Todo o povo é refém do pedágio. Se as concessionárias não realizassem obras apenas no mundo virtual dos anúncios, com o que se tornam simétricas ao estilo do seu protetor, Jaime Lerner, ainda haveria alguma compensação. Mas elas, ainda como o seu paradigma, dedicam-se como prioridade às artes da toalete: desmatam, dão uma pintura aqui outra ali, fazem um remendo no asfalto, dão uma reforçada na sinalização ou afixam placas anunciando obras. Nada porém é mais construído, aí sim com empenho e arte, do que as praças da cobrança, nas quais exercitam o esforço das benfeitorias.
O clima geral no Paraná é de revolta, indignação, com o édito das novas tarifas. Para amaciar seus efeitos copiaram a história do vale-transporte, saque do Affonsinho Camargo, para reduzir efeitos perversos das tarifas corsárias do transporte coletivo urbano, e lançaram o vale-pedágio, experiência ainda recente para se saber se funcionará ou não, embora, no primeiro momento, pareça favorecer os caminhoneiros.
Tudo bem no estilo macunaímico deste País: o uso da prestidigitação sugerindo que esses custos não serão transferidos ao frete e ao preço final, a velha magia de fazer omelete sem quebrar os ovos. Aquele esforço de racionalidade que há na exigência de apuração de fontes para financiar o salário mínimo de R$ 180, é claro que sob os olhares do feitor do FMI, não existe nesse caso.
Rui Cirne Lima, grande constitucionalista, costumava remontar ao feudalismo para idendificar raízes e processos do nosso federalismo. Nada mais feudal do que a cobrança de todos os brasileiros de um preço de uma ‘‘servidão de passagem’’, algo típico da relação vassalo-suserano, em estradas construídas com o dinheiro dos tributos, o que vale dizer de todos.
Quando a opressão se torna intolerável só há um caminho: o da resistência civil que, de uma forma ou de outra, virá, seja pela via judicial, a despeito do caráter leonino dos contratos, ou por aquela mais adequada, a política, com o empenho de repor o equilíbrio das coisas na relação Estado-Cidadão, uma vez que aceitá-la sem contestação é o caminho mais rápido para o despotismo nada esclarecido.
Nesse do pedágio, em pleno regime constitucional, há uma violência pior do que a derivada dos Atos Institucionais, que se fundavam numa essência de ilegalidade e de uma suposta ‘‘ordem revolucionária’’.
BIZARRICE
Há quem veja semelhança entre a praça de pedágio e um mata-burro. No momento o burro é o usuário, na sequência pode ser o inventor da novidade
AXIOMA Dá para imaginar, com aquela erudição de sempre, o secretário de Comunicação Social, Rafael Greca, recorrendo ao direito feudal para mostrar a analogia existente entre os lotes de concessão do pedágio no Paraná e as suseranias clássicas. Mais umas centenas de anos e chegamos nas luzes da Revolução Francesa com todos os seus horrores e ardores.
GLOSA Renato Aragão já estava se recuperando nas sessões de análise a que se submeteu por descobrir que os trapalhões do Palácio Iguaçu o superavam de longe quando lhe contaram a história da saída e renomeação da secretária de Educação, Alcyone Saliba. Foi de um efeito catártico: viu finalmente que é perda de tempo comparar suas artes com essas da turma do Centro Cívico.
EPIGRAMA Lerner em Nova York: biblicamente, o filho pródigo à casa torna.
SPRAY Já estão prontas as faixas de protesto contra as tarifas do pedágio: uma delas repete o refrão anterior ‘‘em lugar de asfalto novo, o velho assalto de sempre’’. - Quantas sacas de soja, em cada viagem, o transportador deixa no posto do pedágio? De Cascavel a Paranaguá, nada menos de treze. Há ainda 22 de milho e 18,5 de trigo. E depois os governantes acham que o pedágio do MST entre assentados é que é espoliação. - Conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) todas as vias pedagiadas no Paraná caíram de qualidade: o trecho Ponta Grossa-Ourinhos (BR-376 e PR-151) saiu da sexta colocação para 32ª. A ligação Foz-Paranaguá (277) caiu do quarto para o sexto por absoluta falta de manutenção, o que agrava as condições de uma rodovia que em grande parte do percurso é de uma só pista. - Outra queda, violentíssima, foi a da BR-376 entre Curitiba e Arapongas, que desceu do sexto lugar das mais conservadas para a 23ª colocação. - A multa em três das seis empresas que administram as rodovias por não haverem cumprido o cronograma de restauração ou duplicação das estradas é uma forma de dourar a pílula e sugerir que a fiscalização é para valer e tentar com isso levar ao usuário um mínimo de tranquilidade. - Empreiteiros sempre conseguiram escapar de CPIs, apesar de todas as tentativas feitas, até porque apareciam como os notórios financiadores de campanhas eleitorais. Assim vai ser também com a novidade das estradas pedagiadas. - Apesar da crise e até por seu aguçamento, argentinos já estão ‘‘pintando’’ no litoral catarinense. Por enquanto estão livres do pedágio na BR-376 e BR-101. - ‘‘Software: Lei, Comércio e Contratos de Software e Informática’’, única obra já escrita no Brasil por Tarcísio Queiroz Cerqueira, vai ser lançada em coquetel da Assespro no Shopping Cristal dia 5 de dezembro, às 19 horas. Parte da venda será revertida para os Amigos do HC. - Hoje, 14 horas, em Foz do Iguaçu, o jornalista Josias de Souza, da ‘‘Folha de S.Paulo’’, aquele que denunciou o pedágio dos sem-terra, fala sobre ética num congresso do Ministério Público. - Quem está entusiasmado com o Concurso de Arremesso de Coco em Guaratuba é Parreiras Rodrigues, aquele que defende o produto como alternativa agroindustrial para o Noroeste paranaense. - Amainando um pouco a sua impopularidade, o governador entrou com ação na Justiça Federal pedindo a suspensão imediata do reajuste do pedágio às três empresas que descumpriram acordos e a rescisão dos contratos com a Rodovia das Cataratas (trecho da BR-277 entre Guarapuava e Foz do Iguaçu) e Rodonorte (BRs 277 e 376 entre Curitiba e Apucarana e da PR-151 entre Ponta Grossa e Jaguariaíva).
FOLCLORE Lerner teria denunciado o Candinho ao SNI. O Cândido Gomes Chagas, aquele da ‘‘Paraná em Páginas’’ e que o colocou na capa da revista este mês.
CROMO De uma coisa as crianças podem estar certas: o trenó de Papai Noel não paga pedágio. O espaço aéreo é livre, por enquanto. Ibama de olho nas renas.
AFORÍSTICO Vocês já viram um governo tão confuso quanto o nosso?

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