Um mosaico de províncias

A notícia da implantação da Audi-Volks no Paraná, a despeito do seu alcance, foi apenas regional. Não fosse uma equipe da Globo registrar o fato para o noticiário local e o Paraná só teria ciência pelas rádios (a CBN cobriu o acontecimento e em rede nacional) e jornais. Percebe-se nesse episódio a dificuldade que regiões como a nossa têm para dar o seu recado, pois não dispomos de um veículo nacional, apesar de contarmos com a capitânea de uma rede de televisão, a CNT, de alcance periférico.
Das regiões brasileiras, afora a notória preferência da Rede Globo pelo Rio e que dá a aquele Estado, hoje superado em tudo por São Paulo, a condição de capital da indústria cultural, poucas conseguem como o Rio Grande do Sul uma expressão forte - não apenas em função do jornal ‘‘Zero Hora’’ como da RBS - no setor da comunicação eletrônica.
Há um pré-requisito que favorece os gaúchos, visível por exemplo em todo o Paraná, Oeste e Sudoeste especialmente, com a derrota do Grêmio para a Portuguesa de Desportos no primeiro jogo da final. Essa ‘identidade’ cultural surpreendente, que permeia todo o território nessa guerrilha do vaneirão chamada CTG, Centro de Tradições Gaúchas, é expressão clara dessa diversidade.
Com toda essa onda de globalização, nunca essas tonalidades nacionais e regionais foram tão fortes no mundo: Liga Lombarda, na Itália, que quase fixa a hegemonia setentrional, superando partidos e alavancando o magnata Berlusconi; a desagregação da União Soviética e da Iugoslávia e o temor de que a própria África, sem Mandela, caia no furor das batalhas tribais. O Paraná padece dessa condição, a de não ter uma identidade clara e de não saber fazer da diversidade a sua força.
Somos, isso sim, um mosaico de províncias e como ensinava o cientista político Rui Cirne Lima, mestre de Teoria Geral do Estado, ‘‘o federalismo é de certa forma uma expressão do feudalismo’’. Como vivemos ensanduichados, prensados por duas influências fortes, como a de gaúchos (há regiões deles que foram colonizadas por paulistas da 5ª Comarca, portanto curitibanos) e paulistas - estes por seu poder magnético de caráter político, econômico e também cultural - olhamo-nos no espelho e nada vemos refletido.
O tema vale uma reflexão aprofundada para identificarmos uma questão de raiz. Precisamos de mais presença nacional, de estarmos mais lincados nos centros de decisão.
BIZARRICE - A greve dos jornalistas de 1963, véspera do golpe, teve uma dimensão bem curitibana: o hoje presidente do sindicato patronal, Abdo Aref Kudri, como os jornais estavam todos fechados (e apenas o ‘‘Diário do Paranᒒ tentava furar o cerco), resolveu ceder o seu ‘‘Diário Popular’’ para que os jornalistas fizessem o periódico da greve, que tirou três números. Por causa dessa concessão foi visto, pelo prisma da ‘‘guerra fria’’, como comunista. Eu e outros companheiros que promovemos a greve aparecemos em alguns depoimentos como da linha auxiliar do Abdo. Uma rigorosa aplicação do ditado, haja aqui homenagem ao trocadilhista Freitas Neto, ‘‘o Abdo não faz o monge’’. No caso, foi um grevista honorário.
SPRAY - Melhoram as condições da educação no Paraná: a taxa de evasão escolar no ano é de 6%, mas há regiões, como as do Noroeste, com indicadores elevados. - Apesar da reação da APP, o nível de adesão ao Proem é elevado, superando 80%. - Quem responde pesadamente pelo primeiro grau é o município. Dos 1,050 milhão de estudantes existentes no Paraná, 850 mil ficam a cargo das prefeituras. - Situação de Rafael Greca, na disputa por espaços no governo e na prefeitura, é difícil: o cerco mais ortodoxo do lernerismo se articula e pelo jeito subestima a coragem até transbordada do burgomestre. - Não foi só o pessoal do PSDB que abandonou o financiador da campanha, João Simões. Também a coligação que levava Edson Muhlmann deixou o candidato agarrado no pincel, com dívidas. - Chio geral no interior contra as cobranças de taxas no Banestado de correntistas servidores públicos. Há quem mesmo sem ter talão começa a perceber o quanto paga do seu mirrado salário. Para retirar cheque avulso, R$ 2,50, e nos demais, R$ 4,00 por mês. - Com a nomeação do novo comando da PM, costuma-se fazer a glosa de que a unidade da corporação é o ‘‘tema de Lara’’ e que diante dele todos dançarão conforme a música. A corporação saiu ferida nos episódios desastrosos, mas o princípio da obediência ao governador indica que as turbulências passarão.
FOLCLORE - O incidente entre o jornalista Gilmar Piola e vereadores de Curitiba, porque filmava a sessão de anteontem à noite, lembrou de um fato ocorrido nos anos 50, no mesmo local, quando era sede da Assembléia Legislativa: havia nas galerias um grupo de operários do Centro Cívico que protestavam contra violências policiais. Como faziam muito barulho, o presidente da Casa, Antonio Anibelli, o pai, ameaçou soar os tímpanos e fazer evacuar as galerias. Gamaliel Bueno Galvão, também PTB, como Anibelli, pulou a cerca da tribuna de imprensa, pediu um aparte ao atônito presidente e gaguejando: ‘‘Vossa Excelência é um tra-tra-traidor filho da mãe’’. Dia seguinte, ‘‘O Estado do Paranᒒ, em editorial do Erichsen Pereira, exibia um artigo com o título ‘‘Ostras e Gamaliéis’’. Juca Erichsen, por mais de uma vez, manifestou-se arrependido pela caricatura feita contra uma pessoa passional e emotiva, mas um generoso brigador das causas populares como o Gamaliel, que tanta falta nos faz, por acreditar em princípios.

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