Com o problema das restrições impostas judicialmente contra a novela ‘‘Laços de Família’’ volta o País a defrontar-se com o dilema virtualidade-realidade que se insere em nosso cotidiano. Há quem diga que a nossa vida se esgotou de tal forma de sentido e vibração que buscamos compensação especialmente nisso que chamam de folhetim eletrônico. Já se dava anteriormente, embora a época não fosse de tensões num país ainda ruralizado, lá pelos anos 40 e 50, com o rádio com a novela ‘‘O Direito de Nascer’’ de Felix Caignet. Lembro de minha mãe e as vizinhas falando dos personagens como se fossem integrantes do seu dia-a-dia como o doutor Albertinho Limonta e mamãe Dolores, aqui no Paraná admiravelmente interpretada, numa versão do Canal 6, por Odelair Rodrigues.
Essa busca do sonho foi, antes, o forte do cinema, quando as casas de espetáculos tanto se ajustavam, por sua imponência, à identificação heróica e a catarse, compensações e transferências psicológicas, que faziam dessas vivências aquilo que os ‘‘zangados’’ chamariam de alienação e fuga, como se uma certa dosagem disso não fosse boa, e até necessária, para todos nós.
Temos, no Paraná, um especialista em virtualidade no governador Lerner. Ele criou uma ideologia sobre Curitiba, uma ‘‘reconstrução’’ da realidade e que até hoje prevalece, embora o modelo esteja longe de convencer, mesmo com todos os prêmios, até internacionais, que recebe. Por aí se vê que nem sempre o virtual é virtuoso, mesmo que carregado das mais generosas razões.
Citei casos em que o mundo virtual cruza com o da realidade: casamentos de atores em função de papéis em novelas (um dos clássicos o de Felipe Camargo, Édipo, com Vera Fisher, Jocasta, ajustando-se ao raconto mitológico), conflitos como o que abateu Daniela Perez. Um fato importante se deu na versão de ‘‘O Pagador de Promessas’’, sob a direção de Tizuka Yamazaki, uma série da Globo, que era apresentada no fluir da Constituinte e que o líder ruralista Ronaldo Caiado conseguiu tirar do contexto tudo o que se relacionasse aos
sem-terra, pois naquele momento se discutia a possibilidade de reforma agrária até em terras produtivas, o que cairia na sequência.
Discutia-se, por exemplo, se o autor Dias Gomes tinha o direito de botar
sem-terra no texto quando isso não constava do filme e peça originais, aquele premiado em Canes. Ora o autor ou mesmo um diretor, quando autorizado, pode fazer adaptações, no caso uma atualização, já que no original o Zé do Burro em sua briga com a Igreja, que não admitia que nela entrasse com uma cruz para pagar uma promessa em favor de animal de sua propriedade, havia misticismo e poesia e muito pouco de reivindicação política e social.
Se um texto foi alterado em pleno debate constitucional, por que não pode a Justiça intervir na interpretação de diplomas legais? Antipática a medida, mas eficaz ao suscitar o direito de instituições como a Igreja e a família; afinal, entes intermediários entre o Estado e o indivíduo, discutirem os arquétipos e valores que a televisão, no seu radicalismo liberal, projeta.
ANEDOTA
Sobre encenações há uma história, aqui já referida, do advogado René Dotti, que foi um dos melhores atores caricatos que tivemos. Ele conta que num melodrama um ator tinha que simular um esfaqueamento e a vítima, que carregava uma bolsa vermelha para sugerir sangue, cair. Na hora da facada, a bolsa caiu no meio do palco e depois dos segundos de perplexidade o esfaqueador dirigiu-se, a faca em punho, para a bexiga, perfurando-a com o grito: ‘‘Não me escapas, consciência!’’
PREMIÊ Para quem tinha dúvida sobre o papel que Rafael Greca exercerá no governo deu para perceber, nos últimos dias, que vai muito além da condição de secretário de Comunicação Social. Ocorre que passou a conversar com os deputados isoladamente e também em grupo no empenho de remover divergências. Com isso surge como o primeiro-ministro de um sistema presidencialista. É mais decidido e impulsivo como já o demonstrou quando Lerner queria Cassio Taniguchi e ele acabou se impondo junto às bases do então PDT.
FURO Aos poucos vão sendo conhecidos detalhes de um furo em comitê de campanha. Falava-se num desvio de R$ 6 milhões. Agora apareceu outro, de R$ 1,3 milhão! Um grupo de empresários havia dado R$ 2 milhões. Todavia, na contabilidade só ‘‘pintaram’’ R$ 700 mil. A pessoa, responsável pela custódia, entrou em crise nervosa e agora está dando milho pra bicicleta.
JOGOS O governo estadual não quer saber de apurações sobre os Jogos Mundiais da Safadeza e mantém a idéia de sustentar a promoção de Foz do Iguaçu. Como se pretende deixar a área do Esporte na pasta da Cultura praticamente o mesmo time que organizou a primeira promoção, até hoje mais falada do que investigada, entra em campo outra vez. Só não entram o Tribunal de Contas, até agora limitado ao chio do Parque da Barragem, e os deputados que afinal só fingem irritação com o governo.
COXA Um murmúrio entre os coxas-brancas sugere a existência de movimento para que o ex-secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, venha a presidir o clube. Com a saída do Sérgio Prosdócimo, com saúde abalada, pensa-se também num triunvirato com os empresários Salomão Soifer e Miguel Krisner. O Coritiba, embora livre da ‘‘lanterninha’’, entra em pane se não houver resposta rápida para os feitos dos times da capital, do Atlético ao Paraná, passando até pelo Malutron, do ex-presidente coxa, Joel Malucelli.
RELÓGIO O presidente da Assembléia Legislativa, Nelson Justus, cronometrista de circunstância, acertou os ‘‘ponteiros’’ para bloquear oposição e aliados zangados com muita categoria. Depois de amanhã ele recebe título de Personalidade Aecic do ano e promete chegar na hora para o recebimento da láurea. Enquanto isso quem corre contra o relógio é Greca em suas conversas com os deputados rebelados da base situacionista.

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