Pessimistas de plantão, acompanhando o drama da Argentina, dizem: ‘‘É o Brasil amanhã!’’ A analogia é apressada, como tudo que é tisnado pela ideologia, a observação é uma torcida em favor do caos.
Em situação diametralmente oposta, Lula participa de uma caravana que vai à Ilha de Cuba, de Fidel Castro. Nem pensar em olhar aquele cenário como o Brasil de amanhã. Nem petista, mesmo o mais radical, é capaz dessa heresia.
O ritmo das privatizações no Brasil, mais lento e calculado do que o dos argentinos, é um diferencial. Por exemplo: lá, de cara, entregaram o seu ativo mais relevante, a Yacimientos Petroliferos Fiscales, a Petrobras deles, e num país que não depende de importações de petróleo e ao revés exporta seus excedentes.
Há quem tente destacar a parte social de Cuba: educação em todos os níveis, assistência integral à saúde, fomento ao esporte. Não deveria existir, como tenho dito, essa dicotomia entre ‘‘econômico’’ e ‘‘social’’. Quase sempre há mais aquele do que este, imposição visceral do capitalismo que tem a crença de que o efeito multiplicador é capaz de ajustar estruturas sociais, o que se sabe que não é verdade.
Cuba e Brasil padecem de um mal assemelhado: a primeira só cuida do ‘‘social’’ e a segunda do ‘‘econômico’’. Se não houver a interação dos dois fatores, o conjunto dança. À primeira vista parece que nos livraríamos de alguns dos nossos flagelos básicos se imitássemos Cuba na parte social. Só que a adesão ao capitalismo – não esquecer que o Brasil, apesar da perversidade de sua pirâmide de classes, é a oitava economia do mundo – impede que copiemos o que há de bom na terra de Fidel, pelo menos em termos de mobilização.
CONSOLO
O Malutrom, que já é o clube ‘‘regra 3’’ da maioria, espaço antes pertencente ao Pinheiros e ao Rio Branco de Paranaguá, precisa acautelar-se hoje para não levar uma goleada do Cruzeiro que possa fazer lembrar o Ibis, lá de Pernambuco. Este fazia das goleadas homéricas que tomava o seu ‘‘marketing’’
QUEM PERDEU Jaime Lerner, especialmente por causa do pleito em Curitiba, posa de vencedor das eleições municipais e mostra-se até habilitado a perseguir o sonho da Presidência ou vice-Presidência. Afinal, ele tem mais cacife do que alguns que já o tentaram como Requião, Alvaro Dias e Affonsinho, este o único que realmente chegou a ser candidato e, surpreendentemente, deu um vexame ao fazer esquecer a figura de um dos maiores articuladores políticos da terra e que teve papel relevante na montagem do governo Tancredo Neves que, como a viúva Porcina, é aquele que foi sem nunca ter sido.
Mas a movimentação tanto de Requião como a de Alvaro dá a entender que eles não foram massacrados na eleição municipal. Requião cuidou de lançar-se candidato ao governo estadual em Foz do Iguaçu, palco de sua maior vitória, o que Alvaro jamais poderia fazer em Londrina e Maringá.
Como a política é dinâmica, os derrotados – e todos o são – parecem obter uma ‘‘reciclagem’’, como se tivessem acabados de sair de uma sauna, com os seus novos vôos. A ilusão é uma contingência da vida e um alimento da alma. Isso amacia de qualquer forma o sinal da cara-de-pau.
NEGRITUDE O meia-direita Robson, do Fluminense, num ato falho: ‘‘Eu já fui negro e sei o quanto é difícil.’’ Queria referir-se à pobreza como se houvesse sinonimia entre uma coisa e outra.
BARIGÜI Cássio Taniguchi não cometeu nenhum ato falho ao dizer que há pesca no Rio Barigui: é só observar, nas imediações do parque, depois do ‘‘ladrão’’, os moradores do fundo de vale fisgando carpas e tilápias. Aquela gente deve ter antígenos no organismo para se alimentar de espécies altamente contaminadas.
VIRTUAL Tiram os menores da novela ‘‘Laços de Família’’, mundo virtual, mas nada fazem para evitar que os meninos de rua cheirem cola, usem todo o tipo de droga. Semana passada, um de 8 anos morreu de ‘‘overdose’’ na Carlos de Carvalho à vista de muita gente. Foi rápido: convulsão e morte.
No faroeste primitivo do cinema americano, a composição dos tipos revelava o mocinho, o bandido, a mocinha, o cavalo e o cão adestrados, o gozadão e o gurizinho. Se a censura aplicada no Rio prevalecesse tiravam o gurizinho.
Fernando Henrique, num almoço com artistas, comentou, com ironia, o exagero com o seu ministro da Justiça ao lembrar que Shirley Temple foi a menininha genial com seus cabelos cacheados do cinema norte-americano. Não dá para imaginar o cinema dos tempos heróicos sem ela.
BARRIGA Especialidade do governo Lerner: empurrar tudo com a barriga. Amanhã os sem-terra fazem manifestação em cima de um ano de aniversário do despejo do Centro Cívico (esse é um hábito brasileiro, o de transformar derrotas em feitos épicos). Quem permitiu que eles lá permanecessem por seis meses? E quem é que enrola os professores, não cumprindo acordos? Agora é mais embaixo: a Polícia Militar, outra vez, está sendo esnobada pelo governador. O que foi tratado até agora não ganhou o mundo concreto. Essa lentidão e o hábito de ganhar moratória indefinidamente podem resultar em confronto que a rigor nenhuma pessoa, com um mínimo de bom senso, deseja.
CURIOSIDADE Os supermercados estão reagindo, com extrema indisposição, contra a determinação judicial que obriga a etiquetar mercadorias e seus executivos ameaçam, percebendo-se aí a chantagem, repassar tais custos aos preços, como se daí renascesse, qual Fênix das cinzas, a inflação.
Curioso é que no tempo da inflação essa era uma área altamente especializada. Tanto que havia uma cena, digna de pastelão, quando clientes de ‘‘trainning’’ disputavam corridas no interior dos empórios para ver se era possível chegar na mercadoria antes da mão sinistra do etiquetador.
Dá para imaginar até um filme na linha chapliniana ou de Jacques Tati tirando partido dessa perseguição, ainda mais agora que se juntou à galeria a figura do empregado de supermercado que se movimenta pelos corredores em patins.

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