Luiz Geraldo Mazza
Às vezes os governantes embarcam em aviões ou helicópteros de donos ocultos ou desconhecidos. Lerner andou, segundo se propala, no aparelho que pertencia ao Issan Hussein, aquele que de tanto prender a atenção, ali em Araucária, acabou preso. Diz-se que aquela viagem à Bahia de Lerner, Gionédis e Alceni Guerra (em que se insinuou que ACM dera a bênção ao governador como vice de Jereissati), bolada por um assessor do terceiro andar, foi feita no avião do Paolicchi, ex-secretário da Fazenda de Maringá, tão desaparecido quanto o Lalau.
Nenhuma das autoridades, em ambos os casos, poderia saber a quem pertencia o avião ou helicóptero pelo simples fato de que acreditaram na recomendação de um assessor de confiança. Só que ao Ministério Público cabe, até para o efeito saudável de apuração integral dos fatos, a presunção (que pode cair com a prova em contrário) de que sabiam de quem era o avião de rosca ou o pássaro metálico. Se fosse em pedalinho, para atravessar o Amazonas, persistiria a suposição, embora o veículo não resistisse a uma pororoca.
Dize-me em que avião viajas e dir-te-ei quem és. Isso é generalização de risco, mas de todo o modo uma boa frase, ainda que não verdadeira.
BIZARRICE
Fala-se, à boca pequena, que um figurão da política, casado, teria uma namorada, belíssima, em Florianópolis. Se fosse um namorado seria, por certo, muito mais comentado.
Isso pode ser coisa de Cassandra, figura mitológica, de profecias certas, nas quais, todavia, ninguém acreditava.
AXIOMA Pedro Malan está se candidatando a ser o Cláudio Coutinho, aquele técnico do Flamengo que usava termos esotéricos para designar ponto futuro como a área de lançamentos longos. Inventou agora o termo parametrização.
Se há algo difícil de parametrizar, isso é fixar parâmetros, é a
cara-de-pau do nosso governo federal.
Delfim Netto, czar do regime militar, ao ver a alta do chuchu que interferira no processo inflacionário, lançou o conceito de elasticidade por unidade substitutiva, a saber a troca que se pode estabelecer na cesta básica de um produto inflacionado por um outro, obviamente de menor procura e mais barato.
GLOSA A fúria da privatização (e terceirizações, às vezes um sinônimo) é de tal ordem que a nossa Prefeitura Municipal está cedendo o calçadão para mostra (em barracas enormes) da Uniandrade na promoção dos seus cursos. Amanhã chega a vez do Positivo e das demais, um verdadeiro mercado persa, no caso de interesses de caráter puramente mercantil. É avacalhação demais.
EPIGRAMA Tão desorganizada a eleição na OAB-PR em Curitiba que parecia até um ritual de sincronia com a apuração do pleito dos States. Filas de automóveis intermináveis, uma confusão digna de uma Babel. Isso sem bate-chapa. Dá para imaginar o rolo que daria se houvesse contraste eleitoral. Ainda bem que o salão de automóveis, lá instalado, não teve grande movimento.
SPRAY O silvo da panela de pressão há muito tempo já operou: a insegurança da população chegou ao limite. Só que o governo estava querendo uma espécie de estado de sítio para chegar à tolerância zero e teria apelado para uma figura insólita do direito - o mandado de segurança coletivo.- O governo que detém o jus imperi (ou pensa deter) acredita no caso agir em nome de todo o povo, tal qual fazem militares quando das quarteladas, ao afirmarem que a revolução, na verdade um golpe, se autojustifica institucionalmente, sendo uma fonte geradora de direitos.- Autoridades judiciárias resistem à pretensão, já que o conceito original do mandado de segurança é o de proteger direito líquido e certo que no caso não há e lembraria um simulacro de Ato Institucional.- Criatividade no campo do direito sempre dá nisso: se com os dispositivos atuais, a polícia acabou se comprometendo com o crime, como se viu nas apurações da CPI (a nacional, é claro) do narcotráfico, dá para imaginar a quantas chegaríamos com mais liberdade. Como diria Pedro Malan: é preciso parametrizar o que é direito do que é despotismo.- Emília Belinati tem sido de uma lealdade extrema ao governador Jaime Lerner na sua substituição. Não teve até hoje um tratamento de reciprocidade. Como se anuncia mais viagem àquele domicílio do norte (se for pela Estátua da Liberdade, poderia visitar a Havan, ali na BR-116 que a veria com um toque ecológico de tão esverdeada e mais radicalmente kitsch do que as suas obras), ela se vê obrigada a colocar as suas posições de forma clara. Para o governo a vantagem é que o que for dito o será com elegância e delicadeza.- Na campanha Cassio Taniguchi não foi tão contundente como agora na resposta que deu ao promotor que o enquadrou e à primeira-dama, mais alguns auxiliares, em crime contra a administração pública. A rigor nem ele e nem o procurador de Justiça deveriam discutir pelos jornais e sim no âmbito próprio do Judiciário.- A Praça Osório está entregue aos bandidos com roubos sucessivos. Pergunta-se: para que servem as câmeras afixadas com tanta propaganda? - Primeira Hora derrubou um tabu suposto de resistência a tablóides. Antes dele isso já ocorrera com o esportivo Lance e remotamente com Curitiba Hoje de Cícero Catani. Aqui alguém dá um chute sociológico e vira axioma. Jornais de bairros, bem-sucedidos, são tablóides.-
APELIDO Um político, que gosta de atribuir-se virtudes de Don Juan, foi chamado de piloto de provas do Viagra, o que aliás tem dois sentidos. Pode ser uma coisa e também outra, radicalmente oposta.
FOLCLORE Saque do Jô Soares sobre o que teria ocorrido com o presidente ditador do Peru, Fujimori.A mãe o teria aconselhado: fuji, filho, se não móri! Infame não é a piada. É o quadro político: o congresso peruano virou machão e não aceitou a renúncia e impôs a destituição, o que poderia ter feito com alguma antecedência. Morta a onça, todos pisam em cima da fotografia.
CROMO Michelângelo pediu à escultura que falasse, pois a Pietá, segundo os observadores mais sensíveis, respira doce e suavemente.
AFORÍSTICO Por que há esse clima de Baile da Ilha Fiscal por aí quando estamos ainda com mais dois anos deste governo? Para a oposição, que sempre exagera até por obrigação, ele já lembraria um cadáver insepulto, uma espécie de Gregor Samsa, de Kafka, que despertou e se viu transformado em barata.





