Ninguém aceita o retorno da censura, mas é cada vez maior o número daqueles que acham necessário um freio nos abusos da comunicação de massa com a sua pregação aberta de promiscuidade como referência familiar. É, assim, positivo o ocorrido com a Globo no caso da novela ‘‘Laços de Família’’, título irônico em relação à história, a não ser que se pretenda legitimar o hetairismo, não apenas dessa produção, como fundamento comportamental.
O freio acabou chegando com a portaria confusa do Ministério da Justiça sobre restrições por faixa etária. Se havia a sugestão de veto a crianças na sala em que está o televisor, seria compreensível que ela se estendesse àquelas que estão dentro do próprio folhetim eletrônico.
Suruba em horário juvenil é mais do que sugerida na novela ‘‘Uga-Uga’’ em que índias jovens e adolescentes faturam o moço disponível. Curioso é que nenhuma ONG de indigenistas tenha estrilado, não só pela caricatura dos seus rituais como de uma ‘‘civilidade’’ tipicamente global, assentada no hedonismo da moda e da compulsão sexual.
Num lance de ‘‘Laços de Família’’ a confidente de Helena (Vera Fisher) repete o axioma bem machista, aquele grosseiro que se refere ao ‘‘amor de .... que é o que vai e fica’’ ao lembrá-la que ainda pode voltar a transar com o futuro genro e ex-amante. Esses arquétipos seriam decorrentes de toda a sociedade cosmopolita, uma especificidade carioca ou algo que projetasse o clima do ambiente televisivo, tal qual se deu com o cinema, alvo de filmes clássicos como ‘‘A Imitação da Vida’’ e ‘‘O Crepúsculo dos Deuses’’?
A propósito, não dá para esquecer do assassinato de Daniela Perez no curso da telenovela ‘‘De Corpo e Alma’’. Menos romântico do que os inúmeros casos em que os atores acabam levando para a vida real o tumulto dos seus papéis como em ‘‘Mandala’’ em que Vera Fisher (Jocasta) acaba se ligando a Édipo (Felipe Camargo).
Já me referi a um outro pastiche no meio da boa série ‘‘Aquarela do Brasil’’ em que uma referência a sexo anal é feita de forma debochada e direta com o amante quase esfregando por engano no pão o contéudo da pomada lubrificante. Como essas produções são bem-feitas, a bronca dos supostamente intelectuais passa a ser contra o Ratinho que faz uma versão tosca de disputas de gente pobre em torno da paternidade e que acabam, ‘‘construtivamente’’ no exame de DNA, com que se ajusta um instrumento da modernidade a serviço de lúmpens e desgraçados da periferia urbana. Ali é a novela sem glamour.
Todos somos contra a censura. Ninguém a deseja de volta como também não acreditamos que se resolva problemas reais intervindo no mundo ‘‘virtual’’ como se nota nessa preocupação em mostrar os negros em posição destacada, o que se levanta a auto-estima do grupo não elide o fato de que na realidade há mais executados do que executivos. O equívoco do episódio tem um lado bom: discutir a linha dessa dramaturgia que anda, convenhamos, folgada demais. Antes que se achem no direito de mostrar a genitália em primeiro plano.
BIZARRICE
Perto da eleição todos ficam generosos e lutadores: a OAB fez o espetáculo da implosão simbólica do Fórum e retorna à tese da quarentena de juízes e promotores, duas necessidades nem sempre lembradas com a frequência que se faz necesssária
AXIOMA Uma sessão de autocrítica no PT sobre erros cometidos na campanha foi assim interpretada por Rubinho Ferreira: Marcos Isfer e Lerner apontados como os culpados da derrota de Vanhoni porque tiraram o time no segundo turno. ‘‘Se ficam, o PT ganha’’ – diz o Rubinho, debochando como sempre.
GLOSA Relatório da CPI das Drogas (a quente, a federal) vai pedir a prisão de 25 pessoas do Paraná. Até agora essa CPI estava apenas prendendo a atenção.
EPIGRAMA Sobre a disputa da Rádio e TV Educativa entre os secretários de Cultura e Comunicação Social, Rafael Greca se apressou em dizer que nada tem contra a Mônica. Só faltou alguém dizer que não se trata da Mônica Santana, sua assessora desde o Ministério, e sim da Rischbieter.
SPRAY Só um governo, sabidamente centralizador e autoritário, passaria a Rádio e TV Educativa para a área da comunicação. Modelo getulista como o que Lourival Fontes controlava no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e meio na linha de Goebbels. - Rafael Greca tem muita semelhança de talentos e estilo com Roberto Requião. Não é de espantar que venha a pretender a passagem desses instrumentos culturais à comunicação. - Ocorre que aí se daria ao problema cultural uma característica de proselitismo, mobilização e com interesse partidário. Dá para lembrar de um episódio do governo Requião: a divulgação da ida de vereadores e políticos ao escritório do secretário do cartel de transporte coletivo, João Simões, epigrafada com o título ‘‘Ligações Perigosas’’. - A TV Educativa foi sentenciada pela Justiça pelo uso indevido dessas imagens e tem que pagar indenização. - Não se sugere que Greca repetiria esse procedimento. Todavia, o sistema existente ficaria sob ameaça de algo assemelhado, ainda mais quando o secretário, no caso, é candidato a governador. Com isso faria um desequilíbrio na base aliada, tirando o traço de igualdade na emulação. Até, pois, sob o ponto de vista ético-político seria inadmissível. - Desde Alvaro Dias rádio e TV ficaram na área cultural, posição que era dos secretários de Educação (Belmiro Valverde), de Comunicação (Fábio Campana) e de Cultura (Renê Dotti). - Ministério Público (área de defesa do patrimônio público) processa o prefeito Cassio Taniguchi, a primeira-dama, vários secretários como enquadrados em crime na atuação da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos de Curitiba (Cosmo) por aplicarem recursos públicos em tarefas (jardinagem entre outras) sem licitação.
FOLCLORE É pedagógico lembrar de uma piada mais sobre a Constituição de 1891 do que a República, proclamada dois anos antes: um ironista afirmou que, por decalcar o modelo americano, a Carta Magna era fatiota larga demais para o Brasil-jeca e havia uma dúvida básica em saber se se convidava um alfaiate para adaptar o modelo ao corpo ou se se deveria esperar que este crescesse para nele, enfim, ajustar-se. Essa é anedota para hermenêutas e exegetas.
CROMO A torcida, em revolta, jogando a bandeira brasileira no gramado ante a espera, impaciente, do gol. Ainda bem que o regime militar acabou.
AFORÍSTICO Estrada do Colono pode abrir. Caixas-pretas oficiais fecham.

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