Os feitos esportivos da semana mostraram o quanto nos falta representação política: três clubes do Paraná na atual fase do campeonato nacional de futebol revelam que só São Paulo nos ultrapassa em número de participantes. O Malutron, campeão da terceira divisão, obteve o feito na capital e não havia qualquer representação, quer da Federação Paranaense de Futebol, quer do governo no Estádio Durival de Brito, local da finalíssima.
Não se pode dizer que o poder público é indiferente ao esporte quando monta centros de excelência de vôlei e basquetebol e patrocina um empreendimento de vulto como a Maratona Ecológica. Títulos nacionais do vôlei e basquete feminino, isso sem falar nas conquistas dos jogos estudantis, mostram que a via adotada é correta, como também a sofisticação buscada em instituições como a chamada ‘‘Universidade do Esporte’’.
O que não se pode entender é a insistência do governador Jaime Lerner em manter o regime de caixa-preta numa iniciativa, de resultados discutíveis, tanto na parte esportiva quanto na do turismo, como a dos Jogos Mundiais da Natureza, cuja segunda edição se encontra praticamente no disparo, apesar das evidências de irregularidades e não-cumprimento de metas infra-estruturais em Itaipu nas chamadas bases das competições poliesportivas.
Dá impressão que a cultura da CBF, com todas as suas deformações de mandonismo, parece contagiar a iniciativa, imaginada para consolidar a Costa-Oeste, diante da qual ainda permanecemos de costas, pelo menos daqui da sede do poder político.
Na primeira edição todos se recordam do vexame que foi o atraso no pagamento das contas dos hotéis que receberam as delegações nacionais e internacionais em Foz do Iguaçu, o que revela o açodamento, a preocupação com espetáculo e não com resultados efetivos para irrigar a economia da região. A dependência da performance sobre os resultados reais é marca do nosso estilo.
AXIOMA
Se as fotografias de Sebastião Salgado são amargas e típicas do neo-realismo italiano não há como torná-las mais doces, ainda que se procurasse fazê-lo sem açucará-las
BIZARRICE Rubinho Ferreira não é apenas um gozador quando dá sacadas de caráter político. Agora está disposto a fazer, em Guaratuba, o 1º Campeonato de Arremesso de Coco no dia 3 de dezembro, na praia central. ‘‘Se a gente falar em vôlei ou futebol de praia, motocross ou pesca não motiva porque todas as praias o fazem. Já um de lançamento de coco primaria pela originalidade.’’
GLOSA Consequências de campanhas eleitorais parecem eternizar-se: semana passada foi pedida a prisão de um ex-dirigente do ‘‘Correio de Notícias’’ na condição de depositário infiel. O jornal, que apoiou Lerner, na primeira eleição, é alvo até hoje de incontáveis pendências por ter ‘‘quebrado’’ nas mãos de aliados de campanha. O ocorrido dá bem a idéia de como será difícil disciplinar a contabilidade eleitoral.
EPIGRAMA Falta de prestígio político do Paraná, apesar dos nossos feitos (3 emplacados no módulo azul do nacional de clubes), é visível: a maratona de Curitiba, várias vezes mais importante do que a da Pampulha, Belo Horizonte, não tem merecido qualquer destaque, inclusive da Rede Globo, que dá todo o amparo à promoção mineira, de menor expressão, segundo especialistas da área.
SPRAY Até quando iremos registrar, como naturalidade, transbordamentos da PM em abordagem de jovens, como se deu em Contenda? - A cada ocorrência dessas repete-se o ritual: policiais envolvidos são afastados, para o aguardo do final das investigações. Muitas vezes, como se deu com o tenente Lobo, há reincidência e com morte. - Se a nossa Polícia, tanto Civil quanto Militar, tivesse que encarar uma parada como a do Rio, em que os milicianos não podem sequer andar fardados, seria o caos. - A analogia é devida porque na escalada da violência há muito tempo a instituição está perdendo as batalhas e parece incrível que não tivemos sequer as vantagens pedagógicas da passagem da CPI das Drogas por aqui. Tanto que a ação de roubo de carros e desmanches, estatisticamente, persiste, a despeito de tudo o que foi apurado e da prisão do Caboclinho. - A procura de vagas na PM (mais de 11 mil candidatos para 750 vagas) mostra a que ponto anda a crise: salário inicial de R$ 600, mais as vantagens adicionais e estabilidade, entusiasma. Há, no entanto, um problema de tempo na parte relativa ao adestramento desses candidatos. - O secretário-chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, passou, ontem, boa parte da tarde buscando conter os ânimos da base aliada que, como sempre, tenta se alimentar no andamento das barganhas. Ameaça de mexer em caixa-preta como a dos Jogos Mundiais da Safadeza, a da venda de ações da Sercomtel para a Copel e a destinação da grana pela prefeitura (gestão Belinati) ou ainda a do pedágio bota a estrutura do governo em distonia neurovegetativa. - Deficiência do governo é não ter na Assembléia, em sua cúpula, um negociador com a pegada e a diplomacia de um Aníbal Khury. - Além de tudo, um dos que se alimentam dessas crises é o deputado Hermas Brandão, pretendente à presidência, e que não tem o aval do oficialismo, mas já engajou boa parte da base aliada e oposição.
FOLCLORE A Renault, que hesitou em apoiar até mesmo o time de basquete feminino da Hortência, inscreveu sua marca na camisa do Malutrom e obteve um retorno: um título nacional, ainda que da terceira divisão. Quando o Coxa foi campeão brasileiro, em 1985, a Britânia, fábrica de eletrodomésticos, apareceu nas transmissões de TV, nos milhares de pôsteres, nas fotos de jornais. Isso favoreceria também o ranking do ‘‘top of mind’’.
CROMO A mosca azul, a que se referem poetas e cronistas, é a varejeira que também, com seus ovos, leva a berne aos homens e animais. No entanto, ela tem um significado de sinalização para o poder, cujo efeito está bem definido no ciclo parasitário.
AFORÍSTICO Ao final de todas as conversas, veremos, uma vez mais, que em nossa Assembléia Legislativa não há lugar para o culto do poder autônomo e sim o da submissão, o de ‘‘vaquinha de presépio’’, como sempre aconteceu, entremeado de algumas ameaças de liberdade, como acontecia na semana passada.

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