Um dos pontos que abordei no encontro de anteontem do PPS foi a questão do compromisso de nomenclatura que tem de ser algo mais do que uma sedução em torno de uma sigla. Lembrei que historicamente Getúlio Vargas ao fundar os dois partidos, que lhe dariam cobertura, o PTB para o nascente proletariado urbano e o PSD voltado para maioria (80%) que viviam no campo, buscou com o primeiro deter a marcha do Partido Comunista e neutralizar o seu proselitismo no meio de operários, comerciários e industriários.
O PSD se pretendia, no próprio nome, um partido social-democrata, referência comum na Europa dos anos quarenta e cinquenta, à esquerda não leninista e que buscava soluções fora da ruptura revolucionária. Ora, ainda que PSD tivesse grandes nomes e até de humanistas relevantes como o de Agamenon Magalhães, pai do prefeito Roberto, de Recife, sempre se caracterizou como conciliador e com uma vocação congênita para o poder, muito assemelhada à do PFL.
Estava longe o PSD, como de resto se daria com o PDS, surgido no regime militar como sucedâneo da Arena, de expressar em qualquer sentido, mesmo no mais brando possível, a social-democracia. O PSDB, que também tentou expressar essa busca ideológico-doutrinária, em termos práticos, é menos social democrata do que o Partido dos Trabalhadores como efeito-demonstração.
Alertei para o risco desse nominalismo que não leva a lugar algum e tira da ação política aquela referência utópica sem a qual é impossível imaginar uma verdadeira mudança na sociedade. É indispensável o compromisso democrático, evitar a falseta sedutora de acreditar-se a solução insubstituível que leva ao xiitismo fundamentalista, de traço religioso, que aliás ameaça o PT inclusive na busca da utopia regressiva do agrarismo. O socialismo realmente existente, o da União Soviética e satélites europeus, não passava de um Estado policial, apesar dos seus avanços na industralização, na ciência e tecnologia.
O socialismo, essencialmente, deveria dispensar o adjetivo de democrático, pois o contrário se constituiria numa antinomia. Como não teria sentido chamá-lo de trabalhista, já que esse segmento da produção, hoje submetido ao domínio do capital financeiro e caracterizado pela precarização, deve ser sempre o núcleo chave de uma economia humanizada.
O PPS, no momento em que colhe vitórias nacionais, deve perseguir a perspectiva de poder, buscando na democracia a construção gradativa dos valores socialistas. Do coro democrático se faz a correia socialista.
BIZARRICE
Se o Ângelo Vanhoni tivesse lido com atenção a página 27 do programa coordenado pelo filósofo Emmanuel Appel não teria sofrido aquela amnésia no debate eleitoral. No oitavo item das propostas na gestão energética está escrito o seguinte: ‘‘Revisar os resultados alcançados pelo PROCEL-ELETROBRAS, identificando também o destino dado às luminárias, reatores e lâmpadas a vapor de mercúrio em bom estado, que foram substituídos por equivalentes a vapor de sódio durante as duas últimas gestões.’’ Vejam o detalhamento crítico das anotações que seria suficiente para dar uma entupida, pior do que a de jabuticabas, no prefeito interpelante. Mais do que cochilo, um estupor.
AXIOMA Vereadores de oposição que criticam a terceirização de veículos da prefeitura não têm moral para chiar, já que a maioria esmagadora aceita a partilha de três carros para cada um. Um dos poucos que têm o direito de estrilar é Tadeu Veneri.
GLOSA Há áulicos incríveis como críticos à esquerda que tentam sugerir, forçando a barra logicamente, que um dos seus ídolos é uma espécie de Guevara gordo ou de peruca.
Sobre Guevara há aquela frase seca de Klaus Barbie, carniceiro de Lyon, dizendo que ele, no exército alemão, não chegaria ao posto de cabo. Poucos marechais e generais incendiaram tanto a mente dos jovens como o Chê.
EPIGRAMA O Banestado, apesar de absorvido pelo Itaú, pode conservar a marca, altamente identificada com a terra. Tal qual se deu com o Banerj. Dia 20 a agência Murici, uma das principais, comemora o seu trigésimo aniversário. É uma forma de manter vivo o histórico da organização.
SPRAY Ao não dar traço político ao seu secretariado, a despeito das inúmeras expectativas que gerou, o governador seguiu um itinerário de conflito com a sua base aliada. Hoje na Assembléia os deputados devem aprovar requerimento sobre a eficiência ou não do sistema de estradas pedagiadas.- Objetivo é apenas o de esclarecer, de uma vez por todas, se o programa está ou não funcionando em favor dos usuários. Dá para prever em breve os sucessivos anúncios em todos os meios de comunicação de propaganda institucional do sistema.- Não é a primeira vez que isso ocorre, mas antes o bombeiro que apagava todo o início de incêndio era Aníbal Khury. Hoje nem a Mesa da Assembléia Legislativa, com maioria governista, está disposta a sacrifícios.- Depois de mais de 30 anos fechada, reabre amanhã a boatinha do Clube Sírio-Libanês.- A artista plástica e professora Sônia Gutierrez liderou movimento denominado S.O.S. Paranaguá, destinado a conter as agressões ao patrimônio artístico e cultural da cidade.- Eleonora Gutierrez, irmã de Sônia, também artista plástica, investiu na questão dos ilhéus: no ano passado visitou mensalmente a Ilha das Peças e neste a do Superagui. Levaram médicos e remédios, pois não há assistência nas ilhas e são notórias deficiências de saneamento básico, de problemas na economia com barcos rastreadores fazendo um massacre na fonte de produção quando não atingem as suas redes e demais equipamentos de pesca.- Diz ela melancolicamente que dá para reproduzir o que Saint Hilaire descreveu em 1820: ‘‘Eu fui até um deles e não encontrei senão um mísero casebre...’’- E depois o governador ainda fala em Baía Limpa! -
FOLCLORE Consta que aconteceu em Cambará: o centroavante de um time estava comprado e pedia ao goleiro adversário para aproximar-se e lhe tomar a bola, enquanto o arqueiro, que estava na gaveta, pedia para ele chutar que o gol sairia. Por sinal que quem era roubado mesmo era a Cambaraense no campeonato.
CROMO A sutileza do amarelo da laranja e a maciez da pele de pêssego, tudo da infância, em que buscamos o sensorial e achamos o senso real tal qual Proust.
AFORÍSTICO Dá para imaginar como estará o governo no fim de 2002!

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