Luiz Geraldo Mazza
Nada mais adequado ao clima que precede o Natal do que lembrar das vaquinhas de presépio, afinal figurinhas bucólicas, mugindo na relva a sua passividade. Pois não é que os deputados da base governista, depois de ameaçarem o governo com pedidos de informação e CPIs, criando-lhe constrangimentos como o de uma investigação profunda nos Jogos Mundiais da Safadeza, não resistiram ao poder de sedução e fascínio do governador Jaime Lerner, no caso operando como um pastor habilitado a dobrar rezes desviadas, e do seu auxiliar Alceni Guerra.
Há muitos anos assistimos, a despeito dos avanços da cidadania, a submissão histórica do Legislativo ao Executivo. Fingir ressentimento e oposição é uma arte em que as bancadas oficiais se especializaram. Só tivemos democracia com Richa no poder, quando foi possível levar ao Legislativo a questão do indevido pagamento de comissões em dólares pelo secretário da Fazenda, Erasmo Garanhão, denunciado pelo titular da pasta de Planejamento, Belmiro Castor. Dois deputados valiam todas as bancadas que tivemos de lá para cá em eventual postura de oposição: Luis Alberto Martins de Oliveira e Airton Cordeiro são os autores da façanha. Aníbal Khury, certa vez, lembrou que Pedro Tonelli valia por toda a bancada do PT. Pois bem: Luis Alberto e Airton Cordeiro marcaram o último momento de oposição verdadeira na Assembléia Legislativa dessas últimas duas décadas. A rigor, pouco mudou do regime militar.
Uma bancada capaz de fazer reverter uma CPI, já instalada, no caso da sombria negociação entre Copel-Sercomtel e Banco FonteCindam, é a essência da farsa, da bufoneria que há nessas manobras rasteiras para obter vantagens. Ora, há um desconhecimento essencial do papel do Legislativo, como poder político, da parte dos que vivem a dar os anéis para salvar os dedos nessas transas e que fazem um joguinho solerte com a opinião pública fingindo uma firmeza que jamais tiveram. Teremos certamente o abono de Natal indireto como uma das moedas de troca, se for imposta a sequência de sessões extraordinárias, isso sem falar em dotações para atender municípios da base dos deputados.
Em Londrina, se a sociedade confiasse apenas na oposição, Belinati lá estaria na maior tranquilidade. Numericamente seria impossível vencer a bancada oficial, majoritária. A pressão da comunidade, mais o respaldo do Ministério Público, tudo resolveu. Aqui, centro do poder e das mesuras, isso parece mais difícil. No entanto, não custa nada tentar, o que deixaria constrangida, de qualquer forma, a maioria parlamentar.
AXIOMA
Querem a implosão do Fórum de Curitiba no Dia da Justiça, mas isso só seria legítimo se fosse providenciada a investigação de tudo em profundidade, já que as omissões alcançaram todos os poderes de Estado
BIZARRICE O senador Alvaro Dias, como se estivesse interrogando o pessoal na CPI do Futebol, declarou como questão fechada a instalação das CPIs dos Jogos da Natureza e do Pedágio. Volta e meia ele destoa da linha do governo tucano e se acha no direito de cobrar a fidelidade alheia, quando seu exemplo não é bom.
Outra coisa: o senador está impedido de falar em fidelidade partidária, ele que sempre foi um itinerante do PMDB, PP, PST e agora PSDB, sempre na linha da conveniência pessoal. Um Garrincha na arte de driblar siglas.
GLOSA Se sair a composição Hermas Brandão (presidente) e Valdir Rossoni (secretário) na Mesa legislativa, a oposição vai sobrar. Ela só cresce no racha, mesmo quando é fantasiado, como se viu nas últimas manobras.
EPIGRAMA Voltar atrás nunca mais foi o teaser da campanha de Requião em 85 quando venceu Lerner na Prefeitura de Curitiba. A frase é de um português atroz. De lá para cá, um dos que mais voltaram atrás foi o senador, ao impor agora a candidatura do irmão Maurício na malograda eleição municipal e na tentativa de retorno ao governo estadual, na qual dançou, e nessa outra, renovada, que programou para sexta-feira em Foz do Iguaçu.
Dizia-se, aliás, no Oeste, quando começou a ventania de anteontem que aquilo parecia a chegada, antes do tempo, do senador.
SPRAY Oportunismo dos políticos é incrível: forçaram Antonio Belinati a sair do PFL e fizeram o mesmo com o Jairo Gianotto, de Maringá, no PSDB. Era o ungido de Lerner e Alvaro Dias e todos agora despistam. - O poeta Sidônio Muralha dizia se caráter custa caro pago o preço, verso citado por Requião a três por dois, o que dá a entender que a máxima não é aplicável a todos. - Até agora esqueceram do Jocelito Canto, também PSDB, de Ponta Grossa, que já esteve às voltas com o Ministério Público, mas as coisas não prosperaram. - Flui pela Internet um texto atribuído a Dalton Trevisan numa nova versão das Lamentações de Curitiba, atualizada, e que picha os vencedores da última eleição. O estilo é parecido, mas não igual. Trevisan tem horror à pompa e às picaretagens da grife lerneriana, porém dificilmente se engaja em política. - A reinclusão de crianças e menores de 18 anos em Laços de Família criou problemas de continuidade no capítulo de anteontem. A Globo iria apelar para a ironia de botar uma boneca em lugar de uma criança. O problema não é esse, mas o conteúdo das novelas de um modo geral, mais libertino do que liberal. A mais contundente reação foi a da Igreja Católica ao cassar a capela que serviu de cenário para o casamento de Edu e Camila desde ontem para atos religiosos. - O título ontem conferido ao deputado Nelson Justus como Personagem Aecic o obriga a uma reflexão quanto à sua nomeação para a pasta dos Transportes: ela está sem dinheiro (R$ 17 milhões), tem o ônus do pedágio e é duro desafio.
FOLCLORE Essa do publicitário (petista de carteirinha) Carlito Maia, é de lascar. Brasil? Fraude explica. E como explica em todos os setores, incluindo a oposição, como se viu aqui em Curitiba ao elogiar o adversário ao invés de pelo menos questioná-lo. Às vezes, porém, Freud explica.
CROMO Se muito se tece o amor ele não fica amortecido?
AFORÍSTICO Violências reais contra as crianças outro dia uma delas, de 8 anos, morreu de overdose de estupefaciente na Carlos de Carvalho acabam mais aceitas do que as do mundo virtual. País esquizóide é isso aí.





