fiscal, preconizadas no acordo financeiro com a União de 30 de outubro de 1998.- Apesar da importância desse documento, o governo resolveu não divulgá-lo e isso, por múltiplas razões, inclusive a de levar o ajuste fiscal ao maior rigor, já que ficaria sujeito a afrouxamentos de caráter político, ainda mais num ano eleitoral.- Ontem deu para perceber a quantas anda essa secura: uma reportagem da Globo local detalhou o drama dos postos de combustíveis diante das polícias Civil e Militar inadimplentes e por isso mesmo impedidas de abastecer-se, enquanto não liquidarem as faturas anteriores.- Não apenas Toledo e Cascavel estão afetadas gravemente pela recusa dos fornecedores, já que a situação se repete em todo o Paraná.- O secretário da Fazenda, Ingo Hubert, que acumula a Copel, está (e isso não é trocadilho) esbanjando energia, uma vez que promete, em tempo recorde, apresentar a Lerner um plano de estabilização. Ora os fundamentos já estão fixados no acordo com a União, de dois anos passados, restando apenas monitorar o processo e endurecê-lo, se for o caso.- Esse plano de equilíbrio prevê a drenagem dos recursos em ICMS das empresas beneficiadas, inclusive as montadoras e respectiva malha produtiva, para 2001 com intensificação até 2002 e anos seguintes e o fundamento maior está na privatização de ativos como o já consumado do Banestado, o da Copel e o da Sanepar, que já tem sócio francês inclusive gerindo a empresa.- Outra peça desse xadrez é o instituto Paraná Previdência que já, no mês passado, encaminhou, com timbre próprio, em tom verde, os contracheques dos inativos.- Se a formalidade não corresponder à capitalização efetiva do Fundo, isso é mais um jogo de cena como esse que se suspeita nas ações contra as consorciadas do pedágio.
FOLCLORE Já imaginaram os nossos governantes, políticos de um modo geral, sabatinados assim, do mesmo jeito, como foi o Luxemburgo? Seria a hora da vingança coletiva e muitos dos que aparecem lá inquirindo poderiam também ser perguntados.
CROMO O pássaro na gaiola recebendo reflexo do sol de um espelho e se achando estimulado a cantar. Essa eu vi num filme de Jacques Tati, mas poderia ser também num poeminha de Jacques Prevert.
AFORÍSTICO Incrível: seis anos depois tomou posse, mas não de si mesmo.





